quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

"Maria de Cuia"

poesia em repente
por maneco nascimento

Lendas, poema, versos, quadrinhas, vozes sociais, repente, memórias ribeirinhas, história da construção social teresinense, rios, mitos às licenças de literatura e heranças ibéricas, em risco de simplicidade, afetos escritos, livre criação e dialogismos com a cultura do inventário popular, presente aqui e alhures, quando a palavra parla.

Histórias fabulosas, de heróis e anti heróis mancebos, princesas, moças, virgens e donzelas, Marias, Antonietas, peixe falante, musa, Rio Parnaíba, piau estalante, Piauí cortado por dois rios perenes, que lambem a capital e também aguçam fábulas e lendas e mitos naturais.

"Maria de Cuia", criação de Luciana Azevedo e parceria, à bela ilustração, de Patrícia Paulozi. Uma narrativa, de apropriação da lenda do Cabeça-de-Cuia (cultura oral e lenda ribeirinha teresinense), entrecruzada com outras culturas populares nordestinas, que aproxima e intertextualiza as oralidades sociais da vida e reinventa a memória dramática.

Livreto/cordel, "Maria de Cuia", enreda a generosa atitude da menina moça que quer resgatar o "monstro", que vive submerso nas águas do rio, preso à própria sina e desgraça fatídica que cunhou-lhe a sorte.
"Ó musa da providência/Só trago aqui minha pena/Para falar de Crispim/Com aquela sorte sem cena/Nas águas quentes do rio/De uma história serena.// Serena foi e ninguém sabe/Desenho de um retrato/Que Maria então pintou/E fez de uma cuia um ato/Deixando tudo mais leve/Neste meu breve relato (...) O Crispim foi amaldiçoado!/Penava condenação./A sua cabeça virou cuia/Nem podia ter salvação/O peito despedaçado/Sete amores, uma ilusão (...)"
(Azevedo, Luciana. Maria de Cuia [Cordel]. Teresina. 2016)
No discurso entrecruzado, a poesia popular repercute morte e vida do rio; "morte" e redenção do homem/"monstro" das águas, rio abaixo, rio arriba; desejo da quebra da maldição e, a força que a lenda impõe para se perpetuar e negar a prenda do desejo e manter o mito, que do rio Parnaíba é feito oferenda e ao Piauí conserva-se lenda.

Do folclore e cultura popular, ainda, intertextualiza com  Câmara Cascudo que recolhe da cultura oral elementos para o conto A menina enterrada viva, ou a Estória da figueira: "madrasta chegou para ver se ela tinha vigiado direito. Descobrindo o figo bicado, ela ficou furiosa. Mandou cavar um buraco e enterrou a menina viva.

e variações da mesma narrativa dramática "Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrouQuando o pai voltou da viagem a madrasta disse que a menina fugira..." e ainda "madrasta odiava pentear a menina, assim como tinha aflição de ouvir a menina cantar... exigiu que ela fosse enterrada no quintal, perto da figueira... Não sei dizer se ela estava viva ou se viveu outra vez ao encontrar o pai."

"Maria de Cuia" encerra seu enredo para as vezes de auto exílio da donzela, enterro (plantada) às margens do rio, entre capins e canaranas na interlocução com A menina enterrada viva, seus cabelos são capim.
"E a musa que me ilumina/Com sua pena de jasmin/No relato se encanta/Na sua mudança, enfim,/Na beira do velho rio/Maria de Cuia é capim!
(Idem)

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