domingo, 12 de fevereiro de 2017

Crispim

segundo Ato
por maneco nascimento

Depois de uma ousada e feliz primeira investida em "Crispim e a Sétima Virgem", Eduardo Prazeres se nos apresentou o segundo volume da Saga do Crispim. Um novo olhar ao "monstro ribeirinho", encantado nas águas do Poti e Parnaíba, o pescador Crispim, filho da lenda e mito da construção social de terras mafrensinas.

Do segundo livro da Trilogia "A Lenda de Crispim", Prazeres concorre ao arremate à leitura curiosa com "A Fortaleza de Crispim".

Obra também instigante, fabular, romântica, e com contornos criativos de recuperar memórias e reconstituir histórias de gentes que se aliam a salvaguardar o metamorfo\mutante, o jovem que há mais de duzentos anos vive a maldição de ser homem, ser bicho aquático, ser duas personalidades na alma e coração de um amaldiçoado.

Os amigos, Os Guardiões da Sétima Virgem, continuam lá, a postos, para salvaguardar o rapaz, a amizade, a paz, o amor, e a relação do casal Crispim\"Cabeça de Cuia" e a mocinha Carol\Maria que detêm uma afinidade de outra existência.

Há uma imersão em referências de policial, suspense, cinema, quadrinhos (fabulares de desenhos animados asiáticos). Mergulho em mitos e tradições ancestrais que se reatualizam para ritualizarem o mote dinâmico de "A Fortaleza de Crispim".

Dessa feita, o "vilão", um armado a samurai de tradição nipônica, vem ao Brasil, Piauí, Teresina, com o propósito de aniquilar o monstro e vingar o irmão que teria morrido às garras de Crispim transmutado (no combate do primeiro livro). Isaac, português dedicado às artes marciais, persegue o "monstro" e às forças de elementos de magia negra persegue Crispim, sem dar-lhe sossego.

Autor doado à Teresina, terra que tem afinidades inegáveis, Eduardo traduz na sua literatura homenagens que vão preenchendo linhas da aventura narrada. Ator e diretor de teatro, o autor não se priva de atrair aos leitores linguagem de memórias de teatro.

O livro está dividido em três atos. 1o. Ato (A Lâmina da Dupla Condenação); 2o. Ato (O Caminho da Transfiguração); 3o. Ato (O Segredo da Fortaleza) onde ocorre o embate final, com recursos de trágico e cenas dramáticas.

Das intervenções que ilustram na cidade, as pessoas, personalidades, locais "GALECO ADORAVA A energia do palco do teatro antes da apresentação. Pisar descalço o tablado do 4 de Setembro, com a plateia ainda vazia, os refletores apagados, sentindo apenas o silêncio e a expectativa dos momentos de poesia cênica (...) - Adalmir, vou ali pro santuário um minutinho - tinha dito no camarim um minuto atrás ao diretor Adalmir Miranda (...)" [cap. 11 pag. 149]

E recortes de lugares, "O dia está terminando, e o trânsito para a zona leste de Teresina nesse horário fica bem congestionado na sua principal via de acesso, a av. Frei Serafim (...) tomou o rumo da Ponte Estaiada, cruzando o bairro Marquês, e enquanto dirige para casa, um pequeno apartamento num condomínio não luxuoso no São Cristóvão (...) Jonas cursava o terceiro período do curso de Direito da Universidade Federal do Piauí (...)" [cap.11 pag. 156]

Mais outras marcas intertextuais diretas, ou indiretas, e pessoas se vão assomando, em efeito, ao deslizar da leitura, enquanto a narrativa vai encorpando e imbuindo o leitor a corroer-se de espera, curiosidade, expectativas do próximos lance.

  "(...) - Vou lhe contar uma história um pouco mais difícil de ser esclarecida do que as de Ross Macdonald e as de Dashiel Hammett (...)", ou "(...) removeu da parede um quadro do pintor piauiense Avelar Amorim, chamado São Miguel, o qual retratava a cena de uma peleja entre o arcanjo celeste e um demônio." [cap. 11 pags. 158, 159] 

O Anjo Torto não é esquecido não é esquecido, "(...) - 'Leve um homem e um boi ao matadouro (...)" e memórias de sacrificados, "(...) Tou falando de arte, de mistério. De poesia gótica e talvez até de São Sebastião (...) Imaginem só: ao amanhecer um homem cravado de flechas numa árvore de uma ruazinha decadente da cidade. Lindo demais, porra! Vocês não acham não? [cap. 14 pags. 224, 225]

Enredo emocionante. O grupo de amigos, em defesa do transmutado Crispim, é composto por Aldo, Jane, Antonia, Carol, Galeco, D, Joana (avó de Carol) e uma personagem prodígio, Biel, o garoto de tenra idade e o mais novo e fiel amigo de Crispim.

O menino que descobre, em primeira mão, a Fortaleza de Crispim, acaba por criar a alcunha de Cabeça de Cuia ao herói amaldiçoado. Jeremias, o mentor do grupo, está ausente, anda à cata de soluções que quebrem a maldição.

Os confrontos e embates envolvendo Crispim e Isaac, e no entrecruzamento, alguns dos componentes do núcleo dos Guardiões da Sétima Virgem, são emocionantes. Magia, magia negra, astúcia, milagres, recuperação extraordinária das feridas do mutante e do transmutante, recordações de memórias anteriores, regressões, volta da morte, perdão, fabulosas habilidades adquiridas, ou descobertas pelos Guardiões, acabam definindo um bom final e revitalizando o moto-continuo da obra aberta.

Das interlocuções de verossilhanças e literaturas e licenças, os corações arrancados do peito de seis virgens, um a cada trinta e um anos, poderiam ser uma antítese de Jack, o estripador que, cirurgicamente, retirava o útero das prostitutas vitimadas nas noites londrinas do século 19. O amor incondicional entre Carol e Crispim, bem que representaria uma variação entre A Bela e a Fera, com amor, paixão vidas em sacrifício e mortes redimidas.

O rejuvenescimento, devido a ausência de sacrifício, bem poderia dialogar com "O curioso caso de Benjamin Button" (cinema). Dona Joana é a sétima virgem e seria o último sacrifício, não houvesse havido tantas reviravoltas na semi-vida de Crispim. "(...) - Até que ponto ela vai rejuvenescer? - Perguntava Carol. - Esse processo vai parar em algum momento, ou...? Droga, não quero nem pensar." [cap. 12 pag. 165]

Denso, tenso, funcional à leitura de aventura recheada de universo de místico, fabular, fé que cura e salva, mágicos lances de brechas no tempo de memórias reencarnatórias, regressões à luz de recuperação do passado e portal de cura (guardiões do tempo, da vida, Deus) de ressuscitamento (mesa de ritual de ressurreição) e redenção dos amantes, guardam a segunda fase da série "A Lenda de Crispim".

Heroicos, os amigos de Crispim, cada um a seu turno, realiza seu ato contributivo ao desvendamento e avanço no caminho da quebra da maldição, que envolve o  mocinho de coração justo. E o menino, de nome Gabriel, mas que o pai denominou amorosamente de Biel, é quem dá voz prodígia no uso da espada Kataná e demove a ameaça do mal,que pairava sobre a vida de todos, especialmente de seu mais novo amigo, um quase irmão mais velho, o "monstro" Crispim.

Eduardo Prazeres teve uma feliz ideia, ao recriar a lenda do Crispim pescador. Devota-lhe humanidade redentora. Tira-lhe a pecha de endemoniado que comete matricídio e abre um portal de tolerância ao diferente, aquele que precisa ser visto, ouvido e ter lugar na vida própria e na de quem desenvolva solidariedade e perdão.

Parabéns, Eduardo. É uma boa leitura e de recepção ágil, principalmente a leitores abertos que dialoguem com a obra, em construção eficiente.

Que venha o terceiro livro da Trilogia. Seguramente encontrará porto de expectativa e prazer de quem já tiver passado vistas em "Crispim e a Sétima Virgem" e "A Fortaleza de Crispim".


fotos\imagem: (divulgação)

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