quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Vai uma passagem ai?

o "troco" não tá dando...
por maneco nascimento

Sim, estamos com passagem de transporte público coletivo + cara. E, considerando que o serviço de deslocamento, nos ônibus disponibilizados à cidade, sempre estiveram a desejar, então temos uma das passagens + caras do país. 









(nossas paradas de ônibus de cada dia/imagem reprodução)


De R$ 2,10 a R$ 2,50, um salto olímpico de R$ 0,40 centavos saídos, forçosamente, do bolso do usuário ao curso da caixinha do empresário de transportes coletivos que domina trechos da capital e, das franjas da sociedade crescida à grande Teresina e zona rural.

Presente de grego, na acepção de quem sabe, premeditadamente, o que alcançar e na posterizada história da tomada de Tróia, pela esperteza do estrategista de guerra de reinos dominadores e cerco grego espartano.

De toda forma, um presente surpresa dos acordos e cálculos do toma lá dá cá na envolvente relação prefeitura de Teresina e resultado de eleições municipais e empresários de transportes públicos coletivos e aporte generoso, em campanha eleitoral, que merece retornar aos cofres do santo ofertador de milagre à caravana do voto certo.

Na maquinada manobra de “agradar” estudantes que se manifestam e realizam atos que deixam empresários e prefeitura de orelhas incontinenti, a pmt, strans e setut resolveram dar um gracejo à meia passagem, mantendo-a no valor de R$ 1, 05, e catapultar a inteira a R$ 2,50.
(será que meu ônibus já vem?/imagem reprodução)

Passageiro da tarifa inteira não parece, no raciocínio oficial/empresarial, muito disposto a incorporar manifestação. Então, num lampejo de esperteza raposa velha, aumenta-se a passagem inteira e mantém a meia passagem a custos que não arrepiem a quem faz barulho e cria confusão.

Tá esperta, a prefeitura, ao benefício da setut e seus desdobramentos lucrativos empresariados na má prestação de serviços públicos coletivos de deslocamento urbano. Colou, vai colar? Ainda não se sabe ao certo. 

É certo que entidades representativas, líderes de movimentos populares e quem “não aceita a noite mansa” não deixaram assim tão fácil esse açúcar no fel e, do alto de interesses coletivos, jogaram água fria nessa fervura de inteligentsia matreira.

Acionado o Ministério Público do Estado do Piauí, reuniu, na segunda feira, dia 9 de fevereiro, à primeira audiência pública sobre o aumento da tarifa de passagem, justificada pela integração dos ônibus, representantes dos negócios de transportes coletivos e parceiros oficiais da pecha municipal + os reclamantes do abuso, que disfarçado de boa fé. 

Ficou acertado que a pmt, e seus representados no ato de aumento da passagem de ônibus, deve se manifestar em cinco dias e explicar por que cálculos justificativos de aumento da passagem não pareciam muito convincentes, mesmo determinantes de abusiva manobra tão dotada de intenção generosa.

[O promotor Fernando Santos, responsável pela condução da audiência, solicitou a imediata redução do valor da passagem e deu prazo de cinco dias para manifestação do prefeito Firmino Filho.
De acordo com o promotor, após verificar as planilhas de custos da Strans referentes a maio de 2013 e novembro de 2014, foram detectadas diversas irregularidades, como erro nos cálculos sobre a quantidade equivalente de passageiros no período de 12 meses e aumento nos coeficientes relacionados à rodagem dos veículos e índice de consumo.

“A Prefeitura não explica o aumento dos coeficientes de 2013 e 2014. E esses coeficientes são determinantes para o cálculo da tarifa de ônibus urbano em Teresina. Ora, se aumentamos os coeficientes, aumentamos o valor da passagem. No entanto, a Prefeitura não diz o porquê de eles serem alterados de uma planilha para outra”, diz o promotor.] (www.meionorte.com/blogs/efremribeiro/mp-quer-reducao-de-passagem-de-onibus-e-da-prazo-para-firmino-filho/por E. Ribeiro, ••• atualizado em 09 de Fevereiro de 2015 às 15:01/acesso 11.02.2015, às 14h30)

Determinou o MPE - PI que a pmt retroaja o preço da passagem para o valor praticado antes desse desvio esperto, percurso de jogar um barro na parede e esperar que ele solidifique e incruste na boa fé do passageiro de transporte coletivo. Retroagir no preço da passagem de ônibus e demonstrar melhores justificativas que caracterizem esse aumento de R$ 0,40 no bolso do trabalhador usuário do serviço do Setut.

Espera-se, da pmt, a resposta que o MPE solicita. Será que vai ter que capitular o gerente em chefe administrativo executivo do município e atender a determinação judicial, ou ficará fingindo-se de morto, enquanto houver brechas que permeiem a movimentação da lei e seus ditames de sobrevivência “lex et order”?

Desde primeiro de fevereiro, o usuário da passagem inteira tem dobrado seu gasto de orçamento, já exíguo, e se desdobrado em pagar R$ 5,00 a duas passagens diárias, ou R$ 10,00 a quatro deslocamentos.

Ainda que o valor da passagem retroaja ao valor anterior, mesmo assim o empresário de transportes coletivos urbanos já terá gerado, a seus cofrinhos geniosos e genuinamente eficazes em juntar negócios e lucros à custa do usuário do serviço público de ônibus, uma pequena fortuna. Valor que não retrocederá ao bolso do passageiro.

Então, mesmo pedra extraída do sapato gasto do usuário, fica um prejuízo. Este sim, significativo no bolso do cidadão comum e contrapõe-se à chorosa e inconvincente lamúria de empresários que alegam déficits financeiros, por não contarem com o aumento da passagem.

Percursos pequenos, realizados pelos usuários de transportes coletivos urbanos; ônibus lotados e reduzidos nos locais de atendimento das pessoas que necessitam, efetivamente, do serviço; atrasos e paradas de ônibus superlotadas, em horário de pico nas estações de clima típico da cidade e uma infindável desmesura da prestação de serviços que coloca em xeque o motorista e trocador que, empregados, devem obrigações ao patrão, e o trabalhador que usa o deficiente serviço prestado.
(a desproteção das paradas de ônibus na cidade/imagem reprodução)

Tudo se vai consumando à imposição de quem retém a caneta determinante de como o serviço público de transportes coletivos urbanos será jogado à seara do passageiro de ônibus.

Quanto à ranhura oficial de apresentar novas perspectivas de melhorias das condições de atendimento ao público consumidor de novos serviços, feito + à mídia persuasiva, a cidade apenas observa e dá crédito, que não se precisa ser + céticos, que o já tornados, pelos modelos administrativos de setor público.

É da Lei a implementação de real e eficaz licitação para novas entradas de empresas de transportes públicos coletivos urbanos e possibilitar a fuga do azeitado clientelismo e capitanias hereditárias de concessão do serviço público, como se fosse moeda de troca aos interesses + privados, aliados à manobra de aptidão generosa oferecida pelo poder público.

Concretizar o serviço de integração é de direito do cidadão. Pois como justificativa de diminuir o prejuízo do usuário do serviço de transportes público e coletivo urbanos. Usuário, que paga caro por prestação de serviço, aquém das condições dignas que necessitaria para deslocar-se da casa ao trabalho e, deste, ao retorno a local de descanso de um dia extenuante de sobrevivência, quer + respeito.
(as longas esperas pelo ônibus/imagem reprodução)

Então, caros “domine polis et politikae”,  a cidade necessita de ônibus novos e confortáveis; rotas eficientes e maior quantidade de veículos ao atendimento da população; integração necessária, justa e efetiva; preços regulares e ajuizados, se preciso, da passagem de ônibus; percursos extensivos às novas Teresina que têm surgido  e merecem gozar, também,  desse serviço público. Respeito é bom e todo mundo gosta, na cobertura da Lei, nas linhas, entrelinhas e para além das linhas legais.

O cidadão não é tartaruga, de carapaça de dinheiro, (em)carregada a despejar seu labor nos cofrinhos de empresários de transportes públicos coletivos urbanos. Não podemos carregar esse serviço público às costas.

Temos nossas obrigações e deveres e os direitos não podem ser vilipendiados por manobras espertas do administrativo público em apoio aos negócios privados de empresas e lucros abusivos de empresários de ônibus.

Não podemos achar usual, casual, natural e irrevogável o maneirismo político que sempre acarreta prejuízo ao cidadão. Vai uma passagem ai? Vai, sim. Mas que valha à pena o serviço, porque o troco não tá dando...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Memória do Carnaval brasis

a marchinhas de tradição
por maneco nascimento

O Carnaval chegou ao Brasil, lá pelo século XVII, na esteira da influência das festas já manifestadas na Europa. Só no século XIX, porém, é que começaria a surgir os blocos que ficariam muito mais populares no século XX, o das grandes novidades e expansões do mundo brasis em franca modernização.

O estourar da maior festa popular brasileira se deu com a locomotiva da alegria que eram as marchinhas carnavalescas. Humoradas, de + divertido a ouvir, cantar e acompanhar nas rodas e bailes dos salões e nas ruas e logradouros por onde se ouvia, ou se podia orquestrar essa música carnavalesca, genuinamente nacional, que dava + calor coletivo e deixava a brincadeira muito + mais divertida. 


Desde Abre Alas, da musicista Chiquinha Gonzaga, até os grandes clássicos de João de Barro et al, as marchinhas preenchiam a vida dos foliões e, como “recordar é viver...” a memória do carnaval brasis passa por lembrar marchinhas do carnaval nacional.
Bárbara Santos aponta as oito melhores marchinhas de carnaval e suas histórias peculiares In  http://blog.sympla.com.br/as-8-melhores-marchinhas-de-carnaval-e-suas-historias/. Em sua seleção, a primeira da lista é Abre Alas.

É a primeira marchinha carnavalesca, no registro da história do carnaval de salões popularizada às ruas também. Composta em 1899, por Chiquinha Gonzaga que criou a canção em homenagem à Escola Rosas de Ouro, do Rio de Janeiro, impulsionando assim sucesso à agremiação. Abre Alas tornou-se a + famosa composição da maestrina e entre as + populares marchinhas do país
(a mulher acima de seu tempo/divulgação)
Ó abre alas que eu quero passar/Ó abre alas que eu quero passar/Eu sou da lira não posso negar/Eu sou da lira não posso negar//Ó abre alas que eu quero passar/Ó abre alas que eu quero passar/Rosa de ouro é que vai ganhar/Rosa de ouro é que vai ganhar(Abre Alas/ Chiquinha Gonzaga)
Na sequência, vem a segunda colocada, Mamãe eu quero.

A canção foi gravada, em 1937, por Jararaca e Vicente Paiva. Mas sucesso mesmo ocorreu quando regravada pela pequena notável Carmem Miranda, após quatro anos desde que lançada no mercado folião.

 “Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero/Mamãe, eu quero mamar/Dá a chupeta, dá a chupeta/Dá a chupeta pro bebê não chorar/Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero/Mamãe, eu quero mamar/Dá a chupeta, dá a chupeta/Dá a chupeta pro bebê não chorar//Dorme, filhinho do meu coração/Pega a mamadeira e vem entrar no meu cordão/Eu tenho uma irmã que se chama Ana/De piscar o olho já ficou sem a pestana/Mamãe, eu quero, mamãe, eu quero (...)(Mamãe eu quero/ Jararaca e V. Paiva)

[#VocêSabia? 
Almirante, amigo dos autores, cantor e músico, conta no livro “História do Carnaval Carioca” que “Na hora de gravar verificamos que ela era pequena, não tinha a duração exigida para o disco. Seria impossível repetir uma parte da música. Que fazer? Jararaca e eu completamos a música fazendo um diálogo improvisado na hora, sem nenhum interesse. Durante a gravação, o banjoísta errou um acorde, mas a música era considerada tão ruim que ninguém pensou em refazer tudo. Pois bem, ’Mamãe eu quero’ foi um sucesso definitivo e enorme. A música é ruim mesmo, o disco é péssimo, mas pegou [...]”. E não é que pegou mesmo?] (http://blog.sympla.com.br/as-8-melhores-marchinhas-de-carnaval-e-suas-historias/por Bárbara Santos, em 25 de fevereiro de 2014/acesso 10.02.2015, às 14h30)
A terceira da seleção é Aurora.

A marchinha foi composta, em 1941, numa quarta feira de cinzas, por Mário Lago. Logo virou sucesso e ganhou grande popularidade no ano seguinte. Compostas de um ano para o outro e concorrentes de concursos da melhor marchinha de carnaval, as canções ganhavam o povo, as rádios e os tempos de festas ao Momo. Aurora é sempre lembrada nos eternos carnavais, sejam de salões, ou ruas de todo o Brasil continental.

“Se você fosse sincera/Ô ô ô ô Aurora/Veja só que bom que era/Ô ô ô ô Aurora//Se você fosse sincera/Ô ô ô ô Aurora/Veja só que bom que era/
Ô ô ô ô Aurora//Um lindo apartamento/Com porteiro e elevador/E ar refrigerado/
Para os dias de calor/Madame antes do nome/Você teria agora/Ô ô ô ô Aurora” (Aurora/ Mário Lago – Roberto Roberti)
A canção Cachaça se instala na quarta colocação e é entre divertida e, aos dias atuais, seria até "politicamente incorreta", pois de declarada apologia à aguardente. A música é dedicada aos foliões que não dispensam uma dose a +, ou bebem além da tampa. A canção de Mirabeau Pinheiro, Lúcio de Castro e Heber Lobato foi composta em 1953 e era dedicada aos bons e velhos apreciadores da cachaça. 

Você pensa que cachaça é água/Cachaça não é água não/Cachaça vem do alambique/ E água vem do ribeirão//Pode me faltar tudo na vida/Arroz feijão e pão/
Pode me faltar manteiga/E tudo mais não faz falta não/Pode me faltar o amor/ 
Há, há, há, há!/Isto até acho graça/Só não quero que me falte/A danada da cachaça
(Cachaça/ Mirabeau Pinheiro – Lúcio de Castro – Heber Lobato)
A marchinha Turma do Funil não deixa de também dedicar alegria foliã aos apreciadores de destilados e é a quinta na galeria de oito melhores.
Aproveitando a época de total abertura à bebedeira e porres até quarta feira, os compositores Mirabeau, M. de Oliveira e Urgel de Castro criaram a divertida marchinha, em 1956, dedicada àqueles que metem bronca na bebida, chutam o balde e abastecem a máquina foliã para não deixar ninguém dormir no ponto e nunca ficam tontos. Tom Jobim e Miúcha regravaram a canção na década de 1980. 
Chegou a turma do funil/Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto/Ai, ai ninguém dorme no ponto/Nós é que bebemos e eles que ficam tontos//Chegou a turma do funil/Todo mundo bebe, mas ninguém dorme no ponto/Ai, ai ninguém dorme no ponto/Nós é que bebemos e eles que ficam tontos//Eu bebo sem compromisso/Com meu dinheiro, ninguém tem nada com isso/Aonde houver garrafa, aonde houver barril/Presente está a turma do funil” (Turma do Funil/ Mirabeau Pinheiro – M. de Oliveira – Urgel de Castro)
O sexto lugar vai para Me dá um dinheiro ai.
A canção marchinha não é só muito popular, mas também hino que não pode faltar nos carnavais e tradicionais bailes society e da saudade. Composta, na década de 1950, o ano era 1959 e o sucesso rompe, também, ao ano de 1960. A trinca de compositores, Ivan, Homero e Glauco Ferreira. Moacir Franco gravou a marchinha e deu grande força particular e carisma pessoal de intérprete ao grande sucesso que já trazia marca de popularidade, desde o nascimento da canção. 
Ei, você aí/Me dá um dinheiro aí/Me dá um dinheiro aí!//Não vai dar?/
Não vai dar não?/Você vai ver a grande confusão/Que eu vou fazer bebendo até cair/Me dá, me dá, me dá, oi!/Me dá um dinheiro aí!//Ei, você aí/Me dá um dinheiro aí/Me dá um dinheiro aí!//Não vai dar?/Não vai dar não?/Você vai ver a grande confusão/Que eu vou fazer bebendo até cair/Me dá, me dá, me dá, oi!/Me dá um dinheiro aí!” (Me dá um dinheiro ai/ Ivan Ferreira – Homero Ferreira – Glauco Ferreira)
[#VocêSabia?
No governo Juscelino Kubitschek, em agosto de 1958, o Secretário de Estado dos EUA John Foster Dulles, veio ao Brasil para uma importante missão americana: tratar da situação do petróleo, referente a campanha nacionalista “O petróleo é nosso”. Nesses tipos de reuniões era dado um tempo aos fotógrafos e cinegrafistas para o registro dos fatos. Em um desses momentos, o fotógrafo do Jornal Brasil, Antônio Andrade, fez uma foto polêmica que dá a impressão de que JK estende a mão e suplica algo ao secretário norte-americano, que parece abrir a carteira em busca de dinheiro. Não deu outra, o JB publicou a fotografia em sua primeira página sob o título ‘Me dá um dinheiro aí’, em referência à marchinha de carnaval que era sucesso da época.] (http://blog.sympla.com.br/as-8-melhores-marchinhas-de-carnaval-e-suas-historias/por Bárbara Santos, em 25 de fevereiro de 2014/acesso 10.02.2015, às 14h30)
A canção Cabeleira do Zezé levou o sétimo lugar na categoria de as melhores marchinhas brasileiras.
Olha a cabeleira do Zezé/Será que ele é?/Será que ele é?//Olha a cabeleira do Zezé/Será que ele é?/Será que ele é?//Será que ele é bossa nova?/Será que ele é Maomé?/Parece que é transviado/Mas isso eu não sei se ele é//Corta o cabelo dele!/Corta o cabelo dele!/Corta o cabelo dele!/Corta o cabelo dele!(Cabeleira do Zezé/ João Roberto Kelly – Roberto Faissal)
Criação de J. Roberto Kelly, enquanto estava numa mesa de bar. A década era 1960. O compositor diz que tinha o hábito de ir a um bar, no Leme, encontrar amigos. O garçom que os atendia era cabeludo e daí veio a homenagem que marcou o Zezé e sua vasta cabeleira, na marchinha.
E a oitava colocada na galeria das oito melhores marchinhas nacionais é a canção A pipa do Vovô.
A canção é de uma das duplas + populares entre os compositores carnavalescos, Manoel Ferreira e Ruth Amaral. A música recebeu um grande impulso de popularidade na voz de Sílvio Santos, apresentador de tevê, nos anos 80.
A pipa do vovô não sobe mais/A pipa do vovô não sobe mais/Apesar de fazer muita força/O vovô foi passado pra trás!//A pipa do vovô não sobe mais/A pipa do vovô não sobe mais/Apesar de fazer muita força/O vovô foi passado pra trás!//Ele tentou mais uma empinadinha/A pipa não deu nenhuma subidinha/Ele tentou mais uma empinadinha/A pipa não deu nenhuma subidinha//A pipa do vovô não sobe mais/A pipa do vovô não sobe mais/Apesar de fazer muita força/O vovô foi passado pra trás!//A pipa do vovô não sobe mais/A pipa do vovô não sobe mais/Apesar de fazer muita força/O vovô foi passado pra trás!(A pipa do Vovô/ Manoel Ferreira – Ruth Amaral)
 [#VocêSabia? 
Não se sabe ao certo o porque da composição da canção. Silvio Santos, apesar de não ser o autor da obra, conta diversas histórias e diz que a origem pode ter algumas outras versões possíveis. E brinca que a verdadeira só será revelada no último sorteio da Tele Sena da história. Quer saber qual é? Está em dia com os carnês do baú? Quem sabe você não possa ser o felizardo?!] (http://blog.sympla.com.br/as-8-melhores-marchinhas-de-carnaval-e-suas-historias/por Bárbara Santos, em 25 de fevereiro de 2014/acesso 10.02.2015, às 14h30)
Esse é um recorte da Memória do Carnaval brasis, no esteio das marchinhas carnavalescas que povoaram décadas e décadas de sucesso e popularidade e que, ainda hoje, nas voltas e revisitas à tradição de tantos carnavais, as canções ainda são os + populares motes para a festa da alegria, fantasia e tempo de folia do carnaval brasileiro.
Fontes de pesquisa:
(http://blog.sympla.com.br/as-8-melhores-marchinhas-de-carnaval-e-suas-historias)

Saudades do carnaval...

que passou
por maneco nascimento

Este ano não vai ser igual àquele que passou...”, aquelas fantasias que, durante o ano inteiro, a expectativa costurava, ficou para trás, na memória de outros carnavais.

Os Bailes sociedade, os desfiles de fantasias, os três ou quatro dias de folia e fantasia, uns pra cá, outros pra lá, até quarta feira, perderam-se no tempo do já foi assim.

Assaz, não há + o transitar das gentes, famílias, foliões, caretas, mascarados, os vendedores de máscaras tradicionais de papel cartolina e celofane aos feitos de, o fantasma do quadrinho, a colombina, o pierrô e o arlequim, os monstros e personagens das indústrias culturais de massa, na simplicidade artesanal de esconder, na brincadeira do fingimento de estar fantasiado e ser o outro contido nos eus das máscaras sociais de tantos carnavais.

Os grandes desfiles, quando ainda na Avenida Frei Serafim. As escolas de tradição, das + exóticas e ostentosas às + simples que vinham, dos bairros e periferias foliãs, compor à concorrência e estar no rol das julgadas e escolhidas como as melhores do ano.

Unidos da Palmeirinha, Escravos do Samba, Piratas do Ritmo, Sambão, Brasa Samba, Skindô e, a novidade onomatopeica de sambas enredos e neologismos das passarelas, a caçula e de enredos ostentação, Ziriguidum, entre tantas outras agremiações que romperam o asfalto da Frei Serafim e marcaram histórias do carnaval de Teresina.

Os dias de desfiles das escolas de samba de primeiro e segundo grupo e os dias dos blocos sociedade, blocos dos sujos. E o diverso e fantástico das fantasias, improvisadas ao tempo da rua, ou meticulosamente planejadas ao sabor e humor e escatologias permitidas nas reinvenções, revestidas ao brinquedo feliz de apresentar-se na pista de espetáculo e subir e descer rua acima, rota abaixo, em grupos, em times e corporações alegres, ou só, pra contrariar o coro dos contentes.

Enfeitar o tempo de sorrir e divertir, também, aos curiosos e menos corajosos de representarem uma personagem, e investir no templo de liberdades e profanidades consentidas ao reino de Momo.

As personagens emblemáticas e os tipos libertários de tantos carnavais. Robinho e seu riso grande em imaculada felicidade; o estilista e carnavalesco Lulu Maravilha, que o nome já dá lampejos do maravilhoso mundo de vestir e compor alegrias, em seu requinte de composições ao Desfile de Fantasias, Destaque de Escolas e passarela livre, quando as obrigações oficiais lhe davam cancela liberada para deslumbrar nas calçadas, nos canteiros da Frei e asfalto do lado de cá, na margem da área do cordão e serviços da comissão organizadora do carnaval.

Bernardo Cruz, carnavalesco das costuras detalhistas e brilhos cosidos ao amor artesanal, direcionado às + belas fantasias e vestimentas de cores e efeitos visuais a vestir passistas e estrelas destacáveis às comissões de frente, alas e carros alegóricos na ópera sabão de maior espetáculo a céu aberto, de herança imitação dos tradicionais desfiles do eixo sul. O mestre Bernardo fez escola e deixou legado ao ateliê do samba e às discípulas da alta costura carnavalesca e barracões mágicos.

E a nossa eterna Rainha do Carnaval de Teresina. A Rainha da Comissão de Frente de todas as escolas que passavam pelo canteiro de obras do carnaval, a divina Nicinha. Sempre linda, arrumada, fantasiada, simpática e risonha, maquiadíssima e desfilando prazer e amor à festa momesca da cidade verde.
(imagem colhida da linha do tempo de K. Kruel Fagundes)

Emblemática e de carisma invejável. Para aparecer e mostrar que gostava de samba e carnaval e confirmar que sempre esteve no grupo dos bons sujeitos, nem ruim da cabeça, nem doente do pé, lembrando o gracejo musical, no sambinha excelência, de Dorival Caymmi.

Nicinha adorava conceder entrevistas e brilhar à frente dos holofotes. Recompunha a maquiagem, ajeitava os óculos “fundo de garrafa” e, lá estava, revisitando as próprias memórias e tempos de amor ao carnaval, desde a adolescência, quando ensaiou as primeiras entradas à passarela da maior festa que o país pode transformar em cultura popular manifestada. 

Era assim, em boas doses de folia, confetes, serpentinas e cores da diversidade, em minhas lembranças de outros carnavais, de fins da década de 1970 e aquecidos dias e fevereiros que correram os anos oitenta.

Depois os carnavais foram perdendo seu tempo de existir na Frei Serafim. Transferidos à Marechal Castelo Branco, à beira do rio Poty e, ensaios na Cajuína, sem muitos resultados que satisfizessem sua permanência ali e retornou à Mal. Castelo Branco para receber os desfiles e os axés importados a requentar o fim de noite.

As tradicionais escolas foram arrefecendo o fogo, os desfiles ficaram menores. A saída do centro da cidade diminuiu a fluência de público. Deslocar-se à Mal. Castelo Branco ou Cajuína gerou + custos e riscos de chegar e sair.

O certo é que o carnaval de desfiles de escolas de samba ficou grande d+ ao centro da cidade e a cidade cresceu para fora do Alto da Jurubeba e abriu perspectiva de maiores campos de recepção de grande público e céu + amplo para deslizar carros alegóricos e eventos à grande massa, caso ela acorresse ao novo local. Sim, ela foi aonde o espetáculo poderia estar e ser ofertado. O espetáculo é que perdeu o brilho de outrora.

Sem investimento público oficial satisfatório e sem as agremiações escolas de samba abandonarem a zona de conforto, nem desempenharem a cultura de comunidades que trabalhassem o ano inteiro, na antecedência do próximo carnaval, e aquecessem as baterias à auto sustentabilidade e manutenção da brincadeira, independentemente do sinal financeiro da pmt, + dada à manifestação massiva de carros cortejos, às custas dos proprietários e concorrentes do corso, agregado ao livro dos recordes.

O verdadeiro carnaval de rua e de desfiles de escolas e blocos de sociedade vai cumprindo rito de passagem ao próprio ocaso. Às vésperas dos dias momescos, escolas começam a abrir trincheira de cobranças e reclamões à falta de investimento no serviço de desfile. E, como funcionárias públicas, recebem um holerite em cheque e vão improvisar papel, tnt, cartolina e tecidos malhados a vapor barato, em insistência de rememorar os velhos e saudosos carnavais.

Das memórias e saudades do samba, dos desfiles da (na) Frei Serafim e dos camarotes “improvisation”, nos muros do Colégio das Irmãs, e as idas e vindas enquanto esperava-se a entrada da próxima escola aos dias de aventura e deslocamento, em noite de desbunde, alegria desenfreada e restos de fantasias, na Marechal Castelo Branco que recebe o público que nunca migra a outros sítios carnavalesco, interior adentro do Piauí.

Das melhores memórias afetivas em carnavais, lembrar da doce menina e velha Nicinha de guerra, em front da passarela do samba e desfiles oficiais da festa de Momo que por aqui passou e que no tempo da areia brilhante e “strasser” e “gliten” fazia poeira na alegria de viver bons carnavais.

“Nicinha (Leonice Ribeiro de Almeida) nasceu em Ipiranga, em 5 de março de um ano qualquer no início da década de 40. Filha de Timóteo Ribeiro de Almeida e de Rosa Maria de Almeida. Com o seu falecimento, em 22 de maio de 1992, em nossa capital, o carnaval de Teresina perdeu um de seus maiores símbolos: Nicinha, a porta-estandarte de todas as escolas, a Rainha de todos os carnavais.

No carnaval de Teresina, 1993, foi lembrada pela Prefeitura Municipal de Teresina, com a denominação Nicinha a Eterna Foliã. Muito católica e extrovertida. Baixinha, míope, encurvada, não dispensava saia rodada, baton escarlate e rouge vermelho. Em qualquer época do ano, estava usando sempre a fantasia que mais gostava, a da eterna Nicinha. Gostava de cantar La Violetera.” (Nicinha Eterna Rainha do Carnaval. Texto recolhido da linha do tempo de Kenarde Kruel Fagundes/acesso 9 de fevereiro de 2015, às 20h)

Oh, abre alas que eu quero passar e não esquecer o memorial da história do carnaval da “Tristeresina” que já foi e não volta +. De Chiquinha, a Gonzaga, parafraseada para aproximar da lembrança dos velhos e sempre carnavais à Nicinha, Bernardo, Lulu, Robinho e tantos outros alegres manifestados da memória social, da cultura intangível tangida às favas do “never more, never more”, para lembrar Dobal, que poeta dos melhores que há, não sei se amante do carnaval, mas sei que bom sujeito sempre foi e como brasileiro que é, gostava de samba.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Geografias Transversais

Teatro de Mindelo
por maneco nascimento

"Todo o artista precisa de espaço, materiais de trabalho e oportunidade para mostrar ao público esse trabalho. Num mundo em que a chamada indústria cultural pretende enformar o trabalhar artístico pelas regras dos mercado e consumismo das maiorias, lutar por um projecto cultural é uma batalha heróica que não pode ser vencida sem parceiros." [Ana Cordeiro, Diretora do CCP Mindelo entre 1987 e 2013 IN Branco, J. (Coordenação), Dez Anos de Teatro. Coleção 'Teatro'. Centro Cultural Português Praia - Mindelo, 2003 IN Palco 50 - Uma viagem pelo historial do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo em 50 peças. Camões - Centro Cultural Português do Mindelo. Coord. João Branco. Mindelo, 2014. 65p. {Catálogo da Exposição Retrospectiva Palco 50}]    

Recebi, em mãos, vindo de Mindelo - Cabo Verde, África Lusófona, um exemplar do livro Palco 50, em que recorta, em histórico literário e icônico, 30 das cinquenta peças que o coordenador da publicação teria que selecionar a constar no livro.

(imagens reproduzidas do livro Palco 50/GTCCPM - Mindelo - Cabo Verde)

"Quando fui confrontado com o número que Diogo Bento me colocou - 'das cinquenta peças, só poderemos colocar metade em destaque, terás que escolher', vi-me confrontado com uma das mais complexas escolhas da minha carreira, até pela importância que se reveste o presente catálogo." (João Branco IN Palco 50 - Uma viagem pelo historial do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo em 50 peças. Camões - Centro Cultural Português do Mindelo. Coord. João Branco. Mindelo, 2014. 65p. {Catálogo da Exposição Retrospectiva Palco 50).

(Idem)

O livro catálogo que reúne um arsenal de resultados que festeja o Grupo de Teatro do Centro Cultural Português de Mindelo - GTCCPM, ao longo de + de 20 anos, e 50 produções teatrais que conspiraram no palco da terra de Mindelo e conquistados de cena dos artistas que laboraram o fazer cultural e dramático daquele sítio e recepcionado por grande público local e alhures.

(Idem)

Feitiço de loas representativo e identitário do teatro de Mindelo muito me envaidece e orgulha ao devorar o histórico daquele Grupo e sua práxis da arte do fingimento. Essas gerações que conquistaram o teatro nas adversidades, mas com criativo poder de romper fronteiras e dizer sim ao teatro, gera orgulho de identidade cultural repercutido.

(Idem)

"Das cinquenta produções do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo teria que optar por dar destaque a vinte e cinco. Consegui, depois de duras negociações, que o número subisse para trinta. Mas ficou-me um amargo na boca. Um amargo do tamanho de vinte produções teatrais. Talvez por isso, para mim, as páginas mais importantes desta obra sejam mesmo as últimas, Todas as Peças e Todos os Nomes, onde num curto espaço e sem restrições se escrevem os nomes de todos quanto participaram, de forma direta, nos processos criativos das cinquenta peças até agora produzidas pela nossa companhia de teatro.(Idem)

(Idem)

Atores e diretores de teatro carregam consigo a dramaticidade que os impulsiona a criar e recriar a cena, a personagem, a marca dramatúrgica diferencial ao teatro, mesmo na releitura do fazer artístico da cena.

(Idem)

O drama, dilema, que João Branco sofreu ao ter uma função salomônica, de optar em número todo significante, é real e humano de contribuir para o justo, nunca em detrimento do histórico e memorial da cena do GTCCPM que pariu teatro e antropofagizou seu público, logo merecedor de destaque, mesmo quando só apareça nas últimas páginas, as + importantes ao selecionador, em que "num curto espaço e sem restrições se escrevem os nomes de todos quanto participaram" e, ninguém saiu ferido de morte, porque drama do teatro para soluções de deus Ex-machine.

(Idem)

O livro catálogo detém uma acuidade estética e plástica de o Teatro de Mindelo devolver ao seu público um material que orgulhe, documente e reserve a memória e história teatral de geografias transversadas na cena crioula.

(Idem)

Desde a coordenação (J. Branco e Diogo Bento),  seleção (J. Branco), curadoria (Diogo Bento), Conceção e Design (koiástúdio www.koiastudio.com), impressão (Orgal Impressores) e edição de Camões - Centro Cultural Português de Mindelo, há um zelo em apresentar algo que vá agradar ao leitor curioso e registre prazer de manuseio do material visível ao invisível repercutido pelo intangível irmantado ao papel.

(Idem)

Palco 50 registra belos flagrantes fotográficos dos espetáculos apresentados a Livro Catálogo e decifra porque devorador da recepção, através de iconografias de representação do teatro em seus vieses de dramas experimentados.

As verdades da cena convencedora e as mentiras do fingimento persuasivo, em repaginação linguística e expressão local e adaptações do texto, da obra e das construções dramatúrgicas e das personagens que enfileiraram + de vinte anos de trabalhos, em 30 peças recortadas, das cinquenta constantes a registro de memória e história.

(capa de Palco 50/Mindelo - Cabo Verde)

"(...) Numa terra onde todas as iniciativas ligadas à cultura se têm mostrado de existência efémera ou então de actividades em tudo sazonais, é consolador ver um grupo sempre de juventude renovada crescendo em qualidade, rigor e perícia, usando com sabedoria esse viveiro de arte cénica que é o Mindelo." (Germano Almeida, Escritor IN Branco, J. (Coordenação), Dez Anos de Teatro. Coleção 'Teatro'. Centro Cultural Português Praia - Mindelo, 2003 IN Palco 50 - Uma viagem pelo historial do Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo em 50 peças. Camões - Centro Cultural Português do Mindelo. Coord. João Branco. Mindelo, 2014. 65p. {Catálogo da Exposição Retrospectiva Palco 50)

Da verdade cénica que o GTCCPM tem exportado a outros sítios, tive o privilégio de ver representado no país, Brasil, em Teresina, Piauí, durante edições do Festival de Teatro Lusófono, criado e coordenado pelo Grupo Harém de Teatro, ótimas manifestações de fé no trabalho e ciência nos resultados experimentados ao palco.

"Mulheres na Lajinha", com adaptação da obra de Germano Almeida a  O mar de Lajinha, com Encenação, Direção artística e Cenografia de João Branco; "No Inferno", de Arménio Vieira, com Adaptação, Encenação, Direção artística e Cenografia de João Branco; "Os Amantes", adaptação da peça Quartet, de Heiner Muller, Encenação, Direção artística e Espaço Cénico de João Branco e "Teorema do Silêncio", de Caplan Neves, com Encenação, Direção artística e Cenografia de João Branco.

Sempre uma surpresa cénica e um fervor dramático dos atores e atrizes em cena. Curtem sua cena e devolvem ao público ação e reação crioula, lusófona, portuguesa e africana a atomização teatral presente na linguística geral do universo conspirado na cultura do palco. Nada detém a arte e os amadores da dramaturgia presente e Mindelo está muito presente, no teatro que por aqui representou nas incursões da cena lusófona de palcos piauienses, brasis e lusófonos.

Palco 50 que envolve a arte e o ofício de atores, diretores, adaptadores de textos, cenógrafos, iluminadores, contrarregras, cenógrafos, produtores, maquiadores, camareiros, a + "de duas centenas de nomes. É um sem fim de gente talentosa, uns mais conhecidos e consagrados, outros menos,  de praticamente todas as áreas artísticas: arte cénica, artes plásticas, música, fotografia, audiovisual, poesia, dança (...) a este fantástico grupo de teatro e ao Centro Cultural Português da cidade do Mindelo, eles são de certa forma devedores, por ter sido este um terreno fértil onde foram desafiados enquanto artistas e por onde entraram através de largos portões para as entranhas do fantástico mundo do teatro." ("Cinquenta". João Branco em apresentação de Palco 50, pag. 8)

Fichas técnicas, cenas flagradas pelas lentes de profissionais da fotografia, resenhas dos espetáculos, comentários de intelectuais, críticos, autores e dramaturgos envolvidos, ou não, no teatro do Mindelo e um passeio pela dramaturgia universal e local representativas do fazer teatral do GTCCPM.

O olhar estético particular a dramaturgos como Camus, Gide,Wilde, António Aurélio Gonçalves, Victor Hugo, Lorca (A Casa de Nha Bernarda, Bodas de Sangue), Shakespeare (Romeu e Julieta, A Tempestade, Rei Lear, numa trilogia mindelana, Romeu e Julieta, Nhô Rei Ja Ba Kabesa, Tempêstad, respectivamente) Francisco Cruz, Alfonso Castelao, Germano Almeida (Os Dois Irmãos, Agravos de um Artista, Mulheres na Lajinha) Teatro Meridional, Molière (Médico à Força, Escola de Mulheres).

E + exercício do exercício a Beckett, Mário Lúcio Sousa, Tchekov, peça Mrozec e crônicas de Eugénio Tavares, Ariano Suassuna, Raul Brandão, Apocalipse Nau de Rui Zink, Menotti del Pichia, Arménio Vieira, Heiner Muller, José Sanchis Sinistierra, Caplan Neves, Rui Zink, José Mena Abrantes, Abraão Vicente e Ivan Cabral, todas as falas sociais de autores dramaturgos,  ampliadas nas falas dramáticas de actores e directores da cena (re)visitada.

Palco 50
registra a cena mindelense em teatro nunca desprezável. Há força, energia insuspeita e coragem de insistir na arte do palco. Está no lucro e gera um Livro Catálogo que orgulha aos colegas de cena nas d+ lusofonias espalhadas mundo afora. Feliz em ter tido às mãos esse registro consignado ao tempo, memória e história do teatro de Mindelo.

E quanto ao Grupo de Teatro do Centro Cultural Português do Mindelo, quem melhor o decifra e nos devora é mesmo João Branco, português, nascido em Paris e radicado na cidade de Mindelo por conta de ser e não ser, mas na questão sempre premente do teatro em suas formas e expressões conspiradas ao universo de Baco.

"O Grupo mudou os paradigmas do Teatro Cabo-Verdiano. A qualidade plástica das encenações. A ousadia experimental das montagens, a diversidade dramatúrgica na escolha das peças e a promoção do Teatro Cabo-Verdiano além fronteiras são apenas alguns dos aspectos que saliento. O GTCCPM conquistou um público novo e exigente para o Teatro Cabo-Verdiano e contribui para o aparecimento de novas Companhias." (João Branco, Diretor artístico do GTCCPM/assunto da contracapa do Palco 50)

O sentimento de J. Branco, assomado a Abraão Vicente, Diogo Bento, demais profissionais técnicos e toda a classe artística, envolvida em bem representar o teatro da cidade de Mindelo, repercute muito bem o que escolheram, estes, praticar e o fazem com muita dignidade no escolho do prazer, do labor e da expressão linguística expandida a sítios lusófonos et al.

Mindelo tem dito a que veio, nessas + de duas décadas de - em cena, ação! "O teatro, é preciso dizê-lo, tem que ser visto para que dele se possa falar. A sua natureza presencial e tridimensional a isso obriga. Tudo o resto são marcas que podem valer muito e trazer-nos no futuro preciosas pistas para quando o presente se transformar num passado longínquo. É o que este pequeno livro pretende: deixar uma marca, uma impressão digital de cinquenta linhas."(Cinquenta". João Branco em apresentação de Palco 50, pag. 8)

Que fique registrado, o Teatro do GTCCPM se garante. É recomendável, a menores e maiores curiosos em leitura e teatro, manter contato com Palco 50. Vale o custo e o conteúdo ali impresso e expresso. Macktub!

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Hoje é dia D


***João Vasconcelos. Hoje se comemora...
por maneco nascimento

O Título de Cidadania Teresinense que recebe.

O homem, o artista, o empreendedor da arte e cultura e da culinária de preservação e sobrevivência diária. É assim que se observa o operário de Espaços culturais e Bares temáticos que marcaram presença no centro de Teresina, nos muito mais de 20 e poucos anos de serviços prestados ao fazer artístico e cultural comprometido com agregação e interação de linguagens.

Nem profecia, nem profeta. Profissão de fé ao fazer cultural da cidade que não tem mais fim. João Batista Vasconcelos. João, das heranças lusitanas que povoaram o continente achado e, colonizado, à marca brasis. Batista, das reminiscências histórico religiosas da Europa católica e cristã, absorvidas na fé instalada. Vasconcelos, que sobrenomeia os variados de identidade civil, representativos dos troncos familiares da construção social brasileira.

É esse João, seu João, como é chamado pelas novas gerações de artistas, que orbitam em torno de iniciativas culturais lançadas por ele, que pesa o nome do ator e produtor cultural, o agregador de fazedores artísticos, que hoje recebe o Título de Cidadão de Teresina.

(o casal cultura 21: Lourdes e João Vasconcelos/imagem face J. Vasconcelos)

Natural de Beneditinos, João Vasconcelos, começou a sinalizar à arte, já nos tempos de escola, em sua terra natal. Nos eventos escolares passou a fundamentar a perspectiva que acabou desempenhando em Teresina, quando veio completar estudos do ensino médio. A ideia de fazer teatro sempre o perseguiu e, na capital, procurou interagir com artistas de teatro e fez as primeiras incursões em oficinas de iniciação teatral.

Foi no Núcleo da Oficina de Teatro do Theatro 4 de Setembro, que funcionava nas dependências da Casa de espetáculos, que Vasconcelos encontrou ecos de iniciação na profissão de ator, com a facilitação de Lorena Campelo. Lorena revela que João Vasconcelos, assim como Antoniel Ribeiro e Cláudia Amorim começaram com ela. No Theatro 4 de Setembro havia duas oficinas, uma ministrada por ela e outra por Arimatan Martins. Esta última foi útero à Oficina Permanente de Teatro “Procópio Ferreira”.
 
(Lorena Campelo, Cláudia Amorim e, João Vasconcelos no início de tudo/imagem face J. Vasconcelos)

Também conta Lorena que, ao final da oficina que ministrou, foram absorvidos João, Antoniel e Claudinha para a montagem de “Pluft, o Fantasminha”, de Maria Clara Machado. Desde então, Vasconcelos ingressou de vez na profissão de ator, no Grupo Raizes de Teatro. Na Cia., criada por Aci Campelo, Lorena Campelo, Lili Martins, entre outros, Vasconcelos ainda participou das montagens de “Clube do Pipi” e uma nova leitura para “Arribação”, textos de Aci Campelo e direção de Lorena.

Mas foi a partir do ingresso no Grupo Harém de Teatro que João Vasconcelos sedimentou, de vez, a profissão de atuar, contrarregrar, reforçar as produções executivas que realizava ao teatro, dança, shows musicais e também dirigir espetáculos e shows.

Simultaneamente, o artista trabalhou no comércio, fez produção de eventos a casas noturnas da cidade e cumpriu definitivamente a sina, que carregava consigo, de ser artista da cena cultural da cidade. No ramo de comida, desenvolveu, ao longo de boa parte da vida, o negócio de restaurante e trouxe um diferencial, todas as suas empresas de restaurante também desenvolvem ações artísticas culturais.

Entre seus empreendimentos de equipamentos de cultura e culinária direcionados à manutenção do corpo, bem alimentado, e nutrição do espírito que também urge comida, já que “a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”, como bem apregoa os Titãs, seus negócios sempre primaram pela sobrevivência diária de artistas, comerciários e clientela contumaz que o segue, aonde quer que vá, ou plante uma laboratório de reunião e práxis cultural e alimentar.

Café das 6; Em Cena; Bar Elis Regina; Bar do João, Lanchonete Cultural do ADH e Lanchonete do Palácio da Música, entre outros projetos, sempre trouxeram a marca e espaço para as manifestações artísticas, também. Servia refeições e montava um palco para os artistas da cidade aparecerem.

O Bar Elis Regina, por exemplo, criou corredor cultural na David Caldas, funcionando no quintal da Associação Brasileira de Escritores no Piauí – ABE. Ali, quase um Beco das Garrafas foi revisitado. Shows musicais, concursos de teatro, poesia, artes visuais e dança, espetáculos de teatro, cinema, lançamento de livros, entrega de prêmios culturais. Foi o buchicho daquele bom momento do centro da cidade.

Ali também João criou os projetos Elis Vive, em homenagem à data de desaparecimento de Elis Regina, em discurso de que a estrela da cantora nunca apagasse. Mais de dezoito edições do Projeto que reúne grandes cantoras locais, em revisita do repertório da maior cantora do Brasil.

O Bar Elis Regina era frequentado por todas as gerações, tribos, intelectuais, jornalistas, escritores e visitantes, quando hospedados em Teresina. João Vasconcelos confessa que o diretor de teatro e fotógrafo, José da Providência, era frequentador assíduo do local. Nas quartas feiras havia um projeto para shows musicais, Quartas MPB, e reunia muita gente.

Segundo João, o Providência dizia, brincando, “eu vou acabar com esse projeto” e Vasconcelos justifica a brincadeira, atribuindo aproximação com a criação do Projeto Boca da Noite, no Espaço Cultural “Osório Jr.”, dedicado à música local, também nas quartas feiras. "Antes, no centro da cidade, não havia qualquer iniciativa que reunisse espaço para o artista local da música", lembra Vasconcelos.

O Boca da Noite foi implantado, com a restauração do 4 de Setembro e criação do Complexo Cultural Clube dos Diários/Theatro 4 de Setembro e as Quartas MPB, do Elis Regina, se preservaram, enquanto o Bar funcionou. Com o Boca da Noite, rememora Vasconcelos, "o público do projeto oficial acabava migrando ao Elis Regina, já que os shows do Osório Jr. encerravam mais cedo e, no Bar Elis Regina, tudo começava só depois das nove da noite. Um projeto acabou sendo parceiro do outro", aponta o artista. 

Nas segundas feira, do Elis Regina, o tema era teatro e dança, patrocinadas por pequenos empresários de Teresina e o artista ficava em temporada nas quatro segundas do mês. Também fez escola e muita gente boa passou pelo palco do espaço.

Entre outras marcas que ganharam vida longa às ideias originais de Vasconcelos, estão os projetos Mulheres Plurais, shows com as divas da canção de Teresina; Noite dos Desafinados, em que artistas e amantes de Elis Regina podem desafinar e festejar o repertório da cantora; Mostra Cultura The, que reúne todas as linguagens artísticas em quinze dias de música, dança, teatro, artistas plásticas (cartum, exposições pictóricas), cinema, lançamento de livro, poesia, um caldeirão aquecido pela cultura local de todas as estéticas interagidas.

Nos últimos três anos esteve como concessionário do Bar do Clube dos Diários e fez espécie de ocupação do espaço. Criou para as terças feira, o Projeto Eu, Você e o Teatro da Minha Vida, às manifestações das cênicas. Durante a ausência do Boca da Noite, que não funcionou em 2014, João Vasconcelos empreendeu o Quanto Vale o Show?. Bandas se apresentavam no “Osório Jr.”, e rodavam o chapéu. Ocupavam o espaço das quartas feira e mantinham o hábito do público do Boca da Noite, mas com a contribuição facultativa, no chapéu.

O Prêmio Cobra do Ano, uma divertida brincadeira que reúne artistas eleitores e eleitos, também marcou presença. Às sextas feira, o Reggae na Boca atraiu o público ao centro da cidade, no início do fim de semana, e manteve o Bar do Clube dos Diários com programação cultural a todos os gostos.

O agitador cultural também foi produtor de shows em Casas noturnas da zona leste e dirigiu alguns artistas da música. Banda Brigithe Bardot, Vanda Queiroz, Cláudia Simone, Bebel Martins, Wil Silva, Fátima Castelo Branco, Gislene Danielle passaram pelo tino artístico de Vasconcelos.

Realizou o espetáculo Ela. Roteirizou, criou e dirigiu a dramaturgia de cena que homenageava a mulher, desde a pré-história (Luzia) à contemporaneidade (as vítimas de 8 de março em Nova Iorque, a queima dos sutiãs, Elis Regina, Genú Moraes), em espetáculo de dança teatro.

Também produziu o Projeto Roda de Poesia e Tambores, de Élio Ferreira e, no Teatro Estação/Nos Trilhos do Teatro, desenvolveu o Vitrine e Calçada da Fama, em que realizava shows e performances na calçada da estação ferroviária, às margens da avenida Miguel Rosa.

Parceiro em produções executivas do Sesc Regional Piauí contribuiu na execução do Sesc Piauí de Dança e Festival SESC de Teatro Infantil Pipoca com Guaraná e continua atuando, dirigindo, cozinhando uma boa mão de vaca, porque precisa pagar as contas e sobreviver, em paralelo, ao fazer cultural e sempre maquinando novos projetos a serem implementados na cidade.

Foi Presidente do Grupo Harém de Teatro, sendo muito querido pela companhia de teatro. Para Francisco Pellé, o colega de teatro é indispensável à cidade. Está sempre movimentando a cultura local. Agregador com trânsito livre em todas as linguagens artísticas locais. Pronto, a qualquer momento, em parcerizar uma nova ação cultural, João Vasconcelos representa um orgulho.

 (os atores e colegas de cena Francisco Pellé e João Vasconcelos/imagem face J.Vasconcelos)

Sinto muito orgulho de João Vasconcelos ser componente do Grupo Harém de Teatro. É o nosso atual presidente do Grupo e pessoa indispensável às nossas relações de trabalho, porque reúne, agrega, integra, interage o fazer cultural, é criativo e criador e agita a cena cultural local”, diz Pellé.


BOX

Hoje, 05 de dezembro de 2016, Ele, João Vasconcelos, 51 anos de vida bem dedicados aos próprios sonhos e empreendimentos, recebe o Título de Cidadania Teresinense, concedido pela Câmara Municipal de Teresina, por iniciativa do vereador Tiago Vasconcelos. 

A Solenidade de entrega do Título de Cidadão de Teresina acontece às 19 horas, no Theatro 4 de Setembro. E, em seguida, será apresentado o espetáculo musical  #Fama#emtemporeal#, com direção geral de João Vasconcelos e Direção de Cena de Adriano Abreu.

E faz a festa e ajuntará amigos, colegas de profissão, escritores, bailarinos, músicos, artistas visuais, jornalistas com quem manteve ótimas relações de parceria, na divulgação de ações culturais, e os familiares orgulhosos da escolha e trabalho que desenvolve, como ator e produtor cultural, há mais de 30 anos.
 
 (álbum de família: João, Lourdes, Karine e Priscila/imagem face J. Vasconcelos)

Confraterniza com os amigos de relações construídas ao longo de trinta anos e que estão entre as referências de quem responde pelo fazer artístico cultural da cidade e do estado. 

Fará deste encontro a melhor oportunidade de congraçar com quem ocupa tempo e comprometimento com a construção sócio cultural e artística de Teresina. E a festa vai bombar muito, garante, porque uma realização da João Vasconcelos Produções que vingam e Trama Produções.]

***texto, de maneco nascimento (Manoel Da Cruz Do Nascimento Da Cruz Nascimento), originalmente publicado em 07 de fevereiro de 2015, quando do aniversário de 50 anos de Vasconcelos.
Hoje, 05 de dezembro, está atualizado ao contexto de hoje, Dia em que receberá o Título de Cidadania Teresinense.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Deixa o povo entrar

ou tranca a porta de vez
por maneco nascimento

No último dia 30 de janeiro, com temporada estendida aos dias 31 e 1 de fevereiro, estreou a tão festejada A República dos Desvalidos que, noutras montagens, assinava como Itararé, a República dos Desvalidos.

O espetáculo, com visão dramatúrgica de cena, implementado por Arimatan Martins, abriu campos de estreia no Theatro 4 de Setembro, a partir das 20 horas, para público entre curiosidade e ansioso por ver as novidades que viriam, nessa nova direção, assomadas às anteriores, de 1986 e 2006.


A República dos Desvalidos, com produção executiva e coordenação geral de Zé Afonso de Araújo Lima, cumpriu o rito de passagem a + um dado na história e memória do Grupo de Teatro Pesquisa - Grutepe.

Com apoio financeiro aportado, por intermédio do Sistema Estadual de Incentivo à Cultura - Siec e renúncia fiscal do governo do estado a empresas parceiras de projetos artísticos culturais, o espetáculo disse, + uma vez, a que veio e a quem serve, ao teatro amador do Piauí.

A peça mantém a mesma força de sempre, com o teatro popular, histriônico de apelo ao riso e endosso do gargarejo e detém tema sobre cotidianos simples, instalados em casinhas sorteadas pelo Sistema Habitacional de moradias populares.

A vida dos novos moradores é exposta e , na radiografia, as intrigas, futricas, maledicências, amizade vizinha, beataria e fé sincrética se afunilam nas periferias sociais, instaladas à reflexão no texto de Zé Afonso Lima.

A cenografia se fecha numa semi lua, às vezes de empanada de circo, com cortinas em cores sóbrias de dupla tessitura que, a certa altura da narrativa, uma peça de tecido é valorizada ao que a outra é franzida e amarrada, nas vezes de descanso de um matiz. E, ao céu do picadeiro, um móbile ilustra casinhas presas, suspensas por fio, a um guarda chuva, como dialética do "inalcansável" sonho da casa própria.

De Emanuel de Andrade, a cenografia se complementa com o carrinho de mão, adereçado por Wilson Costa, composto por casinhas coloridas à representação de miniatura do conjunto habitacional que, feito brinquedo alegre, é movido a reboque das emoções e marcas dramáticas que a encenação sugira.

A música, ao vivo, com Aurélio Melo (diretor musical), Paulo Aquino, Gustavo Baião, Wilker Marques e Gilson Fernandes, também compõe à área cenográfica de mapeamento a efeito dramatúrgico. A propósito, a direção musical, arranjos e performance dos músicos trazem equilíbrio ao espetáculo, do começo ao fim da história narrada.

Suavidade, tranquilidade sonora e impulsos cardiodramáticos, quando a energia na energia da cena suscita, preenchem de feliz musicalidade os tempos, de partitura, aliados ao maior ou menor desempenho dos atores e atrizes, enquanto cantam.

A luz de A República dos Desvalidos, construída por Assaí Campelo e Pablo Erickson, está presente e cria variações ao calor das emoções e sentimentos vorticizados por intérpretes, texto e direção e dinamizam a simplicidade cenográfica apresentada como propósito, crê-se, a + valia das personagens.

Os figurinos (Bid Lima) diversificam-se ao olhar da plateia e vão se formalizando às trocas de peles das personagens. Têm pesquisa que dramatizam ora, relaxam outras e caleidoscopam as nuances lúdicas das periferias bem vestidas, ao efeito, que teatral, e possam repercutir a diversidade das gentes simples, com suas cores expansivas, maneirismos de composições, modas e modos particulares de vestir-se.

Mas são requintados, a olhos reais, à carnavalização, desfile de luxo e riqueza, com detalhes que, nas variações e trocas de vestimentas, as personagens estão sempre a preencher a vida de coloridos e práticos acessórios.

O ilustrativo ostentador para ganhar a atenção da plateia. Não desmerece o discurso dos estreantes moradores, em suas novas aquisições de moradias, contidas nas franjas sociais acaloradas no conjunto habitacional. Cria um paralelo entre o viver comezinho dramatúrgico e o vestir requintado a bem definir a plástica e estética da segunda pele das personagens.

A sonoplastia e operação de som direto, Zé Dantas, alia-se à direção musical de Aurélio M. e desliza silenciosa e econômica nas vagas dramáticas. A direção de ator e cena, de Arimatan Martins, está na boa média de seu olhar dramatúrgico. Ainda há, preservadas, - e isto está no discurso da memória e história de montagens anteriores que beneficia José da Providência e Zé Afonso, o primeiro como o grande merecedor de destaque nesta versão de 2014, - reminiscências de demarcações cênicas anteriores.

Às novidades de Ari vêm com a delicada, farsesco histriônica, ação da lenda do Cabeça-de-Cuia em transversal com a agonia e morte do Cisne Negro. A concentrada acuidade premeditada do diretor à interpretação da atriz Vera Leite, com preparação de corpo facilitado por Fernando Freitas, verifica um diferencial ao todo da narrativa dramática proposta.

Seu contraponto, Fábio Costa, se não correspondeu ao esforço limpo e detalhado no dialogismo agonizante do Cisne, também não comprometeu a cena. Sem sair de sua zona de conforto e nem dispensar melhor inflexão à contracena da mãe em prenúncio da própria morte, ficou no lugar comum, mas meio distante das aceleradas falas de outras momentos do espetáculo.

A direção, na abertura da narrativa, interpõe a alegria do circo através do mestre de cerimônias, Marcel Julian, que, mote de picadeiro, marca o carrinho de mão, recheado de casinhas coloridas, como stábile intervencionado à cena.

A partir deste (des)ato, A República de Itararés vai apresentando as personagens do circo dos Desvalidos e (des)construindo propostas e reiterando à velha fórmula do sucesso de Itararé. A República dos Desvalidos continua.

A facilitação da cena aos atores e atrizes fica na zona da natural aptidão de cada um, para repetir a lição de cor e, por vezes, trazer pequena distância dos componentes já úteis nas versões anteriores. Talvez, o afobado da estreia não tenha dado vazão à estreita práxis arimataniana de dissecar os textos à compreensão das falas e discursos, de propósitos, e dourar melhor a pílula na apreensão do efeito placebo que curasse os velhos hábitos e cacoetes das composições dos intérpretes.

Mas está, o elenco, em franca capacidade de tornar o sucesso em sucesso às novas gerações, que ainda não tiveram a oportuna chance de ver os tipos, criados na carpintaria zeafonsiana e expiados pelo público na montagem dirigida por Arimantan Martins. Tira riso, quer abrir fronteiras refletoras dos Itararés do Brasil e define-se como + um espetáculo ao repertório das montagens locais que deve ganhar o mundo.

Sobre a atuação do elenco, que atomiza o espetáculo, cada um reflexiona um particular eixo paradigmático aos sintagmas expressos à linguística dramática construída às falas individuais em interação às sociais volatizadas.

Lari Sales, como um furacão, afoba-se a sua própria sorte de atriz forte que é. Desenvolta nas variações de cena, por vezes, sugere + apelo ao riso e desloca a essência do humor, já contido no textual, que talvez ficasse + risível na economia e dosagem dos is com pingos nuançados ao riso, entretenimento, apelo e dramático explorados em equilíbrio (in)constante.

O solilóquio, em que desfia memórias da vida amorosa, feito ao proscênio, em aproximação do público e integração de identidade, dá-lhe uma calmaria na ebulição que carrega em todo o restante do melodrama. O ponto de passe, em que sincretiza a fé popular afrodescendente, também reverbera outro momento legal.

No + o corpo e as falas parecem aprisionar-se na fórmula de só provocar riso em detrimento do "real" drama discutido. Atriz tarimbada, mantém-se, ainda assim, energética e elétrica com Creta e outras aldeias do drama primordial.

Vera Leite, a já azeitada mãe do drama, está sempre muito à vontade. Inflexões, articulações e atonações dramáticas se aliam à tônica da personagem que se faz uterina verbal em maturidade compensada pela técnica de atuar. Quando canta, destaca zelo ao ouvido do público e amplia a drama a voz musical. Canta porque o instante do canto existe e revela o dramático porque se permite e o texto corrobora a esse fim. É garantia de + acerto.

Bid Lima, depois de longa temporada fora dos palcos, faz um retorno não comprometedor. Advinda da montagem de 2006, a atriz reintegra seu jeito particular de articular falas e histrionizar vozes sociais, com certo cuidado de dizer o texto e valorizar o riso que possa ser consentido ao melodramático. Sua entrada, interativada ao público, viaja pelo corte da quarta parede, viés diretor, e deixa a plateia + dentro da intimidade dos Desvalidos.

Como está para atuar e não para opera soap, embora envolvida em Comédia Musical, faz-se obra quando interpreta e canta quando solicitada. As orientações vocais, de preparação de voz, por Gislene Danielle, aparecem sem destoar do farol da direção musical. Garante seu tempo de atriz ao drama e à comédia.

Edithe Rosa, a grande expectativa a essa nova montagem, não esteve em seu melhor dia. Talvez, intimidada pela responsabilidade histórica que a Beata Marta Carvalho representou no passado, esteve Edithe muito aquém da atriz que já conquistou na cidade.

Não desviou-se da dramaturgia proposta, nem traiu a própria história, só não curtiu toda a vívida tensão que Marta Carvalho impõe à cena. Quando conseguir estreitar a relação intrínseca atriz/personagem e conluir, na recepção integral, com os colegas  de cena, não terá pra quem quer. Sabe da capacidade que tem, falta atomizar a construção da personagem.

Eliomar Vaz Filho fica no marcado tempo de amadurecer com a personagem que sempre desempenhou. Quase datada, a personagem do pai da família, que desembolsa, não salta da comodidade, trunca performance bonachona e compõe um bêbado que inspira novidade a quem vê a peça pela primeira vez.

Fábio Costa, também intérprete da mesma entonação, quase às vezes de personagem fixa da comèdie del'arte, dilata as falas e, por vezes, em acelerado ritmo que pueriliza o discurso. Os cacoetes contumazes estão por todo o tempo de encenar de sua (des)construção da personagem. Sua presença de palco, para dramaturgia que supervalorizaria o circo, se repete a gagues de corpo falante, disfarçadas de novidade,  e texto de quase pregoeiro eletrônico, não conseguem efetuar atração ao riso.

Marcel Julian parece ser atraído pelo roldão premeditado no drama. Com características de composição distanciada, varia bem sobre o mesmo tema e posiciona-se como o bom partner à narrativa que propicia + desvelo dramatúrgico as personagens femininas. Com presença e carisma natural, soma no conjunto da encenação.

Comédia Musical, A República dos Desvalidos consegue belos momentos de passagem das falas às músicas que reforçam o enredo. O Coro, das canções, ao melodrama alça a peça a boa audição musical, mesmo com dificuldades que possam apresentar alguns intérpretes, enquanto cantem. Grosso modo, é bom de ouvir a encenação musicada que partitura o drama.

O espetáculo vai ganhando um crescente para culminar com a música que fecha a dramaturgia e reúne alguns estilos musicais, em "pou pourri" quente. Para a estreia do último dia 30 de janeiro, um representante da plateia subiu à cena em momento que deveria ser o "ápice" do elenco. O homem meteu-se na cena, talvez estimulado pelas invisíveis vestais baquianas do teatro popular primordial. Não foi muito bem aceito na cena, pareceu desestabilizar o elenco.

E o que poderia ser festejo, virou constrangimento. A um tempo, um ator deu, propositadamente, um trombão no homem, quase a deslocá-lo para fora do palco. Mas Baco, anarquista, estava com o povo que permaneceu em cena até o fim do musical, mesmo  com a irritabilidade indisfarçável de uma atriz e a tentativa, muito educada, de outra em conduzi-lo à plateia.

Um espetáculo "alienígena" no espetáculo. Com o discurso de valorização do popular, parte do elenco não aceitou muito bem o popular intrusivo na grande cena aberta de final da peça. Pareceu atrapalhar o brilho da última tacada.

O que poderia ser a antropofagia vital, tão apregoada pela metodologia renovadora zecelsomartiniana, foi desprezada e o povo foi forçosamente vomitado, sem ter passado pela barriga do bicho devorador das personagens insurgidas do meio da ágora. Agora, se a proposta de A República dos Desvalidos discute o povo e o vomita sem o devorar, nada decifra e talvez andeje na contramão do discurso.

A carnavalização é inclusiva, antropofágica, para beijoqueiros e outros "doidos" e "loucos" identitários da polis. E, Gentileza gera gentileza. E teatro é de participação proativa e integradora. A cena do ator, maledicente em mente, que tromba com o povo, reinstalou a quarta parede e desdisse que "Itararé, quero te amar..."

O espetáculo empolgante e efusivo pode estimular novas participações identitárias do povo da plateia. O elenco, talvez, precise estar preparado a novas estratégias de sobrevivência e solidariedade cênica, até para deixar o povo entrar e desviar-se, não do povo, sim do ator envaidecido pela grande cena de brilho particular.

Despejar o povo seria convergir a teatro morto.