segunda-feira, 18 de março de 2013

Sanfona de ouro


Sanfona de ouro
por maneco nascimento

Aos 72 anos bem vividos, José Domingos de Morais, o nosso sanfona de ouro Dominguinhos, está na notícia dos últimos dias. Seu estado de saúde é delicado em vistas de complicações de um “CA” nos pulmões. 

No final de 2012, o artista apresentou problemas relacionados à arritmia cardíaca e infecção respiratória. Internado no Recife, teve que ser transferido, posteriormente, ao Hospital Sírio Libanês, em São Paulo. Entrou em coma e os prognósticos médicos seriam de irreversibilidade. 

“O músico Dominguinhos está em coma irreversível há um mês, de acordo com seu filho, Mauro da Silva Moraes. Dominguinhos luta contra um câncer no pulmão. Ele está internado no Hospital Sírio Libanês desde 13 de janeiro, depois de vir transferido de Recife (PE).

‘— Estou orando bastante para ter um milagre.’
O compositor foi hospitalizado em dezembro do ano passado com quadro de arritmia cardíaca e infecção respiratória e teve uma parada cardíaca em janeiro. Ele colocou um marcapasso no tempo em que esteve internado em Recife
.” (notícia reproduzida da R7 pelo www.vooz.com.br/Publicado em 15/03/2013 às 13h03 vooz)

Dominguinhos nasceu em Garanhuns, no Pernambuco, em 12 de fevereiro de 1941. Instrumentista, cantor e compositor da seara nacional, se tornou exímio sanfoneiro e, na sua estrada artística, conviveu com mestres como Luiz Gonzaga e Orlando Silveira

(Dominguinhos - sanfona de ouro/foto: reprodução)

Na formação musical, influências do baião, bossa nova, choro, forró, xote e jazz “(...) interessou-se por música desde cedo, começando a se apresentar em feiras livres e portas de hotéis em troca de algum dinheiro junto com seus irmãos, com quem formava o trio Os Três Pinguins. Praticava o instrumento por horas a fio, e logo se tornou proficiente nas sanfonas de 48, 80 e 120 baixos, e acabou por tornar-se músico profissional ainda garoto.” (www.wikipédia.com.br/acesso: 18/03/2013 às 14h31)

“Abri a porta/Apareci/A mais bonita/Sorriu pra mim/Naquele instante/Me convenci/O bom da vida/Vai prosseguir//Vai prosseguir/Vai dar pra lá do céu azul/Onde eu não sei/Lá onde a lei/Seja o amor/E usufruir do bem, do bom e do melhor/Seja comum/Pra qualquer um/Seja quem for//Abri a porta/Apareci/Isso é a vida/É a vida, sim." (Abri a porta - Gilberto Gil/Dominguinhos)

“Em 1950, aos nove anos de idade, conheceu Luiz Gonzaga quando tocava na porta do hotel em que estava hospedado. Luiz Gonzaga se impressionou com a desenvoltura do menino e o convidou a ir ao Rio de Janeiro. Dominguinhos o fez em 1954, então com treze anos de idade, acompanhado do pai e dos irmãos, indo morar em Nilópolis. Ao encontrar-se com Luiz Gonzaga no Rio, este deu-lhe de presente uma sanfona e o integrou a sua equipe de músicos, e Dominguinhos passou a fazer shows pelo Brasil e participar de gravações.” (www.wikipedia.com.br/acesso: 18/03/2013 às 14h31)

Conceituado pelo nome que alcunhou à MPB, Dominguinhos adquiriu respeito de todo o corpo da melhor geração de cantores e compositores nacionais e dividiu palco com diversas celebridades. 

“Sua reputação como músico e arranjador cresceu e ele aproximou-se de músicos do movimento bossa nova. Fez trabalhos junto a inúmeros músicos de renome, como Gilberto Gil, Maria Bethânia, Elba Ramalho e Toquinho, e eventualmente acabou por consolidar uma carreira musical própria, englobando gêneros musicais diversos como bossa nova, jazz e pop." (Idem)

A música “Abri a porta”, um hit em beleza, melodia e licença poética virou febre nas rádios e rodas musicais do país na voz de A Cor do Som, banda surgida em meados de 1977. Dominguinhos também gravou sua própria obra com diferencial de estilo, a sotaque bem Brasil do nosso nordeste. 

Quanto ao carisma, tão franqueado quanto o do grupo pop. Em sua leitura o Sanfona de ouro versejou acordes de memória de sua terra e origens de formação musical, assim como A Cor do Som que trabalhou arranjo de rock psicodélico ao perfil de banda MPB e pop rock pós-tropicalista.

Herdeiro natural de Luiz Gonzaga, fato confirmado pelo próprio Rei do Baião, Dominguinhos está para nós brasileiros como orgulho nordeste, de Pernambuco, que se firmou pelo seu talento e perseverança de perpetuar a sanfona/acordeon, um dos emblemas + notáveis da cultura musical do nordeste brasileiro que hoje gerou foco de arte praticada, com suas variações naturais, em qualquer ponto do Continente brasis.

É esse homem da arte e memória, do cancioneiro nacional, que agora parece pedir passagem ao posto das estrelas. A ciência parece ter dado sinal de que o artista estaria em preparação para deixar-nos. Agora é só aguardar o tempo e a hora de sua partida, já que a partir desse momento seu destino, quem sabe, já se tenha estabelecido à decisão Divina.

Como na licença poética, talvez esteja na hora de Abrir a Porta e seguir rumo às estrelas que também “isso é a vida, é a vida sim.”

 (Dominguinhos - sanfona de ouro/foto: reprodução)

domingo, 17 de março de 2013

Semana cheia

Semana Cheia
por maneco nascimento

Quando entra março e suas águas fechando verões, com algumas chuvas e outras vezes não, a cidade continua com o frenético movimento de arte, cultura, sobrevivência, dias quentes e abafados e luas cálidas com toda a sua influência e carros e ruas e viadutos e praças e marquises e prédios rumo aos céus e gentes de dentro e das franjas da mesopotâmia brasileira desse nordeste de meu Deus, a cidade continua pulsante, porque verde (da pecha do poeta maranhense Coelho Neto) e porque capital desse lado de cá da linha do equador que nos alinha para geografias e territórios assimilados na cartografia oficial.

Teresina hospitaleira e de calor humano que nunca fica a dever a qualquer visitante. E quando o assunto é movimentar arte e cultura premeditadas, então não está só prosa, está também poesia, teatro, dança, música e o + que vier ser, porquanto detém vida cultural e assaz sabe fazer bonito. Aqui onde também poetas fizeram suas entradas em papéis, esferográficas, linhas e versos e frases de licença poética, o teatro, a dança e a música estão como quer o artista e seu labor operário de manter a chama viva.
(Aqueles Dois/foto acervo da Luna Lunera)

Como março é mês “quente”, e culturalmente presente na pauta artística, abriu portas a visitantes ilustres, com seus carroções de variedades da arte às platéias desejosas, e foi bem. Lá para o começo deste, nos dias 1º., 2 e 3, a Cia. de Teatro Luna Lunera brindou a cidade com “Aqueles Dois” e a 6 Voltz Conective Artístico Independente também contribuiu com “Masculinity”, dias 9 e 10, ao público da nova dança e curiosos e afins. As temporadas se deram no Complexo Cultural do Matadouro Teatro do Boi.
(Chris Leuenberger: Masculinity/foto de acervo do artista)

Agora quando chegaram os sinais do início da primeira quinzena de março, já se tinha rumores artísticos do Artes de Março, aberto dia 8, lá no Teresina Shopping. Cultura que se segue até dia 18. Mas, voltando à semana de + arte em pauta cheia de amores culturais, essa entrada de segunda quinzena teve o grande espetáculo, a céu aberto, e já tradicional do calendário do Piauí. A reprodução da história da Batalha do Jenipapo, guerra de adesão piauiense à independência do Brasil. Às 18h30m, do dia 13 de março, no campo de cena do Monumento Heróis do Jenipapo, deu-se A Batalha do Jenipapo – o musical, dirigida por Franklin Pires, para escrita dramática de Bernardo Aurélio.




 (cenas de A Batalha do Jenipapo - o musical/fotos: divulgação)


+ de 50 atores de Teresina se deslocaram a Campo Maior para reavivar rito dramático que se repete há mais de uma década, naquela cidade ao norte do estado. Uma nova roupagem de espetáculo, tendo como testemunha o céu, o público extraordinário, + autoridades, convidados e agraciados com medalhas oficiosas. A Batalha do Jenipapo – o musical cumpriu seu papel e deixou rastro de quero + a quem foi espiar a cena, naquele 13 de março.

Dia 14 era dia da poesia, ou melhor, Dia Nacional da Poesia, data oficializada também em comemoração ao nascimento de Castro Alves, o “poeta dos escravos”. Pipocaram notícias na cidade, como em céu de fogos de artifícios, às homenagens aos poetas e a esse que é o Dia Nacional da Poesia. No Bar do Clube dos Diários, as loas foram também em homenagens devidas à poesia de solo nacional e lançamento de um novo artífice das palavras e artista das novas construções de efeito poéticas. 
(Castro Alves/imagem: www.portalsaofrancisco. com.br)

O lançado, às terras mafrensinas, Rodrigomleite, poeta de olhar urbano ao cotidiano das franjas sociais teresinenses. Os artistas desse Sarau, Francisco Pellé, Marlenildes Bid Lima, João Vasconcelos, Cláudia Simone e Anchieta Cardoso, Élio Ferreira, Nazilene Barbosa, Jesus Viana e Edson Jr., Maneco Nascimento e + o som de batuques e sonoras licenças poéticas  do Coisa de Nêgo. Estava bem representada a noite do Dia da Poesia, vingou das 19h às 22h30m, na ponte cultural do Bar do Clube dos Diários.

Também nesse dia a VR Produções, vide Vitorino Rodrigues, dava seu sinal cultural. Iniciava a maratona teatral, instalada no Complexo Cultural do Matadouro – Teatro do Boi. Teatro para todos os gostos e público. Comédia e dramas risíveis para jovens e adultos, para crianças e pais de infantes. E, como era a semana da poesia, não poderia faltar o poeta e sua obra. Nesse 14, Dia da Poesia, às 20h, a hora e a vez foi de Salgado Maranhão, grande poeta de nosso quinhão.
(repertório Maratona Teatral/imagem de acervo da VR Produções)

A peça, “Sol Sanguíneo” para obra homônima. Com desenho de dramaturgia, realizado por Maneco Nascimento, “Sol Sanguíneo” traz o ator Vitorino Rodrigues interagindo os bilros e riscos poéticos de Salgado. Foi um ótimo Dia Nacional da Poesia.

A maratona teatral da VR Produções seguiu, dia 15 de março, às 20h, com “17 Minutos Antes de Você”, direção de Heraldo Maia e assistência de direção de Elielson Pacheco, no Teatro do Boi. O cotidiano de casal na terceira idade reflete ternura, estética, plástica cênica e desenvoltura muito equilibrada de Vitorino Rodrigues e Júnior Marks, como os velhinhos do drama.

Ainda dia 15, pela manhã o Lançamento do projeto "Paixão de Cristo em Bom Jesus", às 10h, no Auditório Francisca Trindade(Assembleia Legislativa do Piauí) com todo o elenco do espetáculo e à noite, às 20h, no Teresina Shopping (Artes de Março 100 Anos de Vinícius de Moraes), Luiza Miranda e Maneco Nascimento viveram o poeta no "Sarau Vinícius Vive", com direção musical de Josué Costa e dramaturgia do Maneco N.

(Luiza Miranda: Sarau Vinícius Vive/foto: Luciano Klaus)

Em 16 de março, às 20h, no Teatro do Boi, o público integra comunicação com “Um Brasileiro no Céu”, texto de Carlos B. Filho e direção de Roger Ribeiro. Na cena, a dupla dinâmica Vitorino Rodrigues e Júnior Marks, disputam poder de persuasão no enredo de um nordestino, no confronto com um anjo guardador das portas do céu. Comédia livre para todas as idades amantes do teatro. Já no domingo, dia 17, a hora é de todas as crianças.

 O infantil “O Diário da Bruxa” comanda a festa de fantasias, bruxarias e comédia dos erros. A Fada Açucarada Doce de Mel é o disfarce (im)perfeito da Bruxa(Vitorino Rodrigues) que perdeu a memória e quer a todo o custo reaver o diário de bruxarias para realizar feitiços e recuperar beleza, juventude e maldades de receita. A direção é de Roger Ribeiro e a Bruxa e outras Fadas e Príncipes encantados ganham a criançada em 50 minutos de divertido espetáculo. Local das apresentações, CCMTBoi.

Ainda na cidade distendida, O Núcleo do Dirceu abriu seu laboratório de reinvenções e nos dias 15, 16 e 17 de março, no Galpão do NDC, o espetáculo “1000 Casas” antecede lançamento do livro homônimo, com registro de história e memória desse projeto de arte e cultura de intervenção, inaugurado na periferia de Teresina, na região do grande Dirceu.
(cenário Mil Casas/imagem de acervo do Núcleo do Dirceu)

“1000 Casas  foi um projeto de arte e intervenção domiciliar – aberto e em construção – embrenhado em um bairro periférico de uma cidade periférica do Nordeste do Brasil. Uma sequência de ações performáticas que aconteceram – de visita ou “assalto” – em mil casas da região do Grande Dirceu, em Teresina, Piauí, entre os anos de 2011 e 2012, propostas pelos artistas do Núcleo do Dirceu.” (informação do NDC)
.(
(post de Janaína Lobo a Projeto de Intervenção Mil Casas/NDC)

Uma semana cheia de vida cultural, a cidade tem respirado desde 14 até 18 desse março em andamento. Então, atrás da felicidade em obra e arte conspiradas só não vai quem não entendeu que arte e cultura estão bem ao lado da humanidade + feliz. A cidade sabe disso e o artista não perde tempo, faz seu papel e a qualidade quem percebe é quem não perde o bonde da história de arte e cultura local.

terça-feira, 12 de março de 2013

Dia 14 de março


 Dia 14 de março
por maneco nascimento

O 14 de março é dia de festa aos poetas e às poetas, na terra de licenças poéticas, transgressões “proféticas” e usina da palavra feito obra e arte. E, “na cidade em que não tem mais fim.”, para nunca esquecer o poeta, também se comemora o Dia da Poesia, festejado em todo o território nacional, como a data de nascimento de Castro Alves.

Brasil celeiro de grandes criadores, forjou em seu bojo poético, “O Poeta dos escravos”; “O Poeta das estrelas”; “O Príncipe dos poetas brasileiros” , o Poetinha e as damas da poesia brasis. 

(imagem colhida do www.portalsaofrancisco.com.br)


Olavo, Castro, Álvares, Álvaro, Augusto, Gregório, Carlos, Manoel Bandeira e de Barros, Vinícius, Torquato, Mário Faustino e Quintana, Cecília, Coralina, Elisa, Élio, Marleide, Gonçalves, Cláudia, Costa e Silva, M. Ciríaco, Casimiro, Antonio Vieira, Paulo Leminski e, entre tantas palavras distendidas, Rodrigomleite.

“(...) adiante, zona sul, esquina da Mapil/garotas de esqueléticas formas, comedoras de brasa/cuspidoras de fogo!/atiçam corações feridos de aço e sucata,/esmagados pelo esquecimento” (rodrigomleite – zonasub/2012)

Nesse 14 de março, às 19 horas, para marco da poesia, o Bar do Clube dos Diários, no Espaço Cultural “Osório Jr.”, promove o lançamento de um novo poeta na Teresina contemporânea. Artífice das letras, artista das palavras e mago das + novas invenções poéticas. 

Filho da terra caliente e cidade verde, sobre o negro asfalto e, entre verticais desenhos arquitetônicos edificados, Rodrigomleite já sabe ser poeta para graves e encantos poéticos, “... cidade, te/quero qualquer coisa e minha/relâmpagos saraivados de sabores/terra entre dedos domingueiros/abraços d’avó querida (...)”, conta de sua terra, já sem palmeiras, mas com cantos de fogo-pagô disputando fios de alta tensão.

Rodrigomleite, poeta cronista das franjas urbanas, radiografa a história da cidade e registra olhar que, dentro do comum, foge do vulgar de observação do homem, em seu contemporâneo, de olho abstraído da vida cotidiana. Em “desamparo”, o poeta ampara o dia a dia, atiça a ferida da cidade feita poesia. 

Poeta das sobras sociais, dos sinais desviados da sobrevivência contumaz, observador crítico à expiação do mundo suspenso, recortado do mundo dos outros. Na sua poesia, as periferias e os destratados sociais ganham forma poética para geração de registro das cidades invisibilizadas, dentro da cidade invencível, de progressos deflagrados.

Na noite em que se lança o novo poeta, também se leva aos audientes, ouvintes e curiosos da poesia sua obra em proféticos versos de “A cidade frita”, em nova edição ampliada e contendo gestos poéticos de “zonasub”, lançado em 2012.


Na programação cultural e lançamento de nova cor das palavras, colegas artistas homenageiam a obra e a hora do poeta em apresentação à cidade. Entre os atores, que se manifestam, estão Maneco Nascimento e Francisco Pellé. Nazilene Barbosa prepara um solo poético ao poeta urbano e Zé Karlos di Santis também dança a poesia na noite premiada.
Ainda vivem o poeta, Marlenildes Bid Lima, Élio Ferreira, João Vasconcelos e o som dos tambores do Grupo Cultural “Coisa de Nego”.

Em dia de poesia e poetas festejados “te/escrevo/poema duro/feito água/não em dose/substante presa/num copo de vidro//água/água solta/sanitária! cáustica!/desinfetante!//água/água doida/oxigenada! ardente!/alucinante! (...)” (rodrigomleite – zonasub/2012)

O 14 de março de 2013, às 19 horas, no Espaço Cultural “Osório Jr.”/Bar do Clube dos Diários, será de Rodrigomleite em dia de poesia nacional.

domingo, 10 de março de 2013

Masculino: energia e sombras



 Masculino: energia e sombras.
por maneco nascimento

O Complexo Cultural do Matadouro – Teatro do Boi recebe em temporada nesse final de semana, 9 e 10 de março de 2013, às 20 horas, o espetáculo de dança “Masculinity”, com o coreógrafo suíço Chris Leuenberger. Na proposta do intérprete-criador, um mergulho no universo masculino.

Pela primeira vez em palcos piauienses, o artista apresenta variações sobre o tema masculinidade e a própria também está no centro de observação.

Segundo o intérprete, realizou entrevistas com homens acerca da masculinidade, fez reconsideração sobre os próprios modelos à masculinidade intrínseca e esmiuçou questões sobre o que significaria a si mesmo ser homem, no momento atual, qual a própria relação com seu corpo e que dança orgulharia seu pai.

Na noite do dia 9 de março, Chris desempenhou uma árdua tarefa de fazer dança em coreografias da pesquisa de movimentos de lugar comum, com identidade ao gesto e corpo que falam o masculino. Movimentos repetitivos que vão se alterando entre o denso e o sutil do propósito de valorização e ilustração de desenhos corporais.

Há em cada gesto, definindo-se, tal pela variação ao mesmo tema, tal pelo esforço contido na expressão da fala do corpo, um mapeamento de força e energia em contenção e expansão dos trabalhos heróicos para doze ou + manifestações do masculino e hercúleo.
(Masculinity: Chris Leuenberger/foto: divulgação)

Um ponto de luz, na diagonal da direita da boca de cena, direcionado até o fundo esquerdo do palco dá o mote de cenografia que vai recortar o corpo em falas e escritos reproduzidos na segunda personagem, projetada na parede do palco italiano. Duas energias estão na cena, a do ator coreógrafo e a que se instala como licença poética no teatro das sombras, na segunda personagem em palco.

O masculino excele energia na cena real e transmuta novas energias nas ações das sombras. Dois espetáculos, o homem e sua sombra, a identidade da personagem se duplica e deixa à platéia dois mesmos movimentos masculinos, cada um com uma variação sutil e energética sobre o mesmo tema.

O intérprete, em frontalidade de confronto com o ponto de luz, vai desenhando e, num quase “descuido” do olhar da assistência, modifica o gestual para representar uma nova proposta ao masculino representado.

 De um desenho que poderia sair do neutro de uma personalidade profissional, ou característica de trabalho com suporte da força física e exercício continuado, pode-se, às vezes, identificar um nadador, um lenhador, um militar, um coito ou expressão de quadris projetados à frente, um lutador de boxe, entre outros, e um exercício, uma energia despendida para ato laboral másculo.

Falas e corpo trabalhados à exaustão, dentro de um preparo de marcas e tônus concentrados no propósito, definem obra e arte criadora e criativa ao simples transformado em cena pragmática e determinante da masculinidade prospectada, de valoração ou expiação premeditada do gesto e movimentos expressionistas do corpo que fala +, nos silêncios impactantes e nos ruídos provocados à extenuante ação corporal.
(Masculinity: Chris Leuenberger/foto: divulgação)

No descanso, do êxtase, a personagem rola sobre o próprio corpo e vai amaciando, na delicadeza da natureza em processo de zerar energias distendidas, todo o esforço representado.

 A suavidade da música se bifurca com o gesto que se apequena até uma neutralidade da ação “agressiva”. Do chão amaciado à postura ereta do sapiens sapiens, a personagem retira a caixa de som do tripé e carrega-a sobre o peso dos ombros, enquanto realiza enredo depoimental da própria história.

Talvez um Atlas carregando o mundo nos ombros, costas e cabeça, numa coreografia de apresentação da proposição cênica. Do transitivo ao intransitivo, um extasiante processo do homem e seus gestos, de energias e sombras confirmadas no ato de representar-se a si mesmo e reiterar identidades masculinas presentes no cotidiano do animal pensante do gênero “alfa” da criação.

Como último ato, este de interação com o público. O Bailarino desce do palco e sugere que alguém da platéia o ajude a demonstrar uma emoção de choro, a partir de provocações físicas, tapas no rosto, facilitadas pelo coadjuvante saído do público.

Quem se ofereceu ao exercício foi o bailarino-coreógrafo, Paulo Beltrão. O que se segue é uma pessoa distribuindo tapas na bochecha do intérprete. Uma sessão diferente e + real, haja vista esse novo enredo quebrar a quarta parede para ato impactante.

Do choque da ação assistida pelo público à expectativa gerada a um resultado solicitado pelo intérprete-criador, não houve, na noite do dia 9 de março, o que propunha Chris Leuenberger com auxílio da assistência.

Foi apresentada uma justificativa, de ambas as partes, do diálogo de tapas e ansejos, e, em seguida, após agradecer a participação de Paulo Beltrão, o coreógrafo ainda solicitou uma segunda pessoa da platéia para uma nova tentativa do exercício. Como não houve nenhum outro voluntário, Chris deu por encerrada a sessão de “Masculinity”. 

De toda a obra representada há uma, muito presente, máquina humana, com suas sutilezas e sensibilidades encravadas no gestual entre “brusco” e concentrado em definição conflituosa de natureza do homem. Gera, no lucro, estética de cena, estilo e pesquisa corporificados à nova dança inteligente e, no particular do teatro de propósitos, toda uma argamassa experimental e fruto de repertório de vivências para fuga do lugar comum.
(Masculinity: Chris Leuenberger/foto: divulgação)

Simples e complexo, de lingüística laica, que expressa energia e sombras em luzes do ato criador perspicaz e de eficiência cênica. Masculino, de razão e sensibilidade projetadas no artista, em sua expansão do homem que fala a própria língua e detém atenção do interlocutor voltado ao “Masculinity”, de Chris Leuenberger.

Aos curiosos e amantes da nova dança, ainda há + uma sessão do espetáculo. Nesse domingo, às 20 horas, no palco do Complexo Cultural do Matadouro – Teatro do Boi. Quem não vier, viverá para lamentar não ter visto “Masculinity”.

sábado, 9 de março de 2013

O céu dos divinizados



O céu dos divinizados
por maneco nascimento

“A AIDS é uma praga gay. Gays são pervertidos! Jesus reprova o comportamento homossexual!”
(Marco Feliciano – político – 2012)
 (pastor deputado Marco Feliciano/foto: Alexandra Martins/Agência Câmara)


Nessa semana que se passou, na Câmara Federal, a Casa ganhou + uma vez forma e força popular de manifestar indignação e repúdio. De um lado, os que defendem direitos humanos e minorias e, do outro, os paladinos dos direitos “divinos” e acordos políticos da base aleijada naquela Casa legislativa. A indicação de um pastor/deputado à presidência da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara Federal gerou protestos, adiamento da eleição e um escrotinho, digo, escrutínio a portas fechadas para sacramentar o parlamentado Marco Feliciano.
 
(manifestantes, em Brasília, contra Marco Feliciano/foto: Felipe Néri)

 É fato que, os acordos de companheiros e camaradas, do diverso das siglas, com seus pares de interesses e conveniências afins, deram como bola certa o homem que hoje, no Brasil, representa a reprodução do próprio discurso, em púlpito, de exclusão, discriminação, preconceito, e fomentação do enviesado às relações de tolerância às diversidades, sejam étnicas, culturais, religiosas e de orientação sexual.

“Durante a sessão da última quinta-feira (07), os fundamentalistas tentaram impedir a fala dos deputados que lutam historicamente na defesa dos direitos humanos. A deputada Erika Kokay (PT – DF) não se calou: ‘Se nem a ditadura conseguiu caçar a minha palavra, os obscurantistas também não conseguirão!' "

Houve deputados que se ausentassem da sessão para não participarem do que foi considerado como  ditadura e houve também quem defendesse a nobreza questionada do pastor político. De portas fechadas a manifestantes, a Câmara Federal fez o PSC vencer.

“Ainda sob protestos e a portas fechadas, a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados elegeu, na manhã desta quinta-feira (7), o deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) para presidir o colegiado. A vice-presidência ficará a cargo de Antônia Lúcia (PSC/AC). A votação ocorreu com 11 votos favoráveis, dos 18 membros do colegiado. Pastor da igreja Assembleia de Deus, o deputado causou polêmica em 2011, quando publicou declarações polêmicas em seu Twitter sobre africanos e homossexuais. ‘Sobre o continente africano repousa a maldição do paganismo, ocultismo, misérias, doenças oriundas de lá: ebola, Aids, fome... Etc’, escreveu o deputado na ocasião. Ele também havia publicado na rede social que ‘a podridão dos sentimentos dos homoafetivos leva ao ódio, ao crime e à rejeição’". (www.G1.globo.com/Felipe Néri - Brasília/ 07/03/2013 11h23 - Atualizado em 07/03/2013 13h16)

Muito barulho por nada? Não. Todo barulho gera algum desconforto e ruídos a serem reparados e a campanha contra essa imposição de determinada facção parlamentar ganha força nas redes sociais e protestos gerados nas diversas capitais brasileiras, contra o que foi tratado como ditadura estabelecida à Câmara Federal.

“A eleição foi iniciada após a saída da sessão de deputados contrários à escolha de Feliciano, indicado pelo PSC para ocupar o cargo. O ex-presidente da comissão, deputado Domingos Dutra (PT-MA), renunciou ao cargo momentos antes da votação e se recusou a dar continuidade à sessão. ‘Me retiro nesse momento em nome do PT e me retiro em meio a uma ditadura que foi estabelecida aqui', disse o deputado.” (Idem)

O deputado do PSOL – RJ, Jean Wyllys também fez frente durante esse confronto, na tevê mostrou sua indignação e manifestou-se emocionado sobre a manobra política. Suas falas, em outro momento, acerca do assunto foram reproduzidas no facebook.

“(...) Esse fato não é escandaloso --e eu não me oponho a ele-- pelo simples fato de ele ser pastor. Se o deputado Marco Feliciano fosse um pastor identificado com a garantia dos direitos humanos e da dignidade das minorias estigmatizadas, não haveria problema algum e eu não faria qualquer oposição. Acontece que o deputado Marco Feliciano é um inimigo público e declarado de minorias estigmatizadas e tem um discurso público que estimula a violação da dignidade humana desses grupos (...) Como pode presidir uma comissão de direitos humanos e minorias um deputado que se referiu à Aids como "o câncer gay"? Um deputado que defende um projeto de lei para obrigar o Conselho Federal de Psicologia a aceitar supostas "terapias de reversão da homossexualidade" anticientíficas e baseadas em preconceitos (...)” (JEAN WYLLYS, PSOL-RJ)

As liberdades e democracia brasileiras nos dão as garantias não só de escolher representantes, como também de cobrar deles posturas + éticas, de âmbito inclusivo, coletivas e de amplo interesse a qualquer cidadão brasileiro. O que parece estar ocorrendo no Brasil é uma manifestação de discurso religioso, de determinado seguimento de igrejas que, dentro do congresso, talvez queira legislar à “purificação” social a partir de olhar particular à Bíblia. Esse talvez seja um grave risco em qualquer sociedade, especialmente àquelas com postura laica e aberta.

“(...) Um deputado que quer criminalizar o povo de terreiro e enviar pais e mães de santo à cadeia por rituais religiosos que estão presentes nos mesmos capítulos da Bíblia que ele usa para injuriar os homossexuais? Ele lê a Bíblia com um olho só. Um deputado que apresentou um projeto para anular diversas (boas) decisões do Supremo Tribunal Federal, entre elas a sentença que reconhece as uniões homoafetivas como entidades familiares (...)” (JEAN WYLLYS, PSOL-RJ)

O país manifestante não está chovendo no molhado.  A resposta será social, coletiva e virá em seu tempo. Nas instâncias legislativas do País, em Brasília, que reúnem políticos como Renan Calheiros (PMDB – AL), Eduardo Henrique Alves (PMDB – RN), Jair Bolsonaro (PP – RJ), senado e câmara federal, respectivamente, também abre espaço natural para parlamentares + comprometidos com direitos universais e deveres com a malha social brasileira, muito sujeita a injustiças e intolerâncias.

“Na verdade, para ser justo, o acordo realizado para dar a presidência da CDHM ao PSC, com ou sem Marco Feliciano, já era um grave problema. Trata-se de um partido que fez campanha definindo a família de uma maneira que exclui não só gays e lésbicas, como também as famílias monoparentais, as com filhos adotivos e tantas outras. Trata-se de um partido que defende posições fundamentalistas que vão contra os direitos de muitas das minorias que essa comissão deve proteger (...) vejo a mobilização de milhares de pessoas para impedir essa loucura e penso: é isso que estou fazendo, tentando representar aqueles que, como eu, sempre receberam mais insultos e porradas que direitos e estima! Saibam que não estão sozinhos! Luta que segue!" (JEAN WYLLYS, PSOL-RJ)
                                 
(manifestantes, em Brasília, contra Marco Feliciano/foto: Felipe Néri)

Uma novidade, dentre as demais escatológicas, em Brasília, vai povoar a mídia e a indignação nacional durante algum tempo. De certo é que o Brasil de parlamentares com o diverso de matizes, o que é muito natural, também se configura como terra de divinizados na busca de um céu aos eleitos. Haverá tentativas de inverter direitos + amplos, já discutidos e adquiridos a uma coletividade.

Ameaças sempre existirão. A história da humanidade está cheia delas. Ao Brasil, basta acordar à justiça social e honrar o povo brasileiro.

Romã, Romão...


  Romã, Romão...
por maneco nascimento

O Doutor Honoris Causa, Júlio Romão da Silva, seguiu para as estrelas na manhã deste sábado, 9 de março de 2013. Parte um homem simples, de inteligência sem qualquer arrogância e artista que sempre tinha uma palavra e uma boa história para contar. Dramaturgo, poeta, jornalista e etnólogo, Júlio Romão, como era + conhecido, nos deixa aos 95 anos de vida bem vividos.

O escritor piauiense nasceu, a 22 de maio de 1917, em Teresina e morou durante muitos anos na cidade do Rio de Janeiro, até resolver voltar a sua terra natal. Na cidade maravilhosa desenvolveu suas aptidões para as artes da escrita na comunicação social em seus vieses de aproximação com a imprensa, a pesquisa etnológica, a poesia e o teatro.

Foi integrante do Movimento do Teatro Negro do Brasil, ao lado de grandes personalidades da cena nacional. Também trabalhou ao lado de Graciliano Ramos, com quem desempenhou amizade.

De toda uma vida dinâmica, às artes, ciências, filosofia e letras, acumulou méritos e agraciações inquestionáveis. Recebeu o Título de Cidadania do Rio e Janeiro e naquela cidade conviveu com medalhões da literatura brasileira. Homem de trânsito pertinente, sempre recebeu respeito e admiração de seus pares da área cultural e alhures.

No Rio de Janeiro também recebeu nome de uma rua, no Méier. Da Academia Brasileira de Letras- ABL, os Prêmios Filosofia e João Ribeiro. Com a peça de teatro “A Invasão” recebeu da ABL o Prêmio Cláudio de Sousa. Em Teresina obteve o Mérito Cultural Conselheiro Saraiva e a Universidade Federal do Piauí – UFPI concedeu-lhe o Prêmio de Doutor Honoris Causa, no ano de 2010, por sua atuação em benefício das artes, das ciências, da filosofia e das letras.

(o imortal Júlio Romão/foto: divulgação)

Sua obra literária, de passagem pela poesia e teatro, é destacável e de apelo estético e artístico conceituado, entre seus escritos estão:

Os Escravos: dramatização de Vozes d'África (1947); O Golpe Conjurado (1950); A Parábola da Ovelha (1963); José, o Vidente (1963); A Mensagem do Salmo (1967); Zumbo Zumbu (1967); A Epopéia Brasileira; O Monólogo dos Gestos (1968).

Ocupante da cadeira de número 31 da Academia Piauiense de Letras - APL, o poeta, escritor e jornalista brasileiro, Júlio Romão, bate asas em retirada rumo aos campos do Senhor, segue ao encontro de colegas de profissão e de afinidades artísticas e culturais. 

Com toda segurança que dividirá boas prosas e versos e argumentos e diálogos produtivos com outros imortais das letras, artes, filosofia e ciências. Amigos e colegas das horas de criação e cultura conspiradas o recebem em festa.

Como admirador da obra e do artista, tive o prazer de alguma boa convivência com o homem Júlio Romão. Como ator, participei de uma leitura dramática em sua homenagem. O texto dramático era “A Mensagem do Salmo”. Bela obra, de carpintaria impecável, de poesia ilustre e de discurso humanista irretocável. 

Através de prisma original bíblico, o dramaturgo redimensiona, em sua visão sensível de autor, um libelo de dramaturgia elaborada para fins de reflexão e crítica social, conflito e geração de novas leituras de teor político e educativo transformador.

Nosso Júlio descansa em paz do Senhor e deixa saudade, que arma quente, equilibra memória e história sociocultural brasileiras, escritas à pena e fogo da paixão do artista que nos legou sua mensagem de homem terra brasis, defensor de sua marca e estilo de ser do lado de cá desse equador na geografia artística nacional.

(querido Júlio Romão/foto: divulgação)

Romã, romã, manda dizer ao Júlio que nosso orgulho, respeito e admiração são de todo o coração ao velho Romão, terra da gente, fruto maduro com sabor de lembrança deixada no deguste, chão com terra molhada em dias de verão sempre esperado e memórias da pele, da cor, da vida e dos atos nobres que nos presenteou em sua passagem. 

Romã, romã guarde-o na paz e tranqüilidade do descanso merecido aos eleitos.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher é tudo e tanto.


Mulher é tudo e tanto.
por maneco nascimento

“Ressucita-me/para que a partir de hoje/A família se transforme./E o pai/Seja pelo menos o universo/E a mãe/ seja no mínimo a Terra.” (O Amor/Caetano Veloso e Ney Costa Santos para poema de Maiakovski)

A terra mãe, útero de toda as gentes, é também território do bicho chamado homem e da mulher, terra prometida aos filhos da maternidade. Na busca de seu tempo e sua história, a mulher rompeu fronteiras, abriu porteiras, quebrou barreiras, conquistou o direito natural de livre arbítrio, de pensamento e das próprias escolhas. Assinou a identidade do ser mulher, de ser mulher e ser + Ela mesma.

Carlotas, Leopoldinas, Teresas, Anitas, Jovitas, Zuzus, Coras, Clarices, Cecílias, Rachels, Nélidas, Hildas, Anas, Zilkas, Elkes, Hebes, Ofélias, Zélias, Clementinas, Menininhas, Jovelinas, Zezés, Lígias, Pagús, Tarsilas, Vidas, Normas, Leilas, Carlas, Fernandas, Zicas, Ruths, Léas, Marílias, Bibis, Evas, Elzas, Idas, Cacildas, Elizeths, Claras, Elis, Marias, Mírians, Dircinas, Glórias, Reginas, Déboras, Dinahs, Janetes, Ivanis, Adélias, Marinas, Heloisas, Dilmas, Elisas, stelae reginae seculum.

Não te peço toda presença, te peço licença para dizer que não há mundo sem mulher. Poderia haver um modo estranho, obscuro, meio morto, meio solto no mundo sem estribeiras, sem o encanto, sem o espanto da paixão que pega pelo pé e doma o coração do homem, esse sim, bicho esquisito, contrariando Rita, a Lee, porque a do Chico levou o sorriso do amante, o violão, o disco de Noel. Este último, poeta do Morro, boêmio e apaixonado pela mulher, sempre cortejada e amada em licenças poéticas.

 “Eu possa dizer do amor que tive/que não seja imortal posto que é chama/mas que seja infinito enquanto dure.” (Soneto da Fidelidade/Vinícius de Moraes) O poetinha e sua declaração universada de fidelidade à mulher amada. 

Erasmo Carlos quebra o mito da mulher sexo frágil e diz, em poesia depoimental, que “eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com Elas (....)” (Mulher/Erasmo Carlos). Rita diz que Ela “(...) é um bicho esquisito, todo mês sangra (...)”, mas sagra também a natureza da renovação genética e fertilizadora do(a)s poetas que lhe rendem poesia e outras loas.

 Paratodos e paratantos é mãe, mulher, irmã, confidente, companheira, amante, jardineira fiel da horta escolhida, educadora, amiga do peito e quando o poeta confessa que “O meu pai era paulista, meu avô pernambucano, o meu bisavô mineiro, meu tataravô baiano (...)” (Paratodos/ Chico Buarque) também revela, nas entrelinhas antropológicas que não há gênero masculino que não tenha tido uma amiga do peito, mesmo que ama de leite, sangue da mulher.

 E, aos que ainda prefiram desacreditar na força dessa Vida que é a mulher, é tudo e tanto, aprendam a cuidar e entender sem traumas, nem tramas, que Ela é também gênero equilibrado, balança do equilíbrio ao outro, o masculino. Interface das relações estritas, estreitas, estáveis ou estradas livres de se reconhecer pelo próprio pertencimento e identidade.

Com maçã, ou sem serpente, para anjos e decaídos, simplesmente mulher. Falha, frágil, dócil, agressiva, ativa, (des)armada, ciência, cultura, biologia, ecologia, terra e mar, céu e outras plagas de Dante e Elisa.

(Mãe Terra/foto: canttim.com/imagens belíssimas da terra)

Mulher, como qualquer uma no quebra cabeça da humanidade constituída. Nem toda santa, nem sempre pura. Em sendo só mulher, já se basta.