quarta-feira, 25 de junho de 2014

Orchestra em cachos

de Bananas tropicálias
por maneco nascimento

A Orquestra Sinfônica de Teresina falou a língua das notas antropofágicas do tropicalismo de Torquato, Caetano, Gil, Rita, Mutantes, Duprat, Macalé, Salomoon e o transversal do tempo em Torquato, Oiticica, Glauber, Ivan, Sganzerla, Bressane e tantos outros sinais e signos e siglas em polifonia do tropicalismo vigente e gerador de novos moto-gerações, heranças musicalmente eficientes e sonoramente criativas e devoradoras. Os dias eram assim.
(arte divulgação/reprodução)

Em temporada aberta aos dias 24 e 25 de junho de 2014, às 20h30, no Theatro 4 de Setembro, o espetáculo "Concerto Tropicália" estreou com pompas e circunstâncias orpheônicas de despertar atenções e recheadas de alegria e música e virtuose instrumental para ninguém botar nota fora da escala orquestrada. Aurélio Melo e o corpus da OST sabem por onde caminham as propostas e arrojados ímpetos sonoros.

No repertório do "Tropicália", os instrumentos da OST, que crescem dos percussivos, sopros e metais, baixos, violinos e celos e a batuta acertada na escala de expansão, abriram bandeiras tropicais do século XIX aos melhores dias sessentões do século XX e alhures. De "O Guarani", de Carlos Gomes, a "Cajuína", de Caetano Veloso, só deleite como menu de abertura. Na sequência, um pout pourri trop-trop de chegada ao mapa de melodias a serem apreciadas pela recepção concentrada.

O quarteto fantástico de vozes femininas, as nereidas ópera pop Luana Campos, Juliana Lima, Sabrina Johanne e Gabi Barreto, preenche de alegria contagiante vocal o corpo instrumental sonoro que rege a marca dialógica da Orquestra Sinfônica de Teresina em novidades e reinvenção da tradição e modernidade.

(as nereidas do Concerto Tropicália/fotos Frederico Marroquim)

No repertório, "Alegria Alegria", "Domingo no Parque", "Deus Vos Salve a Casa Santa", "A Rua", "Mamãe Coragem", "Marginália 2", "Geleia Geral", "Panis et Circenses", "Zabelê", "Sem Lenço, Sem Documento" et all tropicalístico intertextual.

A cenografia, composta por um mar de instrumentos afinados e instrumentistas indispensáveis, preencheu o palco do 4 de Setembro com toda sua + musical presença. No contraponto, fundo projeção, imagens, ícones, pontos cardeais da linguagem que ganharam força no movimento tropicalista e seus desdobramentos estético, plástico, artístico e modernos que nasceram da conformidade do velho. Os filmes, que deveriam ser de passagem de músicas a repertório presente, tiveram papel + ilustrativo que determinantes de dramaturgia de cena aproximada.

O Áudio discurso e imagens a "É Proibido proibir", com Caetano Veloso, ganha peso de revisitação das falas inflamadas e apêndice de ilustração no Concerto e toma um tempo + longo que o habitual a show caloroso e musical. No discurso registrado, aos compêndios da história da MPB, o compositor combatia a contra-atenção do público que vaiava a música É Proibido Proibir.

As vaias vinham depois do impacto  que as guitarras haviam causado, no ano anterior, com as canções "Alegria, Alegria", do Caetano, e "Domingo no Parque", de Gilberto Gil, apresentadas no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record. "É Proibido proibir", a canção e "Questão de Ordem" traziam de volta os compositores baianos em nova surpresa ao público no III FIC, Festival Internacional da Canção, promovido pela Rede Globo, 1968.


"Os Mutantes mal começaram a tocar a introdução da música e a platéia já atirava ovos, tomates e pedaços de madeira contra o palco. O provocativo Caetano apareceu vestido com roupas de plástico brilhante e colares exóticos. Entrou em cena rebolando, fazendo uma dança erótica que simulava os movimentos de uma relação sexual. Escandalizada, a platéia deu as costas para o palco. A resposta dos Mutantes foi imediata: sem parar de tocar, viraram as costas para o público.

Gil foi atingido na perna por um pedaço de madeira, mas não se rendeu. Em tom de deboche, mordeu um dos tomates jogados ao chão e devolveu o resto à irada platéia. Caetano fez um longo e inflamado discurso que quase não se podia ouvir, tamanho era o barulho dentro do teatro. A apresentação de “É proibido proibir” acabou se transformando num happening acaloradíssimo naquela noite de domingo, 15 de setembro de 1968. Na final paulista do FIC, realizada no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, a música de Caetano foi recebida com furiosa vaia pelo público que lotava o auditório." (fonte: http://tropicalia.com.br)

O "Tropicália", um ótimo concerto à MPB quente e devoradora, mas com a presença de um corpo estranho que cai na falha trágica, sem merecer linguagem cênica. Simone Castro entra algumas vezes e intervém, sem vida de artista, em tão enxuto show. Jamais nasceria em sua cabeça um cacho de bananas, nem anarquizaria com tranquilidade o cabelo cortado quando a vida pesasse.

Os textos da prosa poética e de falas ricas e eixos torquatianos, prazeres poéticos e proféticas poesias, na locução da moça ganharam desintenções e inflexões de cerimonial da prefeitura, intempestiva leitura vazia de Simone Castro.

Revirado na cadeira estive eu e o poeta que desfolhou a bandeira, com licença poética intransitiva a sua fala e identidade, se revirou no túmulo. Nem boa menina, nem aprendiz, não sinalizou fugindo pela janela do corredor. Nada + clichê e fora de contexto que as intervenções da locutora apresentadora que, enquanto jornalista de formação comunica e deixa ruídos incorrigíveis à poesia.

Num viés de pavão, sem leque aberto a novas compreensões do ouvido artístico e sem falas socioculturais de antropofágica intenção, fica no falso brilhante e fora do furacão do intransferível que, mesmo na medida do impossível, quebra paradigmas. A moça nem decifra-se, nem devora-se. Não rendeu res, nem cordão. A cama está feita, está posta, mas a cerimonialista não aprendeu a deitar.

No contraponto da locutora apresentadora, uma espetacular sinfonia afinada de efeitos raros e musicais e as belas nereidas, em ofuscante brilho de cisnes, que ensinam que o patinho forjado da jornalista não é nem bossa nova, pois a vida segue em frente, e não guarda qualquer sinal de milagre fabular. Em poucas palavras, uma presença dispensável. E não há Torquato que salve essa boa intenção criada de incluí-la no "Concerto Tropicália".

Mas todo o corpo principal e corpus atuante do "Tropicália" é um luxo só e quem perdeu a oportunidade de ver esse espetáculo de Aurélio Melo e OST vai ficar na porta de saída, sem entender como vinga o poeta e sua tropicálica de pronome pessoal intransferível que cogita o pensar e apreender. E, quem não entender que entendesse, como diziam os vaticinadores setentões.

Aos ritimados, atraentes e arrojados arranjos, do mestre Melo, à recepção de ouvidos livres, vida longa ao "Concerto Tropicália".

'"Caiu um cacho de banana na minha caceta", corta!'

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