quarta-feira, 25 de março de 2015

Deve e não paga

também não nega
por maneco nascimento

Marcado no facebook por meu amigo e colega de cena, Dionízio do Apodi, grande ator dos palcos mossoroenses e pontiguar, quiçá brasileiros de grande expressão, me posiciono e louvo o que bem merece.

(Dionízio e sua Alcmene/foto do perfil do ator)

Esse ator e sua companhia de teatro, O Pessoal do Tarará, são responsáveis por um repertório qualificado e diverso do teatro de Grupo, há + de uma década de trabalhos declarados e com um elenco respeitável, quando sempre realizador de uma cena invejável para humor, drama, comédia pastelão de economia e pesquisa na "commèdie del'arte", bufão e clownesco em dramaturgia contextual para cultura nacional redimensionada.

Essa Cia. de Teatro e esse Ator de marca 10 vieram a Teresina e trouxeram seu belo projeto de teatro solo. Uma pérola laureada na força, talento, disciplina da construção da personagem e ciência cênica experimentada na obra livre de artista criador e assinada como Aurora Boreal (Casca de Noz). Nada + sublime para se ver no palco.
(Apodi em tempo de Aurora Boreal/acervo DApodi)

Dionízio, na maturidade da profissão, nos lega teatro vivo e nos diz que ser artista e ser ator é preciso trabalho, incursão incondicional de buscas e prospecção da arte de fingir e mergulho na profissão escolhida e, principalmente, estudo da pauta do ato de encenar. 

Isso nos dá de sobra, em Aurora Boreal (Casca de Noz), a prazer dividido com seu público que se enleva ao vê-lo em solilóquios e confidências, no exercício da arte do ator, monologar e extrair beleza e licenças poéticas do texto, do corpo, da voz e dos silêncios povoados de presenças, para não esquecer Jean Genet, do palco e contrarregra que conspiram em favor do universo da dramaturgia confeccionada e dirigida pelo próprio ator.

Dionízio do Apodi brindou Teresina, numa das edições do Festival Nacional de Monólogos "Ana Maria Rêgo", ano 2012, com sua pérola aos poucos e nunca recebeu os prêmios em dinheiro para três categorias conquistadas. 

Promovido pela Fundação Municipal de Cultura "Monsenhor Chaves" e realizado pela Prefeitura de Teresina, o Concurso de Monólogos que deu visibilidade à cidade de Teresina e ao Piauí, por ser um dos eventos de maior continuidade, pisou na jaca. Não pagou o artista que venceu os prêmios abalizados por uma comissão julgadora ilibada. 

O evento cumpriu sua missão de realização do Festival na cidade, mas o estado municipal de cultura deu um calote no artista de Mossoró (RN). Até hoje o ator aguarda pelo pagamento de mérito conquistado. Como diz o ditado popular, o artista Dionízio do Apodi ficou "a ver navios", já que a FMCMC/PMT fingiu-se de "morta jacqueline".

Meu colega de teatro e grande amigo dos palcos e identidade comum às cenas me marcou nas redes sociais, enquanto reflete sobre a Fundação Municipal de Cultura estar lançando edital de Concurso de Monólogos ano 2015, com dívida relegadas ao passado.

O texto desabafo do artista potiguar esclarece tudo e deixa + dúvidas sobre os rumos da cultura no município de Teresina. São dias de descuido administrativo e falta de respeito com o artista que prestou serviços e não foi pago. Pode? Pode.  

São coisas do Brasil de nação piauiense da cidade Teresina para tempos de reisinhos e nababos assentados sobre gordos traseiros e ingerência consentida no que diga  respeito às políticas públicas de cultura. Assim se manifesta Apodi:

[Dionízio escreveu: "A Fundação Cultural Monsenhor Chaves, de Teresina (PI) prepara para este dia 27 de Março, data em que se comemora o Dia Internacional do Teatro, uma programação em Teresina, com direito ao lançamento do Festival Ana Maria Rego 2015. Tudo bem se não fosse um detalhe. A Prefeitura de Teresina, através da Fundação Monsenhor Chaves, ainda não pagou os cachês de participação e prêmios de vários espetáculos ainda do Festival de 2012. No meu caso, em outubro de 2012 participei com o espetáculo Aurora Boreal (Casca de Noz). Paguei todas as despesas pra chegar e voltar de Teresina com a alegação de que em trinta dias receberíamos o cachê de ajuda de custos. Fora isso o espetáculo ganhou três prêmios no festival que previa troféu e dinheiro. Nunca recebemos. Ligamos muito para a Fundação Monsenhor Chaves, passamos e-mails, amigos de Teresina marcaram audiência com responsáveis para resolver e até hoje, nada. Outros companheiros de teatro espalhados por vários estados brasileiros estão na mesma situação. O que torna tudo ainda mais desrespeitoso é que mesmo assim o Festival prossegue, com lançamento nesta quinta-feira. Tenho diversos amigos que prezo muito em Teresina, o próprio festival que carrega nome da atriz Ana Maria Rego, as pessoas de teatro e que o acompanham em Teresina não merecem esta situação irresponsável por parte do poder público. Vão comemorar Dia Internacional do Teatro sabendo que vários companheiros de teatro no Brasil estão sendo passados pra trás, sem nenhuma satisfação. Só recorro a este meio porque não se tem muitos outros disponíveis. Na esperança de que esta escrita possa chegar em algum lugar, e o problema seja resolvido."]

Feito o registro do nosso irmão de fé e obra cênica, cabe a nosotros o sentimento de escândalo, uma corrente de solidariedade com o colega ator e sua Cia. de Teatro que, séria e comprometida com a verve do teatro brasileiro, sofreu um revés em suas melhores expectativas acerca do fazer teatral realizado. 

Pode-se ainda incrementar essa informação. Com a palavra o prefeito da cidade de Teresina. Saberia ele dessa dívida caducada que coloca em escanteio o artista em sua maior oferta da profissão, a arte professada e não paga. E que escamoteia a arte do artista que se desloca de sua terra natal para representar-se e a seu teatro e não logra o direito dos prêmios conquistados.

Senhor prefeito, pague o artista. Ele não sobrevive bem, quando o estado municipal não cumpre a sua parte no acordo de cavalheiros assentado para os serviços do Festival Nacional de Monólogos "Ana Maria Rêgo". 

Ele e outros artistas brasileiros aguardam receber pelos serviços prestados ao município de Teresina. Como diz o ditado popular, "se não pode com o pote, não pegue na rodia" . 

Então prefeitura de Teresina não inventa, porque a invenção de eventos que não pagam artistas pode até marcar holofotes e efemérides, mas depois fica essa dúvida se o município não está só fazendo jogo de cena, aqui cabe uso da prática do teatro com fins eleitoreiros, e em fuga completa da arte do teatro de tradição e manifestação assegurada como profissão a ser respeitada e paga como qualquer outra em que seus representantes prestem serviços.

Às memórias e histórias do teatro nosso de cada dia, registre-se essa falha trágica da FMCMC/PMT, para ficar na linguagem do teatro, e reflita-se sobre o que estão fazendo do histórico daquela Fundação que já nos rendeu tanto orgulho e referência positiva Brasil afora.

Dionízio do Apodi, estamos aqui por toda a cidade e, parafraseando o poeta, pagando em suor e ousadia a felicidade de ser artista da cena e correr atrás do prejuízo na terra do já foi, já teve e que, atualmente, parece lugar muiiito comum ao descuido, descaso com os negócios de arte e cultura locais.

A FMCMC/PMT deve e não paga, também não nega. Mas a gente nunca relaxa e cobra sempre. Está no direito cidadão de prestador de serviços cobrar pelos serviços já prestados e não quitados pelo município.

Paguem os artistas, sejam políticos também de arte e cultura e não só de gabinetes e pleitos eleitoreiros.

terça-feira, 24 de março de 2015

27 é Dia de Teatro e Circo

Ato 27 Arte Intervenção Cultura Integração***
(Casa 4 de Setembro e sua calçada cultural/reprodução)
Está aberta a temporada de comemorações ao Dia Mundial do Teatro e Dia Nacional do Circo. Ato 27 - Dia Internacional do Teatro Dia Nacional do Circo - Arte Intervenção Cultura Integração - 27 de Março é o tema da programação planejada pelo Complexo Cultural Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro e Fundac e será uma derrama em maratona artística cultural que começa no alvorecer do dia 27 de março, sexta feira.
(Theatro 4 de Setembro/reprodução)
Já na Abertura, os festejos começam às 6h30 da manhã, na Praça Pedro II e a atração será com o Grupo Cabeça do Sol e seu Teatro de Rua e a Cia Talisman de Circo.
Às 8h, no Bar do Theatro será oferecido um Café da Manhã a todos os convidados e artistas em seu Dia de homenagens.
(Galeria do Club dos Diários/reprodução)
A partir das 9h, na Galeria do Club dos Diários, Exposição do Acervo Pictórico do Complexo Cultual Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro e a apresentação do Primeiro Movimento de "Movimento para Um Palhaço", com Nazilene Barbosa, Fernando Freitas/Jesus Viana, sob a Direção de Siro Siris.
(o charmoso Club dos Diários/reprodução)
10 horas, no Teatro Torquato Neto, apresentação de Cena da peça teatral "Apareceu a Margarida", de Roberto Athayde. Interpretação de Edithe Rosa e Direção de Avelar Amorim. Às 11 horas será descerrada a Placa Inaugural da Sala "Camareira Rosalina Silva" e, em seguida, Cena do espetáculo "Diálogo de Uma Camareira", de Carlos B. Filho, interpretada por Wilson Gomes e Direção de Cláudia Santos.
No horário das 11h30, na Sala "Procópio Ferreira", a Escola de Dança do Estado do Piauí "Lenir Argento" ministra um Aulão de Dança, a facilitação do exercício de dança será de Sidh Ribeiro. No turno da tarde, a partir das 13h às 15h, na Galeria de Artes do Club dos Diários, acontecerá a Oficina de Teatro e Fotografia, sob a produção de Gustavo Leal (NEXA PI).  Às 15h, no Theatro 4 de Setembro, exibição do Filme "Ex Memória Teresina", numa Realização da Ipê Produções Audiovisuais e Produção de Leide Sousa.
Já às 16h30, no Salão Nobre "Chico Pereira", a hora é do Ciclo de Leituras Dramáticas, com a peça "O Pescador e o Rio", de Gomes Campos. Uma Realização do Coletivo Piauhy Estúdio das Artes.  Às 19 horas, o Procênio do Theatro 4 de Setembro será palco da Posse da Nova Administração do Complexo Cultural Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro.
"Fernando Pessoa em Pessoa" é a atração das 20h. Numa Adaptação de textos, direção e atuação de Adalmir Miranda, a partir da obra de Fernando Pessoa, o espetáculo com mais de vinte e cinco anos, em cartaz, ocupa a caixa cênica do Theatro 4 de Setembro. A produção do espetáculo “Fernando Pessoa em Pessoa” ao Dia Internacional do Teatro é do SESC PI.
Numa realização do Governo do Estado, Fundac e Complexo Cultural Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro, o Ato 27 Dia Mundial do Teatro e Dia Nacional do Circo - Arte Intervenção Cultura Integração ainda oferecerá um Coquetel, às 21h30 e o encerramento será musical, às 22 horas. No Palco do Espaço Cultural "Osório Jr." se apresentam Cláudio Sekef e Banda Vale Night.
(Palco "Osório Jr."/reprodução)
o Dia Mundial do Teatro e Dia Nacional do Circo, as falas sócio culturais do teatro, circo, arte pictórica, dança, música, audiovisual, leituras dramáticas, poesia e homenagens serão só festejos, a partir das 6h30 da matina.
Para o coordenador do Complexo Cultural Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro, o promotor cultural João Vasconcelos, essa ação tem função primordial de reunir, agregar e confraternizar com os artistas das diversas linguagens artísticas da capital e deixa claro que “os artistas estão se doando e doando seu trabalho ao Dia Internacional do Teatro e Dia Nacional do Circo. Todos são voluntários em um momento da Casa e da nova administração que se instala para gerar maior aproximação com atos e promoções de integração da arte e do artista locais e ocupação do Complexo”, declara.
O Ato 27 recebe o apoio do Sated PI, dos produtores culturais Ruy Miranda e José Luis, do empreendedor Zezinho Ferreira, Grupo Vemarte, Colégio São Judas Tadeu, W. Salmito e Sesc Regional Piauí.  João Vasconcelos acrescenta ainda é com grande alegria que recebe o apoio incondicional dos artistas de Teresina e agradece “aos atores, diretores, bailarinos e coreógrafos, artistas plásticos e artistas visuais, produtores culturais e todos os artistas da cidade que colaboram, voluntariamente, com o Ato 27”, finaliza.
A agenda está imperdível e os artistas das cenas e dos palcos concorrem para congraçarem no Dia de uma das maiores manifestações culturais na história da humanidade.
Expediente:
Dia Mundial do Teatro e Dia nacional do Circo
dia: 27 de março de 2015
local: Corredor Cultural Praça Pedro II/Complexo Cultural Club dos Diários/Theatro 4 de Setembro
horário: das 6h30 da manhã até às 22 horas
Informações: 86 9405 0037/8817 2201 
*** Texto de Release

Levou meu Rubem e o João

pérolas de leitura e obras inestimáveis
por maneco nascimento

Levaram meu Rubem Braga e João Branco e, talvez, ao larápio nem servisse muito a alguma coisa as preciosidades levadas.

Na mochila, de lona camuflagem do exército verde oliva, um Rubem de, crônicas selecionadas, "Recado de Primavera" e um João de, "Crônicas Desaforadas"; duas fragrâncias de perfumes independentes; três camisetas para as trocas de improviso ao dia ininterrupto; um pen-drive com as últimas e necessárias memórias de textos publicados, ou ensaios para novas investidas; preservados e ativos e outros objetos que moram na mochila e viajam com seu dono.

Mas as + valiosas peças carregadas foram meus livros e que, se não tiverem ganhado a sensibilidade do gatuno, foram esquecidos em algum lugar, a esmo, para cumprir a própria sorte de ser achado, ou estar perdido ao tempo de deterioração. O Rubem, adquiri num sebo e era um achado. Faria companhia, em minha pequena biblioteca nacional de autores, ao livro "A Borboleta Amarela", também do Velho Braga.

(Rubem Braga, esquerda e o irmão Newton Braga, direita, foto de 1932/reprodução da wikipédia)

Como fora delicioso está lendo o Braga. Uma felicidade corria aos olhos e um prazer em recortes humorados e bem escritos pelo mago das crônicas sociais, considerado um dos melhores cronistas brasileiros e o maior cronista nacional do século 20.
(o Velho Braga/imagem revistaescola.abril.com.br)

O João, recebera de presente, quase que simultaneamente, a seu lançamento. Numa semana fora lançado o “Crônicas Desaforadas” e, naquela mesma, chegara, em mãos, meu exemplar autografado, vindo de Mindelo – Cabo Verde. O autor separara o exemplar e enviara por sua sogra, Toinha Alves, que retornava a Teresina.

(João Branco e sua Obra/reprodução)

Não tive tempo de concluir a leitura de crônicas culturais e experiências cênicas e críticas reflexivas do fazer artístico na cena caboverdiana. João Branco repercute, na obra, a vivência em seu país de escolha e pátria lusófona abraçada e se nos apresenta um olhar de ator, diretor, espectador e agitador cultural na própria aldeia.
(o olhar crítico de João Branco em Obra editada/reprodução)

Os livros, lia-os paralelamente e carregava comigo para permutar a vez de leitura, enquanto realizava viagens de ônibus coletivos. Numa falha da própria sorte e excesso de confiança no outro, deixei a mochila por alguns instantes de despretensão e, num piscar de olhos, alguém carregou consigo meus tesouros qu’eu guardava e transportava no baú contemporâneo.

Foi frustrante, difícil de aceitar facilmente o furto. As perdas materiais, prejuízos efêmeros, recuperáveis. Bens imateriais? Leitor interrompido e os intangíveis de arte e cultura, tomados de súbito por um sujeito indeterminado e fugaz.

Quem terá às mãos minhas obras perdidas? Sempre guardo a ilusão que, deixados em lugar comum para, talvez, serem achados, os livros possam ser resgatados e esses sujeitos literários, brasileiro e lusófono, fazerem a alegria de algum outro leitor.

Que sejam recuperados é a melhor esperança que guardo para meus autores, Rubem Braga e João Branco. Foram-me tirados e ficam à mercê da indeterminação da sorte e objetos da determinação de dias em que, num sobressalto, um assalto, um roubo, um furto, uma levada de vantagem de quem vai obter lucro do descuido do outro, da excessiva confiança de quem jamais acha que vai acontecer consigo. Acontece e, dessa feita, perderam-se de seu dono natural.

Comigo aconteceu. Adiei esses fins de leitura. Perdi o tempo de atenção, não fui “veaco” e Rubem Braga e João Branco partiram sem meu consentimento e foram, forçosamente, obrigados a seguirem com um estranho. Ainda desejo que tenham encontrado um novo lar de leitor e possam ser resguardados, protegidos de sol e chuva e manuseados à curiosidade de quem gosta de um bom livro.

Macktub! 

terça-feira, 17 de março de 2015

Eita final sujão

Sou de novela também
por maneco nascimento

“(...) Mas o que foi que aconteceu com a Leonor
Tirania, ousadia, ou foi a Janete Clair
Que fez a cabeça desta mulher (...)" (Prendas do Lar - Carlinhos Vergueiro/sucesso de fins da década de 70)

O Brasil detém uma tradição de maior exportador de novelas de tevê. Sucesso no mundo inteiro, com incursões pela China e penetração festejada da inesquecível adaptação de A Escrava Izaura, protagonizada por Lucélia Santos, entre outros grandes sucessos que ganharam o mundo, do ocidente ao oriente, e venceram prêmios de teledramaturgia, o país ainda está no hall de ponta de lança nessa linguagem.

Quem não cresceu, vendo as tramas e dramas janeteclairianos que fizeram escola, ou temas + políticos e engajados que povoaram o universo de Dias Gomes, entre um panteão de grandes criadores e teledramaturgos (Cassiano Gabus Mendes, Benedito Rui Barbosa, Gilberto Braga, João Emanuel Carneiro, Manoel Carlos, Mário Prata, Bráulio Pedroso, Glória Peres, Maria Adelaide Amaral, Aguinaldo Silva, Miguel Falabela e uma inesgotável geração sempre renovável de artistas autores que preencheram a telinha mágica para 30, 50, 70, 120, 170 milhões de habitantes nesse país continental do Iapoque ao Chuí.

“Eu perdi o meu amor para uma novela das 8. Veja só a desilusão, eu me desiludi (...) Agora vive longe eu não sei mais nada, fugiu da nossa casa com a televisão (...)” (Fugiu com a novela - Vanessa da Mata) reflete, em nova leitura, crítico humorada,  as velhas questões de “amores perdidos”, esquecidos, ou desencontros consentidos, quando alguém fica ligado na novela das 2, das 6, das 7, das 9 ou das 10 horas.

Já houve o tempo de se negar as novelas, pois alienantes. O tempo de abraçá-las, pois de entretenimento e lazer, nas pausas para descanso das jornadas impostas pela força motriz do capital e negócios dos donos dos negócios e poder detentores do quinhão de + maioria rica.

A teledramaturgia, às vezes, também consegue ser mata e cura, em microsséries e minisséries, com tempo e argumento que quebram o paradigma de cotidianos mágicos, do mundo de Bob, de sempre felicidade e facilidades que só o feijão com arroz e muita gordura imprimem nos dramas circulares de realismo opera sabão à força da opinião do ibope, medições de tevês ligadas, em lares que não mudam de canal. Aquelas dobram o patrocinador e fogem do lugar comum e mediam equilíbrio, enquanto mantêm o padrão de qualidade premiada.

Assim cominho e orégano temperam a humanidade que se vê refletida na tevê. E já não se quer negar o gosto pela novela, pois parte da cultura nacional. Um colega de cena, ator e diretor, em conversa recente, disse gostar de novelas. Assiste as novelas para ver bons atores e atrizes, boas dramaturgias. Assume que vê novela. Eu o acompanho. Desde que me entendo por gente, que vejo, quando posso, algum capítulo de uma nova trama.

Aliás, peguei gosto pelo teatro, vendo artistas na televisão, desde a era da imagem em preto e branco. Depois, algumas oportunidades de rever os artistas, ao vivo e a cores, em palcos de teatro foi um prêmio.

Ver boas interpretações, bons diálogos e o deslizar convincente, no plano americano, de profissionais migrados da rádionovela, do teatro de tradição e competência e da práxis da cena Opinião e Oficina e das novas oficinas e laboratórios vanguardistas e contemporâneos de criação da personagem não tem preço. Grandes estrelas desfilam talento em meio das indústrias culturais e do anunciante e, coadjuvados por belos rostos e adestrados em série à renovação da plástica da televisão.

Como nem tanto ao céu de divinos e celebridades, nem tanto à terra de desejosos de alcançar a mesma divindade e intuir catapulta ao posto de olímpicos, a todo custo, a teledramaturgia sobrevive para mundo democrático dos bons, dos aceitáveis, dos treinados, dos belos e malditos, dos que nunca pisaram um palco de teatro, dos que nunca leram um livro e dos que aprenderam de cor a lição do enquadramento da tevê.

A televisão sobreviveu à intenet e as novelas, idem. Sexta feira, 13 de março, + uma trama fechou seu ciclo de + de seis meses de dramas, melodramas, comédia e estereótipos, caricatura e criaturas recriadas das geladeiras frankensteinianas e requentados populares que encheram a curiosidade e interesse da audiência brasis. Império era a novela e seu deus criador Aguinaldo Silva et al.

Autor que passou um ano divulgando, antecipadamente, sua narrativa, contratando e demitindo elenco via twitter, fazendo seu marketing pessoal e de sua teledramaturgia e do patrão, acertou + nessa última novela. De bom parceiro em novelas de grande sucesso, e temas rurais e de realismo fantástico aos urbanos, o autor foi fazendo as suas. Algumas com + acertos, outras + enfadonhas, mas sempre cumprindo sua sinopse e tempo de atuação.

Em Império conseguiu recuperar um bom tema e teve um elenco nunca desprezível. Ninguém pediu ao autor para ser suprimido da trama e parecia ser prazer dos profissionais em estarem na cena. Em vias a beijar os cinqüenta anos da Vênus platinada, o autor foi muito feliz até o dia em que teve que construir o “felizes para sempre” e assinar o Fim.

A trama correu o ibope e manteve o Brasil ligado na telinha. Quando chegou a hora de fechar o ciclo e entregar o horário à Babilônia, a próxima nova novela das 9, de Gilberto Braga e parceiros, Aguinaldo parece que gastou muito a pílula e perdeu a madrepérola de douro a capítulo triunfal. Fez das suas, mas parece que em pálida renúncia, ou desgaste de não encontrar melhor efeito.

Fora o fato de bang bang à italiana e fotografia em set de dinamismo policial americano, foram poucas as novidades que deixassem melhores lembranças. O take colhido do alto para canteiro dos mortos, imagem bonita.

Todos os maus são punidos, com a morte pelo fogo quente de arma moral e, a agilidade para a morte de alguns parece não ser eficaz para poupar o anti-herói, purgado com a morte “à treição”, tiro nas costas.

 Um seqüestro, humilhações à mocinha e preferida do pai e homem de preto, as falhas trágicas e as mágicas surreais dos tempos e soluções fáceis descomplicam e finalizam o Império, de Aguinaldo Silva.

Moralismo conservado, público (in)satisfeito, trama fechada com chave de bronze e protagonistas (Lílian Cabral e  Alexandre Nero) impagáveis, em suas construções da personagem, seguidos de perto por atores e atrizes em núcleos de ótima atuação. Até os intérpretes opera soap tiveram ganho de causa.
(A. Nero/Zé Pedro, um fantasma assombra em tempo de (i)mortalidade/reprodução)

Um final morno, sujão, mas padrão de novela das 9. Agora é esperar pra ver o furacão de Gilberto Braga e parceiros. Quem o conhece, o compra sem pestanejar e não parece ser à toa que sua trama assinará os cinqüenta anos da emissora que emprega divinos e divinizados, artistas e artífices da profissão, textos e obras que romperam décadas e criaram um monstro da teledramaturgia nacional, chamado Gilberto Braga que, confessadamente, sempre foi fã de Janete Clair.

Gilberto deu o seu “Pulo do Gato” e construiu o próprio nome e ninguém tasca. Quem tiver dúvida que recorra ao Google, Youtube, a memória de fluxo informacional muito + ágil que os tempos de arquivos mortos e sujeitos, em maior escala de sinistro, a risco de se perder.

(Glória Pires e Adriana Esteves, as marias de fátima e carminhas em eterno retorno/reprodução)

Que venha Babilônia. Já chegou com o assombro de primeiro capítulo quente e envolvente. Mocinhas da tevê assassinas e chantagistas, velhinhas homoafetivas, traição e ambição pelo dinheiro alheio, (in)justiça dos podres e poderosos, mocinhos enganados pelo feitiço da lua da Lucrécia Borgia, filhos estragados pelo amor de proteção cega e as discussões, sempre em pauta revisitada, pioneiras nas tramas gilbertobraguianas, desde que o tempo é tempo de  criar para o autor.
(Fernanda Montenegro & Nathalia Timberg, homoafetividade na terceira idade/reprodução)

O público, de direita, meio, esquerda, volver!, vai assistir sim essa nova trama. Pode até nem confessar, mas que vai “curiar”, de perto, isso vai sim. 

13 de Março

impávida tarde de março
por maneco nascimento

Após + de uma década e meia de apresentações no canteiro de obras (Memorial Heróis do Jenipapo, em Campo Maior), feito às cênicas de releitura histórica, “A Batalha do Jenipapo” – a peça, repetiu efeito aos dias “fatídicos de transes desgraçados” e assumiu espetáculo que reconta a perda da Batalha, mas vitória da Guerra às margens do riacho Jenipapo, quando o Piauí se torna a primeira província brasileira a confirmar sinal de adesão à Independência do Brasil.

Texto escrito por Aci Campelo, a partir de pesquisas do historiador e jornalista Chico Castro, o espetáculo tomou forma pela primeira vez lá pelos idos de fins do século 20 e seguiu o exercício do exercício até início dos anos 2000, enquanto governou o estado um político que carregava a alcunha de mão milagrosa (M. Santa, 1 de janeiro de 1995/6 de novembro de 2001).

Em seguida, um governo petista (W. Dias, de 1 de janeiro de 2003 a 1 de abril de 2010) manteve a repetição do espetáculo por sete anos, dois mandatos quase completos. Na esteira de continuidade, houve a encenação nos anos do vice, feito governador, durante sua administração nos quatro anos de tempo pessebista, quando eleito, (W. Martins, de 2010 a 2014)

Em 2015, o marco teatral retorna às solenidades do 13 de março, em mãos de governo petista (W. Dias, a partir de 1 de janeiro de 2015) e repercute, conjuntamente, com a entrega de Medalhas, discursos de homenageados e de políticos, pompas e circunstâncias e desfiles militares perfilados às honras e memórias históricas da Batalha que coloca o Piauí nos anais da construção social brasileira, mesmo que durante muito tempo tenha encontrado nariz adunco e virado dalguns historiadores oficiais nacionais.

No pátio do Memorial do Jenipapo, entre o cemitério dos Heróis, obeliscos arquitetônicos edificados, museu da memória da guerra rural piauiense, o palanque de autoridades erguido, ao evento, e estacionamento e área de passeio de chegada ao local descrito, à margem da BR 343 que ruma ao litoral, se instala há muitos anos a encenação.

Dirigida em sua maioria de vezes por Arimatan Martins; uma vez por Siro Siris e duas vezes por Franklin Pires, uma destas (2012) feito na base de pesquisa do historiador e quadrinista Bernardo Aurélio e outra (2013), como licença poética Musical a La Miserables, contextualizado ao fato histórico local, “A Batalha do Jenipapo” – a peça, fez história à memória do teatro brasileiro a céu aberto.
(elencão perfilado para a Batalha, ensaio geral/foto: m. nascimento)

Desde 2014, a encenação retornou às mãos de Arimatan Martins. Em 2015, em nome da contenção de despesas e orçamento muito inexpressivo do Governo do Estado/Fundac, o espetáculo contou com apenas 38 atores de Teresina e + os coadjuvantes contumazes da cidade de Campo Maior, que também encorpam o mètier da Batalha encenada. Atores profissionais de Teresina, capoeristas do Cordão de Ouro e o Grupo de atores campomaiorense confirmam “A Batalha do Jenipapo” – a peça, em força e magia do teatro.
(Arimatan Martins, diretor e ator; Jorge Carlo, ator e Siro Siris, diretor e ator/foto: m. nascimento)

+ uma vez o elencão ficou acomodado no Campus UESPI C. Maior que, desta feita, sofre intervenção de reforma e estava + limpo, com salas refrigeradas e banheiros assépticos e funcionais.
(elencão nos corredores do Campus UESPI/foto: m. nascimento)

Nova empresa de ônibus ficou responsável pelo deslocamento dos artistas. O motorista só ligava o ar refrigerado quando o transporte ia sair e, naturalmente, não dava tempo resfriar ao conforto do elenco. Devia fazer parte da contenção de despesas.

A alimentação em restaurante estradeiro e contumaz em receber os artistas, não surpreende nunca. Sua zona de conforto se instaura pela cultura de “assim tá bom demais”, para o proprietário, já que o pagamento deve demorar tanto quanto o dos artistas, que desta vez há promessas de recebimento no prazo de 30/60 dias corridos.

É esperar para ver e crer que será + ágil a prestação de serviços públicos oficiais ao serviço prestado pelos atores, atrizes, capoeristas e técnicos envolvidos na obra encenada.

O espetáculo, por si só, se garante como matéria prima manufaturada aos olhos da assistência curiosa. Escolas fundamentais e de ensino médio, cidadãos campomaiorenses, público cativo, autoridades oficiais e convidadas, homenageados com a Medalha, imprensa (tevês, portais, fotógrafos e jornalistas pautados) barraqueiros, Polícia Militar e de Trânsito, segurança governamental, profissionais envolvidos diretamente no circo montado e toda a gente que acorreu ao Memorial “Heróis do Jenipapo” são parte interativa no momento da peça contada.
(ensaio geral na manhã de 13 de março/foto: m. nascimento)

É + uma guerra de cena vencida. A Batalha da Batalha segue curso, fora da legenda datada e dentro da legenda da cultura e arte que premiam a cidade de Campo Maior, quando revisitam a história local e piauiense e transformam memórias sociais em teatro de resistência em terras de canteiros bravos e de cena de permanência à espetacularização da agenda governamental.
(sala de maquiagem, antes da Batalha, a peça/foto: m. nascimento)

“A Batalha do Jenipapo” – a peça, em seu elenco comprometido e atomizado pelo teatro, cumpriu + uma vez seu papel de arte e serviço prestados. Agora é a vez de aguardar a contrapartida do Governo do estado/Fundac em seu papel de pagador do prestador de serviço.

Sorte a todos e aos tempos de promessas renovadas. Artistas da cena, salute!

terça-feira, 10 de março de 2015

Cultura Popular

Arte onde o povo está
por maneco nascimento

Desde 2013 o Sindicato de Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Piauí - SATED PI cumpre ações, de parceria com a Secretaria Municipal de Economia Solidária de Teresina – SEMEST, ao Projeto Pontilhando Cultura que visibiliza grupos folclóricos e oportuniza troca de experiências, capacitação e renovação de indumentárias dos grupos manifestados e cria um + de apresentações, fora do período junino/julhino em que, normalmente, se vestem de sua cultura e vertem energia e força criativa à época dos festejos do Boi.

Oficinas, consultorias e realização de encenação da arte popular do Bumba Meu Boi em palcos preenchidos pela expectativa de espectadores, público natural das comunidades de tradição e revalorização da cultura popular.

Aquelas se dão ao tripé de arbitrar as manifestações culturais em reunião de economia solidária e criativa e atêm-se à cultura, turismo e o incentivo aos pequenos grupos de economia solidária e criativa para gerar atenção prática ao belo manifestado da arte e cultura folclóricas e fortalecimento dos grupos locais.

O Projeto Pontilhando Cultura – Arte Poty 2015 teve agenda iniciada dias 07 e 08 de março de 2015, na Praça do Poty Velho, às 19 horas, numa realização do SATED PI. 
(brincantes e meu Boizinho das memórias culturais populares do Bumba Meu Boi/créditos ascom)

No sábado, 07, a Praça do Povo potyvelhense recebeu os Grupos brincantes, Boi Imperador da Ilha; Mimo de Santa Cruz; Boi Estrela Dalva e o Grupo de Dança ABBA Poty Velho. A noite recebeu a recomendada atenção de grande público da região, interessado em sua própria identidade e pertencimento.

Os artistas brincantes da noite de sábado carregaram consigo tradição e memória construtiva na manutenção da história popular. O Imperador da Ilha, fundado em 1934 por Dona Eva, familiares e amigos, é natural do Bairro Piçarra. Com + de 80 anos de criação, o Imperador tem sede própria, no bairro Cidade Nova, e é composto por 60 componentes, tendo à frente os Mestres Raimundo Araújo e José Ribamar.

O Boi Mimo de Santa Cruz é um dos + jovens, de 2001. Os fundadores são a senhora Maria de Jesus e o senhor Juvenal. O Grupo surgiu no bairro Vamos Ver o Sol e hoje está sediado no bairro Redenção e conta com 40 brincantes. O Mestre dos brincantes é Juvenal Dias Pereira.

Fundado em 1971, no bairro Matadouro, o Boi Estrela Dalva tem o patrono criador, na pessoa do senhor Pedro Barros da Silva, o fundador. Com atuação no bairro Parque Alvorada, o Estrela Dalva, com 60 brincantes, detém à batuta o Mestre Chico Chagas.

Fechou a noite de sábado, 07, o Grupo de Dança Abba Poty Velho. Criado em 2005, o Grupo de Teatro Abba (Abá) teatro religioso e social procura mergulhar no auto conhecimento e questionar, criar e recriar o meio em que vive, através da arte. A direção do Grupo é do Cosme Gomes de Sousa.

A noite de domingo, 08 de março, Dia Internacional da Mulher, também computou público extraordinário, apesar da chuvinha que se manteve durante todas as apresentações.

A partir das 19 horas, na Praça do Poty Velho, o encontro de Bois, sob a chuva, reuniu o ChacumBoi. Criado em 2010, na comunidade da Pedra Mole, a partir da Oficina de Percussão ministrada por Pedro Black. Com 35 brincantes, o Boi ChacumBoi tem à frente seu Mestre criador Pedro Black.

O Boi Estrela da Noite, conduzido pelo Mestre Antonio José, tem data de fundação em 2010, no bairro Santo Antonio, e seu fundador foi o senhor Chico Diva. Estrela da Noite é composto por 35 brincantes e mantém sede no bairro Santo Antonio.

No mesmo pátio de manifestação ainda se apresentou, em simultânea atuação com os Grupos irmanados, o Boi Dominador do Sertão.  O Boi é de 1989, criado pelo senhor Edmilson Oliveira, lá no bairro Buenos Aires, com a participação de vizinhos do Mestre de Boi. Hoje, com 40 brincantes, atua na comunidade Monte Verde e o Mestre condutor é o senhor Nonato Oliveira.

Com a chuvinha. que não deu trégua, a festa foi só dos Bois que confraternizaram no terreiro da alegria e lavagem das alegorias pela água caída do céu no sertão de Bichos animados e brincantes.

A apresentação de trechos da Comédia Musical A República dos Desvalidos, do Grupo de Teatro Pesquisa, ficou impossibilitada de acontecer. Seria a homenagem do Projeto Pontilhando Cultura ao Dia Internacional da Mulher. A precipitação, que muito alegra o teresinense, caída àquela noite, adiou o ato cênico musical para futura agenda.

O + foi só alegria manifestada, da arte e cultura de tradição, que mantém-se à custa da própria insistência em transigir memória e história da construção social da cidade verde, em seus dias de criação de mitos, lendas e outros temas do inventário popular, a partir do cotidiano do homem simples, meeiro do terreiro do coronel e seus bois de cria, corte e ostentação.

Viva o Bumba Meu Boi. Viva a Cultura Popular! 

sexta-feira, 6 de março de 2015

O "Doce"

Doce de goiaba
por maneco nascimento

 “Os bóias-frias quando tomam umas biritas/Espantando a tristeza/Sonham, com bife à cavalo, batata frita//E a sobremesa/É goiabada cascão, com muito queijo, depois café/Cigarro e o beijo de uma mulata chamada/Leonor, ou Dagmar (...)//São pais de santos, paus de arara, são passistas/São flagelados, são pingentes, balconistas/Palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados/Dançando, dormindo de olhos abertos/À sombra da alegoria/Dos faraós embalsamados(O Rancho da Goiabada/Aldir Blanc-João Bosco)
Imagine as goiabas da “carne” vermelha selecionadas e a polpa jogada no tacho de zinco azeiado e sobre as trempes de pedras grandes, e de fogo, que acomodam a lenha que vai aquecer a massa do fruto que, adicionado o açúcar e alguma pouca quantidade de água, completam a fórmula do prazer degustado na forma do doce de goiaba. E, quem sabe, a goiabada cascão raspada do velho tacho, melado em grossa camada do bom ponto do doce.

Assim são as memórias afetivas da culinária rural e quiçá aplicam-se ao sabor deixado na boca de quem provou o doce, talhado nas fornalhas da cozinha brasileira e compotado para degustar-se com calma e, por vezes, com voraz apreço de amaciar as papilas identificadas com propriedades organolépticas do paladar.

Mas há outros doces que também passam pela mesa de qualquer mortal e, dependendo de quem o cultiva, podem ter sabor não muito palatável, mas sempre um “doce” que desce goela abaixo.

Planta-se e colhe-se. As goiabas nem sempre produzem a massa apropriada ao doce da vovó. Por outro lado, sempre doce com sabor para acre e sem as regalias da tradição rural e culinária memorável. Mas “doce” que plantado, nalgum momento será digerido, queira ou não queira o doceiro de magias sem a graça branca, mas feitor de toma lá, dá cá. Doce dado, doce recebido de volta a La Lei de Newton.

Mas, saindo da culinária e ficando nas boas notícias que correm os chegados das águas de março, porque como diz o poeta “É pau, é pedra, é o fim do caminho/É um resto de toco, é um pouco sozinho/É um caco de vidro, é a vida, é o sol/É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol (...) É o mistério profundo, é o queira ou não queira/É o vento ventando, é o fim da ladeira (...) Das águas de março, é o fim da canseira/É o pé, é o chão, é a marcha estradeira (...) É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto/É um pingo pingando, é uma conta, é um conto (...) É a luz da manhã, é o tijolo chegando/É a lenha, é o dia, é o fim da picada (...) É pau, é pedra, é o fim do caminho/É um resto do toco, é um pouco sozinho/É uma cobra, é um pau, é João, é José/É um espinho na mão, é um corte no pé/São as águas de março fechando o verão/É a promessa de vida no teu coração (...)(Águas de Março/ Tom Jobim)

Há uma novidade que nos pega de surpresa alegre e recebe, de alguns, um indisfarçável nariz de pouca felicidade. E a vida sendo assim mesmo e parafraseando Nelson, a unanimidade é burra e, às vezes despeitada. Então, quem não gostou que gostasse.

(ator e promotor cultural J. Vasconcelos/image face J. Vasconcelos)

João Batista Vasconcelos recebe, às 8h30 da manhã, do dia 06 de março, das mãos do representante da Fundac, a responsabilidade oficial de coordenar o Complexo Cultural Clube dos Diários/Theatro 4 de Setembro. Solenidade fechada ao quadro de funcionários, colaboradores e alguns amigos que chegam para prestigiar o amigo.

Promotor cultural e agitador de arte e cultural transversal de todos os tempos, entre parceiros de todas as linguagens, o ator e produtor cultural recebe a confiança de um novo desafio e responsabilidade ímpar, estar à frente da maior Casa, oficial, de espetáculos do Piauí e espelho de corredor cultural centrado na Praça Pedro II (Aquidabã Sem Número), na velha Teresina de sempre.

Torcer o nariz, ou o rabo do tatu, em espírito de porco com asas cortadas, pode ser o sentimento que povoa alguéns que gostariam de ver outros nomes que liderassem essa Casa. Não deu, ficará a outra oportunidade. Dessa vez, será a vez de João Vasconcelos e ele sabe agitar cultura e o faz como resposta em agregar + valores artísticos e artistas que também se identificam com sua forma de ação cultural.

Vai essa aí, galera dos sins e nãos. João Vasconcelos está ai e não está prosa. Vivendo e aprendendo a jogar. “Vivendo e aprendendo a jogar/Vivendo e aprendendo a jogar/Nem sempre ganhando/Nem sempre perdendo/Mas aprendendo a jogar (...) Água mole em pedra dura/Mais vale que dois voando/Se eu nascesse assim pra lua/Não estaria trabalhando (...) Mas em casa de ferreiro/Quem com ferro se fere a tudo/Cria fama, deita na cama/Quero ver o berreiro na hora do ronco/Vivendo e aprendendo a jogar(Aprendendo a Jogar/Guilherme Arantes)

João está poesia, drama, comédia, música, artes visuais, dança e o que vier + porque urge fazer cultura e arte, seja em Bar, praça, parque ou palco empenhado em urdir o fazer artístico em expansão, atomizando quem soma coletivo e sana a fuga do complexo de coitadismo, da teoria conspiratória, ou da arraigada leniência de não ser de fato e direito artista e construir arte (aqui entenda-se o viés paulofreireano).

Quem não gostou que gostasse, confere a gira setentona em gíria cultural de recorte à alegria e metáfora de discurso vencedor em combate aos pessimistas, na era da exceção brasileira de céu de brigadeiro e outros marechais de ferro. Vasconcelos chegou ao cargo, de indicação também política, a partir de seu histórico de trinta anos no batente do fazer arte nessa cidade. Então, essa é sua deixa. O texto está dado, a cena começa agora!

Aos “perseguidores” e amargurados com essa boa notícia, vão cantar em outra freguesia. O mundo anda, circula, e a fila é indiana e às vezes até as pedras se encontram.

No meio do caminho, salta-se a pedra e continua-se o curso da vida voejando à arte e cultura locais. Peguem os painéis para alargar conhecimento e revisionem as próprias ações, até dos últimos dias de pregoeiros da excelência produtiva da cidade, ou leiam um romance. Mas paguem as contas do mercado, as prestações... parafraseando Torquato.

Mas deixem em paz meu coração, pois ele é um pote até aqui de doce de goiaba, goiabada cascão. E, para não sofrer de diabetes, evito levar “doces” do destino. Vigio a ação e colho a reação + respeitosa e vivo bem, obrigado. Falou bicho!

Parabéns, João Vasconcelos. Vai que é tua. Operário do viço artístico, não é Elis, “Essa Mulher” inesquecível, que aniversaria neste 17 de março, uma setentona de guerra,  e é de sempre boa lembrança, mas  ele viaja na cauda do furacão e sabe ser porque está sempre girando, girando feito cantiga de roda e é sal da terra.

E sei que os parceiros estarão não só torcendo, mas dividindo essa alegria e contentamento. O 4 de Setembro te aguarda e Daniel, para lembrar o bíblico, sempre vencerá a jaula dos leões e sem matar nenhum deles, para manter-se politicamente correto.

 É + Electra Concreta (para manter-se na cena, lembre-se que não se é Deus, só deuses trágicos, e revisionados, também no teatro de Gerald Thomas, meados da década de 80), ou Electra comCreta, ou sem Esta, mas sempre operário do ofício.

Ah, raspe esse tacho e deguste o doce da tradição desinteressada e + próxima do agregar de sabores apurados. A quem não soube lavorar um bom fruto, sobre-lhe o “doce” da hora.

Evoé, Vasconcelos!