quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Boca dá Blues


Boca dá Blues
por maneco nascimento

Nem tudo ao rock, nem tanto ao pop, nem + nem menos à MPB. Toda forma de música vale a pena. Também ao blues, que povoou a noite do dia 17 de outubro de 2012, a partir das 19 horas, no palco do Espaço Cultural "Osório Júnior", com performance refinada ao toque de instrumentos e voz vindos da Banda BR 316.

(componentes da BR 316/foto: divulgação)

Público seleto, música agradável, só esteve até o fim do ótimo show quem fugiu da novidade, ou queria mesmo ouvir uma boa e sincopada batida do blues de escala universal. Na Baía dos porcos, Miami, ou no “Osório Jr.” quando o tempo é do blues, a música é mesmo azul como a Terra vista do espaço sideral.  O Complexo Cultural Clube dos Diários/Theatro 4 de Setembro, se inflama quando o assunto é o Projeto  Boca da Noite. A diversidade se estabelece e a música acerca fronteiras. Dia 17 de outubro foi a vez do blues da BR 316 mostrar a que veio.

Numa alquimia do blues e rock a BR 316, formada em 2009, se ins(pira) no + diverso das gerações e aproxima influências musicais com gente bamba. Jimi Hendrix, Steve Ray Vaughan, B.B. King, Eric Clapton estão entre os medalhões do lado de lá do oceano. E, por aqui, no mercado nacional a Banda mantém atração fatal, às notas distendidas, com Nuno Mindelis, Fernando Noronha, Celso Blues Boy e uma infindável linha indivisível do blues encorpado.

Formada por Vitor, nos vocais e guitarra; Antão, no baixo; Little Mário, na gai(a)ta e Ítalo, na bateria, a BR 316 é show. Desde 2009, quando começou a demonstrar sua iniciativa diferenciada, percebeu-se que esses garotos sabiam bem por onde expandir seus instrumentos. Havia um quê de excelência musical se desenhando. Não deu outra, BR 316 garimpa maturidade na tenra idade. Faz bem, compõe boa música exercitada.
(Banda BR 316 dá show/foto: divulgação)

Da natureza, tudo se transforma, já dizia Lavoisier. Esses quatro meninos mantendo sua contribuição à cultura musical, para palcos locais, revivem clássicos do estilo e sinalizam com exercícios composicionais na busca do novo. “Engrupindo” corações amantes do blues e rock, na influência regurgitada, despejam energia musical deleitável. Bons ouvintes sabem do blues que esses garotos releem.

O Boca da Noite, do dia 17 de outubro, foi Boca de Blues e Rock. Um bluesrockão pesado e bonito de ver, porque os ouvidos ficaram paridos pela boa música nascida da juventude que essa banda canta em toque in blues.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Poética sensual

Poética sensual
por maneco nascimento

Rodrigo M Leite já deu prova de que é um bom poeta. Suas construções poemáticas - ao cotidiano da cidade quente - em seus verdes dias de contemporaneidade sobrevivente, nos aponta sinais dos tempos, de sua hora e nos dá mostra de bom observador da cidade que não tem + fim. Pelo menos não teve às 16 horas do dia 12 de dezembro de 2012. Passou incólume ao dia de profecia apocalíptica.

Em “
a cidade frita e outros poemas”, detém o poeta identidade criativa, da cidade e seu essencial urbano, o sensual de memória da pele e do desejo guardado para rupturas e interditos. “a cidade frita entre rios/asfalto brita calafrios/a idade grita entre pernas/sal limão sangue de menstruação

E
 enquanto forja a crônica da cidade “perdida”, também contém olhar de razão e sensibilidade apurada. 

É muito assim em [a noite prematura] para sensações e ardores subliminares, “ainda dentro da tarde/(quase) todos os lugares/ são assaltados por personagens noturnos//algumas outras coisas estão quietas/esperam um desejo um aceno/ um significado qualquer que pernoite sobre elas/a noite adensa provocações e convites:/quartos escuros corpos em silêncio xícaras vazias” (a noite prematura)

Os humores sensuais parecem estar por toda a parte a cidade grita entre pernas
assalto excita lanternas
” (a cidade grita entre pernas) e se confronta com “largue o [televisor]/o [monitor] deste !computador!//o céu pega fogo lá fora no quintal/- não quero queimar/me/sozinho” (-------- come on baby). 

Também enseja mesmo desejo, “(...) dentro de casa a vontade de sexo gravura no corpo/o combustível dispara/pássaro da íntima intentona/insurjo, relincho/não aceito//uma nuvem toma forma de um grande rinoceronte branco!//entre cômodos, assim/nasce um poema” (de como nasce um poema)

Às memórias em noitadas - das viragens noturnas nos bares - da vida desejada (...) noite aflora faunadentro/silêncio no afago de pernas/embaixo das mesas” (Ed. Silvestre Saraiva de Siqueira /Bar Canto Alegre), 

ou em delírio do incontinenti “sex apeal” trans(it)ando desejos, “1 caminho no escuro/todos os caminhos:/procuro//2 escuro por todos os lados/escolho o futuro/me largo//3 desenho teu nome no escuro/no claro te procuro procuro//4 deitado ao teu lado/abro os olhos na escuridão:/não sei se o que vejo/é o pretexto o desejo a vontade/necessidade/vazio: imensidão//5 a palavra LUZ/escrita no papel/no escuro//é ideia seduz/signo que conduz//é ideia seduz signos que conduz” (escrevo no escuro a1 cachorro enlouquecido)

Se o destino do homem está na palma da mão, já dizia a cartomante, então a melhor sorte escolhe por onde caminhar as vontades, os desejos, a sóbria vivência de estar vivo e pulsar calor assaz a frêmitas passagens, em tempo, “o corpo balança/o desejo acompanha/
quando/ te quiser/euéqdecido/sim/ou/não/o desejo na minha mão
” (hesito)

Em êxito provocador, sem hesitar, vive a observação da experiência ao sensual e ao sexo ardente do observado, “música abraços derrotas/homens bebem no centro da cidade!//naquelas mesas do Clube dos Diários/entre/velhos discos novos amores/está o centro daquelas vidas naquele momento//alta noite vai quente/o sexo de todos entre pernas,/também” (Clube do Vinil, 2010) e “(...) ardentíssimos calores, glóbulos/faróis vermelhos/buzinas elétricomamilos/hematomas fissura/carência//caos/caos Morada Nova “(caos Morada Nova domingo, 18h40min)

Das fantasias projetadas, o crime pela metade, “rabisquei teu nome à bic/no guardanapo duma lanchonete vazia//(parti pra casa com o coração nas mãos)/naquela noite/ - apesar dos rios de suor sobre a cama – vc não gemeu nem/um pin/go/& pela manhã/ ainda/sumiu com o resto do chá/que havia entre nós” (rabisquei teu nome à bic no guardanapo duma lanchonete vazia)

E, leminskianamente, ainda está na inteira intenção disposta, “aqui//neste sofá//alguém sentou/olhando o tempo//o tempo/não parou/pra ser olhado//foi ponteiro/pra tudo que é lado” (leminskiana)

Para solidões (in) desejadas também é reflexão na urbe que o poeta pariu, “tudo é desgosto desvio/tristeza arrepio/numa pracinha da desilusão” (tudo é desgosto desvio), ou “(...) andava eu por aí, carregado/da necessária tristeza/ziguezagueando fogo nas calçadas/cidade desmoronando terraços vizinhos (...)” (do dia que nunca vi Cecília)

Memórias do logradouros visitados em pública expiação, “- calçadas desnudas/esquinas insinuantes -/percorro traços saraivanos/descubro andrajos do tempo” (calçadas desnudas) e quando a tarde prometer mentiras, também estará lá o observador, “dois loiros garotos magros bronzeados bicicletas/uma avenida que promete água do mar no fim da ladeira/a areia branca entupindo esgotos/cheiro de sal, miragens ferventes no horizonte amarelo//seguindo reto o destino é o rio/mas este caminho os bronzeados garotos sem camisa/desconhecem” (a tarde promete mentiras)

Como poeta em vida de observação prevê o avenoitecido, “o silêncio repousa sobre objetos adormecidos/não se ouve passos pelo corredor/nem o frêmito de corações feridos//ancorado num canto da casa/um quarteirão de cachaça/aquece o resto de luz que há em meu corpo//tarde, muito tarde/ardo sem alarde” (avenoite ao poeta Luiz Valadares)

Anoitece poema, amanhece poesia em rodrigo m leite. Sua poética sensual guarda segredos de novo poeta, ardente, na urbana terra de seus re (versos).


Brinquedo da sorte

 Brinquedo da sorte
maneco nascimento

quando a sorte
é de brinquedo
brinca, faz bem
à pele
deseje, revele
sério
é de viver
da hora de aproveitar
as falas
as intenções
de sentir presente
prazos de validar.
quando a hora
é da sorte
não dá pra dizer não
se brinca de aproveitar
a melhor atenção
acertar ponteiros
deitar o tempo
que faz raro
evento da atração
de brincar,
+ sorte
beijar teu sul
teu norte
faz bem
detém a morte
de quem mantém
aprendeu o
brinquedo da sorte.


expediente:
(1. poema criado entre as 17h e 17h30/criação enquanto mantinha conversa simultânea, com o compositor T. Bruno, on line. Teresina, 17 de agosto de 2012;
2.
 o músico compositor deve uma música ao poema.)



terça-feira, 16 de outubro de 2012

Sangria na cultura

Sangria na cultura
por maneco nascimento

No último dia 10 de outubro, o
 estadão.com.br trazia matéria sobre crise nas instituições culturais européias e realinhamento financeiro que justificaria arrumar as contas e sobreviver aos dias de união europeia em crise. 

O lide da notícia, construída pelo correspondente Jamil Chade, “Crise leva instituições culturais européias a fazerem cortes e, no sub-lide, “As artes se transformam numa das maiores vítimas da política de austeridade que passou a dominar o continente diante das dívidas colossais” (Chade, Jamil/notícias > cultura/www.estadao.com.br/10 de outubro de 2012, 3h17)

Quem acompanhou o noticiário da quebradeira européia que envolveu países antes jamais pensados como personagens com problemas de dívidas, sabe o significado da sangria que ora será sinal de preservação de outras ações públicas para manter, de pé, o estado da união europeia. 


GENEBRA - Museus com orçamentos cortados, orquestras sendo obrigadas a se fundir, teatros com produções reduzidas, ministérios da Cultura sendo fechados e músicos sendo obrigados a trocar os palcos por turnês em cruzeiros de luxo, só para manter a renda. A crise financeira na Europa jogou o continente em seu pior momento desde a 2.ª Guerra e fez o desemprego atingir recorde desde a criação da zona do euro. Mas enquanto sindicatos tentam manter benefícios sociais e governos tentam encontrar meios para manter indústrias e bancos, as artes se transformam numa das maiores vítimas da política de austeridade que passou a dominar todo o continente diante das dívidas colossais.” (Chade, Jamil/notícias > cultura/www.estadao.com.br/10 de outubro de 2012, 3h17)

No Brasil, sem muita cultura política de investimento efetivo em arte e sem o percentual orçamentário desejável, embora haja algum recurso direcionado a políticas públicas culturais, é também país que quando é necessário o arrocho, o primeiro nome da lista é a cultura. Não é esse país, novo rico, páreo ao velho continente com suas milenares memórias culturais e artísticas. Mas é nessa hora do aperta para manter acesa a chama da sobrevivência que a velha Europa dá sinais, também, de que ninguém é imbatível.

Da Igreja a monarcas, passando por grandes mecenas, a cultura europeia sempre teve um de seus pilares no financiamento massivo por parte de personalidades e instituições que viam nas artes um instrumento para demonstrar sua influência e até poder. Agora chegou o momento de o Estado mandar um recado claro: a Cultura precisa começar a ser autossustentável e não depender de recursos públicos. O problema é que nem todos concordam com essa visão e alertam que a cultura faz parte do sistema de ensino da sociedade europeia e da herança histórica do continente, portanto, não é apenas uma mercadoria.” (Idem)

Numa coisa se deve concordar, mesmo com a nova acepção da cultura dos negócios,
 cultura não pode mesmo ser tratada apenas como uma mercadoria. Os grandes saltos da humanidade também estão interrelacionados com arte e cultura. Dos signos rupestres à virtuose medieva e todo o paradigma herdado à contemporaneidade, a cultura teve papel divisor diferencial nos negócios do estado, da religião, da arte propriamente e no essencial transformador e mola propulsora do espírito criativo das civilidades.

Na paz e na guerra, na crise e na depressão, na ameaça obscurantista ou na vanguarda iluminista, a cultura da arte foi, invariavelmente, válvula de sobrevivência do homem (genérico) e de suas idiossincrasias e olhares para o mundo de convenções, conveniências e negócios de estado e de cultura. E, quando o estado ameaça quebrar, a cultura é a primeira ao sacrifício.

O caso mais drástico é o de Portugal. Para ter acesso a um resgate do FMI e da UE, Lisboa aceitou um rígido programa de redução de custos do Estado. Salários foram encolhidos e mesmo feriados foram suprimidos. Mas, no caso das artes, o corte foi ainda maior. O governo português optou em 2011 por simplesmente acabar com o Ministério da Cultura, pasta agora transformada em apenas em uma secretaria.

Com isso, o governo espera economizar 2,6 bilhões, implementando o plano de reduzir em um terço o número de diretores de departamentos dentro do Estado. A medida teve como consequência a fusão de grupos artísticos e uma verdadeira gritaria, dentro e fora de Portugal, diante da opção de sacrificar a cultura
.” (Idem)

No Piauí, como exemplo + localizado, em que a pasta da cultura de âmbito municipal, ou estadual tem que conviver com orçamentos incertos e alguma perspectiva de recurso sempre sujeito a ser coptado para suprir qualquer outra emergência da pasta do estado, vive-se muito mal obrigado, acerca de políticas de cultura. 

O MINC até que faz sua lição de casa com parceiros e contribuições de estatais, mas recurso mesmo sempre é choramingado para país continental. E educação e cultura, embora estejam juntas em teoria, na práxis a educação nunca está tão bem e a cultura é sempre a última da fila de barganhas orçamentárias.

 No Brasil se é de uma complicação histórica, sem o histórico de velhas culturas fomentadoras da arte. O país está acostumado com o certo “descaso” em que trata a própria cultura, é da veia natural brasis. Mas o mundo europeu sempre foi primeiro mundo.

Em Madri, a situação também é crítica para o setor. Pressionado a rever as contas do Estado e pedir um resgate, o governo espanhol de Mariano Rajoy já anunciou que, para 2013, os museus do Prado, o Rainha Sofía e o Thyssen-Bornemisza sofrerão cortes de orçamentos de mais de 30%. No total, o governo irá reduzir sua ajuda aos museus em 17 milhões. Em comparação com o orçamento de 2010, o museu Rainha Sofía terá 45% a menos de recursos em 2013, e o Teatro Real, 33% a menos (...) o Estado espanhol reduziu seu apoio à cultura em 70% em apenas quatro anos. Para justificar o corte, o ministro da Fazenda, Cristóbal Montoro, reclassificou o setor, designando-o como "área de entretenimento", o que deixou furiosa a classe artística. Esta reagiu acusando-o de não saber diferenciar cultura e passatempo.” (Idem)

Como no Brasil se pratica a cultura da emenda do soneto e, criativos como somos, sobrevivemos bem, não nos parece afetar a cultura em queda livre na Europa empobrecida. O velho mundo com sua cultura de mecenas e investidores contemporâneos fez sua história e agora se vê em situação de cortar a própria carne.

A Grécia, berço mátrio da civilização ocidental, há muito que parece estar de pernas quebradas.
Os cortes também têm afetado a Cultura na Grécia, país que em 2013 terá seu sexto ano consecutivo de contração da economia e hoje sobrevive graças aos recursos do FMI e da UE. Em apenas um ano, o Ministério da Cultura grego viu seu orçamento ser reduzido pela metade (...) Além de afetar dezenas de grupos artísticos, o corte ainda coloca em risco os projetos de manutenção de locais arqueológicos do país, uma verdadeira mina de ouro para atrair o turismo.” (Idem)

Enquanto o Brasil se torna exemplo de país em desenvolvimento com a sola dos pés na porta de entrada do primeiro mundo bem sucedido, convive com uma incerteza estatística sobre os números de pobres e miseráveis nacionais, com índices de analfabetismo que parecem não dar o braço a torcer e com histórico de acesso cultural efetivo ao pequeno burguês. A cultura européia encolhida não nos afeta, nem de fato ou de direito à reclamação.

Nem na Itália, um dos pilares do desenvolvimento cultural do Ocidente, o setor foi poupado. O prestigioso Teatro Scala, em Milão, soma uma dívida de 7 milhões e os cortes já começaram para fazer frente a essa situação (...) No caso da Holanda, país que tem uma das taxas de desemprego mais baixas da Europa, o governo anunciou o corte de US$ 265 milhões no orçamento para a Cultura, uma redução de 25% em 2013 (...) Na Alemanha, a Südwestrundfunk, a tevê e rádio regional de maior prestígio, será obrigada a reduzir seus gastos em 166 milhões. Para tapar o buraco em suas contas, a proposta votada e aprovada pelo conselho da empresa é a de fundir as duas orquestras financiadas pela emissora: a Radio Sinfonieorchester Stuttgart e a Sinfonieorchester, ambas fundadas em 1946.” (Idem)

Nossa cultura é + de sobreviver como puder. Não havendo investimento ou políticas públicas eficientes, dá-se um jeito. Prioridade é sobreviver bem, seja sem investimentos culturais reais e não passar batido em província acostumada aos truques, esperteza política da pecha de Macunaíma. 

A união européia encontrará seu caminho de sobreviver mesmo com políticas públicas de cultura encolhidas. Não se tornou velho mundo à toa.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Omissão do contraditório

Omissão do contraditório
por maneco nascimento

(...) O País merece uma mudança de procedimento. A chefia do Executivo e a composição do Legislativo passam pelo escrutínio do público por meio das eleições, mas sobre os integrantes da cúpula do Judiciário nada se sabe antes de começarem a exercer suas funções. A chance de conhecê-los um pouco é a sabatina no Senado.

E por que isso não acontece? Em parte porque não temos a cultura do questionamento. Vemos o contraditório como falta de educação, a cobrança como afronta, o rigor como provocação e o rapapé como sinal de civilidade (...)
” (Kramer, Dora. Cultura do Rapapé/www.estadao.com.br/27 de setembro de 2012, 3h05)

Pontos levantados pela articulista Dora Kramer ao tratar da sabatina sofrida, no Senado, pelo novo e futuro ministro, indicado ao Supremo Tribunal Federal – STF, Teori Zavascki, dão conta de como se comportam os senadores ao tratarem com alguém que, no futuro, poderia estar julgando causas que envolvam personagens desse colegiado legislativo. Essa última instância da Lei, com todas as prerrogativas constitucionais, poderá ser quem apontará as falhas dos que se julguem deuses. 

(...) A primeira parte da sabatina de Teori Zavascki no Senado foi mais instigante que o que habitualmente se vê nessas ocasiões. Há todo o contexto do julgamento do mensalão, a desconfiança sobre o ‘timing’ da indicação que paira no ar e a expectativa em torno da participação dele. Tudo isso desperta interesse e obriga os senadores a um comportamento diferenciado (...)” (Kramer, Dora. Cultura do Rapapé/www.estadao.com.br/27 de setembro de 2012, 3h05)

A jornalista acha que a inquirição poderia ter extraído + informações de quem passará a integrar um assento no Supremo. Houve, segundo D. Kramer, um caminho de rapapés, menos explícito, que o ocorrido na sabatina de Ellen GracieA elevada a ministra do Supremo foi a primeira mulher indicada à Corte, antes sob domínio de homens

(...) Nada parecido com o vexame de alguns senadores quando da sabatina de Ellen Gracie, que se desmancharam em saudações à beleza da primeira mulher indicada ao Supremo Tribunal Federal, mas ainda inadequadamente reverentes. Mais preocupados em louvar as qualidades do indicado do que em pesquisar o grau de qualificação por meio do questionamento para aceitar ou recusar a indicação (...)” (Idem)

Com relação a T. Zavascki, acredita Kramer que os senadores deveriam ter extraído “(...) o máximo de informações sobre práticas e pensamentos de uma pessoa indicada para fazer parte do colegiado mais poderoso do País (...)” (Idem)

De sorte é que os senadores se encolhem para não morderem a própria língua e os indicados usam o direito de não entrarem em detalhes sobre o que não sejam questionados, ou tenham direito de não responder

(...) No caso da relação dos senadores com indicados para o Supremo - o foro de julgamento de parlamentares - há ainda o temor embutido na reverência. A maioria não quer correr o risco de desagradar a quem amanhã ou depois poderá lhe decidir o destino.
De um lado os parlamentares têm medo de perguntar (...) De outro lado os interrogados se acham no direito de não responder a coisa alguma. Escudados na Lei Orgânica da Magistratura cujo enunciado os impede de se manifestar sobre ‘processos pendentes de julgamento’ (...)
". (Idem)

No momento exemplar em qual o Brasil vê tubarões de praias vermelhas serem condenados no STF, ou que o Ficha Limpa passou a funcionar nessas eleições municipais, há novo sinal na jurisprudência nacional

Quanto ao ato de omissão do contraditório surtir efeito de má educação, a cobrança ser uma afronta, o rigor provocação e o rapapé sinal de civilidade, como nos indica Dora Kramer, algo parece mudar no país, mesmo com a cultura de não questionamento.

As milhares de assinaturas de brasileiros possibilitaram que passasse o Projeto do Ficha Limpa. Ponto ao Brasil rumo a possibilidades de desbancar a política da im(p)unidade parlamentar. E para a ministra do STF e Presidente do TSE, Cármem Lúcia, quem tiver pendências transitando em julgado, mesmo depois do pleito confirmado, caso haja confirmação de atos ilícitos, não será diplomado (a).

Nem todo ministro indicado ao Supremo terá que acompanhar interesse de quem o indica, nem os membros da Corte estariam sujeitos a pressão de políticos para passar os processos para debaixo do tapetão da impunidade. “(...) Todo julgamento no STF tem dito que quem erra precisa pagar pelo erro. Isso derruba a tese dos que acreditavam na impunidade.” (entrevista de Cármem Lúcia, Presidente do Tribunal Superior Eleitoral – TSE, concedida a Izabelle Torres/IstoÉ, 10/10/2012, 114 p.)

País de democracia observada, quem acredita que a imprensa deveria ser vigiada, ou em exagero de perda de argumento dizer que profissional da imprensa bom é o que está morto, corre na contramão da história. As falas de exceção não têm poder sobre os rumos nacionais atuais. A constituição federal nos assegura liberdade.

Dizer que ‘fotógrafo e jornalista bom é jornalista morto’ não foi a primeira do advogado de Delúbio Soares, Sebastião Juruna. Em 2010, ele teve que se desculpar perante o juiz, por ofender um procurador.” (Humberto, Cláudio. Borduna/meio norte/Geral/13.10.2012/A10)

As democracias dão direito ao livre arbítrio e às posições políticas diversas. Só não pode a liberdade de expressão querer encolher a verdade, ou sobrepor ponto de vista sobre os fatos que geram a força da Lei. Discordar dos rumos do julgamento do mensalão, não aceitar o papel da imprensa nesse momento histórico do escândalo desbaratado também se entende. Já advogado de mensaleiro não pode ofender magistrado, nem fazer apologia a crime contra a imprensa. Fica feio, não?

“‘As quantias são grandes, mas as campanhas são caras...’ Ministro Ricardo Lewandowski (STF), em defesa da absolvição de mensaleiros” (Humberto, Cláudio/meio norte/Geral/13.10.2012/A10)

Qualquer ministro do STF manifestou-se em seu livre arbítrio de julgamento, no caso mensalão. A omissão do contraditório pode ser entendida, ainda assim, como princípio de liberdade de julgamento. A história registrará uma maioria que julgou e condenou, a partir de fatos incontestáveis, atos de caixa 2, lavagem de dinheiro, locupletagem do dinheiroduto do mensalão.

Contra esse julgamento não parece + haver saída que não seja contradizer a mentira.