terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Teatro e Antropologia

Teatro e Antropologia
por maneco nascimento

A história do teatro ocidental herda ritos iniciáticos das festas profanas em rejúbilo ao deus grego Dioniso ou Dionísio, equivalente ao deus romano Baco (Baccus), deus dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da insânia, mas, sobremaneira, da intoxicação que funde o bebedor com a deiade. Filho de Zeus e da princesa Sêmele, teria sido o único deus olímpico, filho de uma mortal, o que faz uma divindade grega atípica. 1

Do mito, segundo textos clássicos, Zeus engravidou Sêmele, sem que Hera soubesse, e prometeu à princesa que ela poderia pedir o que quisesse. Enganada por Hera, pediu a Zeus que se mostrasse a ela como se apresentava a Hera. Sem poder recusar o pedido, Zeus aparece em carruagem de raios e trovões e Sêmele morre por causa do susto. Zeus pega o bebê prematuro, de seis meses, e o cria na coxa. 2

No tempo certo, o deus desfaz os pontos na perna e entrega o bebê a Hermes para que o leve a Ino e seu marido Atamante, para ser criado como menina. Hera usa de vários artifícios para se livrar de Dioniso. O casal enganado e enlouquecido pela deusa acaba matando os próprios filhos. Zeus engana Hera, + uma vez, transforma a “menina” em menino e o entrega aos cuidados das ninfas, de Nisa, na Ásia. Premiadas, pelo favor ao deus, elas são transformadas nas estrelas Híades. 3

Depois de adulto ainda sofre raiva e perseguição de Hera. Fica louco e vaga por várias partes da Terra. Ao passar pela Frígia, a deusa Cíbele cura-o e o instrui em seus ritos religiosos. Curado, ele atravessa a Ásia ensinado a cultura da uva. Foi o primeiro a plantar e cultivar parreiras. Dessa forma o povo passou a cultuá-lo como deus do vinho. 4

Nas lendas romanas, Dioniso tornou-se Baco, que se transforma em leão para lutar e devorar os gigantes que escalavam o céu. Foi considerado por Zeus como o mais poderoso dos deuses. É geralmente representado sob a forma de um jovem imberbe, risonho e festivo, de longa cabeleira loira e flutuante. Tem em uma das mãos um cacho de uvas, ou uma taça e, na outra, um tirso (dardo) enfeitado de folhagens e fitas. O corpo é coberto com um manto de pele de leão, ou de leopardo. Traz na cabeça uma coroa de pâmparos e dirige uma carruagem tirada por leões. 5

(Dionysos/estátua romana século II, estilo helenístico/acervo: Louvre/ colhida da wiki)


Os ritos religiosos dedicados a Dioniso eram conhecidos como os Mistérios Dionisíacos. Implicavam, normalmente, em agentes tóxicos, na sua maior parte vinho, para induzir transes que erradicavam as inibições. O culto ao deus se dava para rituais, mas há pouca informação para a maior parte deles. Sabe-se que os ritos se centravam no tema morte/renascimento e que a maior parte dos praticantes eram “intrusos”, ou seja, estrangeiros, fora-da-lei, escravos e, especialmente mulheres. Acredita-se que eles entravam em transe e usavam música rítmica nos ritos. 6
(deus Dioniso/Baco/imagem colhida da wiki)


O desenvolvimento do Teatro Grego teve origem no culto prestado a Dioniso em Atenas. O festival principal, no qual as tetralogias em competição (três tragédias e uma sátira) eram executadas, era conhecido como Dionisía Urbana. Era um evento anual importante à democracia. O teatro de Dioniso estava situado na encosta Sul da acrópole de Atenas, com lugares para um público de 17.000. Havia também os concursos dramáticos da Dionisía Rural e o festival Lenaia, cujo nome é sinônimo de “Ménade”. As peças também eram executadas no festival Anthesteria, que honrava Dioniso enquanto deus do vinho. 7

Os atores das peças executadas usavam máscaras, símbolos da submersão da sua identidade na de um outro. Esta perda de individualidade é demonstrada no teatro não só pelas máscaras que os atores usam, mas também pelo coro. Os membros do coro dançam e cantam em uníssono, cantando as mesmas palavras, não têm nenhuma identidade, cada um é simplesmente uma parte insignificante do todo, sem vontade individuada. Toda a individualidade e força de vontade devem ser ofertadas a Dioniso, quando o deus assim o deseja. 8

Foi sugerido que cada herói trágico que sofre e morre no palco, quando do grande festival dramático de Atenas, é de fato o próprio Dioniso a ser morto. Também se propôs que o enredo do sacrifício fosse o enredo original da tragédia, e que o festival de Dionisía honrava Dioniso ao reproduzir a sua morte. 9
(deus Baco/imagem colhida da wiki)

As heranças da construção da personagem que nos foi legada ao longo das diversas culturas e reinvenção destas é o que nos faz ator das + íntimas e diversas manifestações da natureza humana, saída primitivamente da imitação, ou determinismo da interface divina.

De alguma forma os mortais intuídos, ou reprodutores de “efígies” comportamentais de deuses, semideuses, ou heróis forjados pela história oral, na esteira da tecnologia da linguagem, evoluíram à literatura interpretada e traduzem o homem e o deus intrinsecamente juntos.
Mircea Eliade, em “Mitos e Realidade”, ao tratar de manifestações da natureza humana a ritos, mitos, lendas e religião na construção sociocultural aponta que há idéias de que os deuses da mitologia grega seriam reis que, a partir de feitos extraordinários, teriam sido alçados a condição de divinos. As variações culturais para lendas e mitos tomam lugar e forma para que a expressão humana contextual se aproprie.

Dizem que quem inventou a cultura foi a antropologia. De sorte é que reproduzindo comportamentos, sentimentos mortais ou à mímesis do divino, o teatro ganhou o mundo da sempre reinventada ideia, saiu dos ritos iniciáticos e virou ciência sem perder-se da essência da construção da personagem que estaria entre “o que é” e o que “poderia vir a ser”.

As máscaras trágicas tradicionais repercutem de cultura a cultura, ganham a interface moderno/contemporânea e não nega-se o fenômeno, pelo contrário, confirma-o. Os novos deuses de novíssimas mídias continuam o exercício de autoproclamação, porque da natureza humana ou divindade com falhas mortais.

Reitera-se teatro e antropologia para homens, semideuses e deuses forjados.




Fonte: ( 1 a 9 - pt.wikipedia.org/wiki/Dioniso…/bibliografia : Dalby, Andrew (2005), The Story of Bacchus, ISBN 0-7141-2255-6 )


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Um dia, Ramsés. (II)


Um dia, Ramsés. (II)
por maneco anscimento
(ramsés ramos/foto divulgação)

Das lembranças regurgitadas, uma entre tantas que merecem tratamento a seu tempo. Esse é o tempo dessa memória. Recebo email de amigo Marcus Oliveira, em 20 de setembro de 2011. O tema da mensagem era, “13 anos sem Ramsés Ramos” e nele dizia:

“Um dos maiores intelectuais q já conheci. Com quem tive o prazer de andar, tocar e cantar junto e foi o responsável por grande parte da minha formação artística. Uma vez na sua casa me pegou lendo um dos seus livros e perguntou se eu gostara do livro, respondi: - claro, e ele na mesma hora disse:- é seu. Era uma edição bilingüe de Charles Baudelaire do qual eu tirei o nome da banda Noigandres - "o cheiro q afasta o tédio". Abração do seu tamanho Ramsés.”
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Enviava também em anexo, algo + sobre o artista, “POETA RAMSÉS RAMOS – MAIS UM ANO DE VIDA ETERNA. DIA 20 de setembro de 1998.. era domingo de manhã.. fomos todos pegos de surpresa pela notícia do falecimento do poeta, jornalista, escritor, compositor, dramaturgo, crítico de arte, advogado, tradutor e jornalista Ramsés Ramos (...) (email recebido de Marcus Oliveira, em 20 de setembro de 2011)

Encontrado sem vida no sexto andar do Hotel Oficial da Presidência da República, onde se hospedava na Rússia acompanhando o presidente do Superior Tribunal de Justiça Dr. Pádua Ribeiro. Foi eleito intelectual do ano em 1984. Onde viajou pela primeira vez representando o Piauí no Encontro Internacional da Juventude (...) (Idem)
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Exerceu funções importantes no mundo do jornalismo. Sec. Geral da FENAJ – Federação dos Jornalistas de Brasília, sobre a presidência de Armando Rollemberg, em seguida concursado da ONU era Chefe do Departamento Anti-Drogas, logo depois Chefe do Cerimonial e Relações Internacionais do STJ.. Faleceu de perda progressiva de sangue em missão oficial (...) (Idem)

Publicou pós-mórtem o livro Folhas da Relva. – Leaves of Grass – Traduções inéditas do poeta Walt Witman em 2001 pela Editora da Universidade de Brasília, onde fazia doutorado sobre Mário Faustino.” (Idem)

Num breve piscar do olho do tempo, Ramsés Bahury Ramos foi-se para as estrelas das paixões desconhecidas por simples mortais, das especulações do imponderável e da negação do pó ao pó ao que retornamos naturalmente, por determinismo da natureza viva, logo sujeita a passagens e mudanças.
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Ramos mudou-se enquanto fazia o que melhor lhe dava prazer que era ser o artista versátil, útil à poesia, ao jornalismo e às novas relações sociais e profissionais que seu ímpeto e inteligência burilada abriram possibilidades. Ao reaprender a viver, no outro plano, deve ter reinventado novas picardias para alegrar espíritos amigos com quem passou a conviver.

Saudades não têm hora, batem quando querem fazer que nos lembremos dos velhos e bons amigos. Ao poeta das paixões poliglotas (Ramos, Ramsés. Da paixão, o vásni, de la pasión, de la passion. Praga: editpress, 1992), do jornalismo engajado e das funções oficiais que desempenhou com segurança, lisura e compromisso com o ofício e com o nome que construiu para si.

Após treze anos sem seu riso maroto, suas tiradas mestra de inteligente humor, sua presença rica ao orgulho de quem compartilhava sua companhia e suas “cobrices” divertidas de se ouvir e rir +, guardemos as boas memórias do grande amigo Ramsés Ramos.

(ramsés ramos/foto divulgação)

Com certeza os céus não abrem mão de tão alegre e generoso espírito. E quando os dias forem para reaquecer as lembranças, lembremos com muita alegria do querido e de alma em gracejo, Ramsés, o príncipe de nosso Egito às margens do Parnaíba e Poti.

Um dia, Ramsés.


Um dia, Ramsés.
por maneco nascimento

Um dia, depois de algum tempo residindo no leste europeu, voltou à terra que o viu tornar-se Ramsés. Era o mesmo homem, tinha o mesmo humor inteligente, sintético e cáustico. Estava + maduro, naturalmente, mas mantinha o mesmo sorriso e destilava as mesmas “cobrices”, das brincadeiras que trocávamos para o riso e o entendimento da piada inteligente.
(ramsés ramos/foto divulgação)

Ramos já não era o rapaz que cruzávamos nos corredores da antiga escola técnica federal do Piauí – etfpi, nos ensaios do coral da instituição, ou nos espaços da cidade em que nos podíamos rever e rir do perspicaz da farpa acertada. O mesmo belo rapaz de fúria do saber inteligentíssima.

Bom pianista, bom músico, oratória invejável para gregos e até troianos que tenham sobrevivido ao ato de dizimação quando tomada e saqueada Tróia. Grave poeta para jogo de palavras certas, texto livremente limpo. Poeta de mancheia e de educação refinada, considerando filho de quem era. 
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Certa vez, fui a sua casa com o barítono Raimundo Pereira. Fomos recebidos pela mãe de Ramsés. Quando apresentada a mim, na minha ingenuidade comentei: “Ah, o mesmo nome da mulher de Villa Lobos!” Ela assentiu com a cabeça, levemente, quase imperceptível. Tinha um riso comedido, sem malícia, nem reprovação pelo comentário. Mulher refinada e disponível à visita sem anúncio prévio.
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Ramsés tivera boa educação, logo era muito aprazível, mas especialmente bem humorado. Seu humor acompanhava sua criação e seu status conquistados. Falava + de três línguas e nunca foi esnobe. Quando voltou em Teresina, como comecei a tratar nessa memória, vinha lançar um livro de poemas, em quatro idiomas.

Um delicado livro de bolso. A capa em preto e no centro dela espalhando-se para o verso da capa a imagem holográfica do mapa do país, em que residia, na cor vermelha. A entre capa em vermelho puro, assim como a primeira página em puro vermelho.

Na capa acima do mapa se lia:
“ramsés ramos
da paixão
o vásni
de la pasión
de la passion
”

Na terceira página do livro, toda em branco, se lia, “ramsés ramos, praha 1992”. Foi nesta página que, no dia do lançamento, ele dedicou a mim seu ótimo humor: “Ao Maneco paixões de bonecas... Ramos the 9.1.93.”. Na quinta página, toda em branco, repetia-se o título do livro com letras em vermelho.

O primeiro idioma, português. A sétima página, toda em negro, o título dos micro poemas na língua mãe: “da paixão”. “I paixão ligeira/será essa a maneira?/II paixão vadia/onde tanto iria?/III paixão atroz/quem seria o algoz?/IV paixão miúda/vezes mais aguda/V paixão suave/leve ave/VI paixão amorosa/perfume de rosa/VII paixão platônica/quase canônica/VIII paixão suicida/morte em vida/IX paixão mortal/luto, afinal/X paixão/movimento vão?”

A segunda língua, tcheca. O padrão arte visual o mesmo. O título na página total em preto, letras brancas. Os micro poemas em páginas brancas e frases com letras em preto: “o vásni”. “I váseñ prelétavá/rekni, co nám dává?/II váseñ svetácká/ci dusi polaská?/III váseñ zdivocelá/nebezpecná strela/IV váseñ malicherná/levné lásky herna/V váseñ nezná,/tíhu zloby nezná/VI váseñ milující,/pel milenky lící/VII váseñ platonická,/láska, chrám, novicka/VIII váseñ az k nebytí/hloubku dna pocítí/IX váseñ smrtící,/cerñ hrobky se svící/X váseñ,/rozumu strázeñ"

Espanhol. “de la pasión”. “I pasión ligera/es esa la manera?/II pasión mundana/de dónde emana?/III pasión atroz/quién será el feroz?/IV pasion menuda/ a veces más aguda/V pasión suave/leve ave/VI pasión amorosa/perfume de rosa/VII pasión platónica/casi canônica/VIII pasión suicida/muerte en vida/IX pasión mortal/luto, al final/X pasión/razón sin razón?”

Francês. “de la passion”. “I passion volage/dans ces parages/II passion vagabonde/fait la ronde/III passion atroce/comme une crosse/IV passion menue/parfois aigüe/V passion douce/volée d’un mousse/ VI passion amoureuse/rose heureuse/VII passion platonique/quasi canonique/VIII passion suicide/place au vide/IX passion mortelle/deuil éternel/X passion/à quoi bon!"

Ao final dos poemas editados em francês, vinha uma página em que finaliza a edição para quatro línguas: “poemas feitos em novembro de 1991, em Sana, Yemen ramsés ramos, etc." Assim como começa o livro, encerra-o. A última página e a entre capa em todo vermelho. A capa para o livrinho sobre paixão em preto e vermelho. O sanduíche de poemas em vermelho, preto e branco. Pura poesia.
 (ramsés ramos/foto divulgação)

Grande poeta, grande intelectual da cidade, artista generoso e homem de alma livre e bem humorada. Esse era nosso querido Ramsés Bahury Ramos.


sábado, 4 de fevereiro de 2012

Memórias brasis


Memórias brasis
por maneco nascimento

“(...) Foi encontrado morto. Ali, naquela calçada de esquina, não havia um homem morto. Mortos ali estavam um pedaço grande do humor, uma parte importante da poesia, um amigo insubstituível. Morria ali uma glória da arte popular do Brasil. Poucas pessoas conseguirão ser tão espirituosas quanto Maria o foi.” (Anysio, Chico. Sou Francisco. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1992)
(criador, redator, poeta e cronista Antônio Maria/foto colhida de www.releituras.com)

Nas memórias de Anysio, Antônio Maria Araújo de Morais, nascido no Recife, em 17 de março de 1921, o grande cronista brasileiro, que em março de 2012 completará 91, era um dos seus grandes amigos. Parceiro de Chico Anysio na TV Rio, mas também já se haviam encontrado no campo do trabalho em outras emissoras de comunicação de massa, entre elas, a Mayrink Veiga e Rádio Tupi.
 (chico anysio show/foto colhida de grandesimagens.com.br)

Segundo Chico, Antônio Maria como era reconhecido o artista de roteiros de programas originais, fora um de seus mestres e ídolo, “Ah, Antonio Maria! Ninguém escreveu humor de modo mais original que Antonio Maria. Dêem-me duzentos textos e eu aponto os que foram escritos por ele. Foi o único autor realmente original que conheci. Original e inteligente. Inteligente e brilhante. Brilhante e engraçadíssimo. Trabalhei em todos os seus programas na Mayrink Veiga (...)” (Idem)

O cronista + carioca que o Rio já teve, também sofreu de amores, como lembra Anysio. Entre os que viu morrer de amor estariam José Brasil Câmpio, apaixonado pela cantora Maysa, e Antônio Maria. “(...) José Brasil Câmpio, apaixonado pela cantora e que morreu de amor por ela. Aliás, vi o amor matar duas vezes. Dois amigos meus morreram de amor. O outro foi Antônio Maria.” (Idem)

Não há quem conteste a caneta do pernambucano Antônio Maria, responsável por tiradas como “A única vantagem do homem só é poder usar o banheiro sem precisar fechar a porta.” (Anysio, Chico. Sou Francisco. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1992), ou “É perigoso ter muitas mulheres. Quem tem seis, por exemplo, tem cinco chances de ser passado para trás.” (www.frasesepensamentos.org/mulher.htm)

Tino para o jogo hábil das palavras, Antônio Maria também amou com toda a sorte que o amor lhe poderia trazer e perder esse amor transformou-o no “monstro” da crônica brasileira, segundo memórias de Chico Anysio, “A mulher a quem amava o deixou sem maiores explicações ou motivos e voltou para o marido que estava na França. Antônio Maria começou a morrer ali. E ali nasceu o maior cronista deste país. Desse dia em diante, comido por dentro, Maria começou a escrever bonito, em vez de engraçado.”

Também deslizou por composições à musica e, em 1955, teve gravadas por Dolores Duran músicas compostas em parceria com Ismael Neto, “Canção da volta” e “Carioca”. (pt.wikipedia.org/wiki/Dolores_Duran). O homem, poeta e de coração para saudades e solidão, sofreu com a tranquilidade dolorosa e de silêncio furioso de todo amante.

"Às vezes, me sinto muito só. Sem ontem e sem amanhã. Não adianta que haja pessoas em volta de mim. Mesmo as mais queridas. Só se está só ou acompanhado, dentro de si mesmo. Estou muito só hoje. Duas ou três lembranças que me fizeram companhia, desde segunda-feira, eu já gastei. Não creio que, amanhã, aconteça alguma coisa de melhor." (O diário de Antônio Maria/ www.releituras.com/antoniomaria_bio.asp)

De humor venal típicamente antoniomariano. Chico Anysio ainda recorda do amigo Maria, nos bastidores, “escrevendo correndo (sempre entregava o texto na última hora) e todos nós em volta atrapalhando, (...) Aí a porta abriu e entrou uma senhora:
- Boa tarde. Eu sou da Liga contra o Câncer.
E Maria, sem tirar os olhos da máquina, respondeu sem titubeio:
- Eu sou a favor.
”

Segundo Chico Anysio depois da perda do grande amor A. Maria não mais escreveu para o humor porque seria um sofrimento e não aquele prazer antigo dos bons tempos em que conviveram juntos.

“Maria estava sofrendo demais para ser engraçado. Suas crônicas cresciam na beleza e na aceitação geral. Pessoalmente era o mesmo homem, mas sua alma tinha cicatrizes. Passou a beber além do habitual. Dormia pouco e sofria muito. Um dia parou na porta do Rond Point, um bar que freqüentava na esquina de Copacabana com Fernando Mendes, e pediu que lhe trocassem um cheque. Não chegou a receber o dinheiro (...)” (Anysio, Chico. Sou Francisco. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 1992)
(chico e a televisão/foto colhida de businesstelivision.com.br)

Memórias brasis recortam velhos homens e grandes artistas da cultura nacional. Maria e Anysio não passam imunes pela história do rádio, teatro, tevê, cinema e literatura brasileiros. Evoé, velhos artistas!

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Ñ cala a boca, Bárbara.


Ñ cala a boca, Bárbara.
por maneco nascimento

“Ele sabe dos caminhos dessa minha terra (...) Cala a boca - olha o fogo!/ (...)Cala a boca, Bárbara/Cala a boca, Bárbara/Cala a boca, Bárbara/Cala a boca, Bárbara (...) Cala a boca - olha a noite!/Cala a boca - olha o frio!/Cala a boca, Bárbara...” (Cala a boca, Bárbara: Chico Buarque)

Uma guerra de titãs na geografia às cartas da lei suprema marcou enredo, nos últimos dias, na disputa de como se encaminharia os novos rumos investigativos a casos de suspeição de magistrados brasileiros. De um lado o Supremo Tribunal Federal - STF, com atribuições de julgar casos de última instância, do outro a Associação de Magistrados Brasileiros - AMB. O pivô, as atribuições livres ou limites de investigações do Conselho Nacional de Justiça - CNJ

Os noticiários nacionais amanheceram, nesse dia 3, com manchetes tipo, “Supremo mantém autonomia do CNJ para investigar juízes” e “Com seis votos a cinco, o Supremo Tribunal Federal mantém autonomia do CNJ para investigar juízes” (capa O DIA, sexta feira, 3 de fevereiro de 2012). Na matéria a resposta que a maioria brasileira esperava ouvir do STF.
(ministros do STF/ foto do jornal stylo/03/02/2012, às 09h37/acesso: 03/02/2012, às 18h10)

Após uma longa expectativa para ação que estava na pauta do tribunal desde setembro do ano passado, a boa notícia chegou. Em expediente de análises, acordos e discussões saudáveis e públicas, o martelo foi batido numa democracia, de placar de 6X5, em avaliação ponto a ponto à iniciativa impetrada pela AMB e amparada por liminar concedida pelo ministro supremo Marco Aurélio Mello.


A Associação dos Magistrados Brasileiros tentou, a partir da liminar, limitar os poderes do CNJ. Pela decisão do STF o Conselho Nacional de Justiça poderá investigar e punir juízes e servidores do Poder Judiciário antes das Corregedorias dos Tribunais de Justiça estaduais. Uma das falas mais significativas dentre as defesas da cidadania e direitos livres foi a do ministro Gilmar Mendes ao afirmar que “Até as pedras sabem que as corregedorias (locais) não funcionam quando se trata de investigar seus próprios pares” (capa O DIA, sexta feira, 3 de fevereiro de 2012)

Votos contrários à autonomia das investigações do Conselho vieram de Marco Aurélio Mello, Luiz Fux, Ricardo Lewandowiski, Celso de Mello e do Presidente da Corte Suprema, Cezar Peluso. A tese que prevaleceu nas discussões ocorridas na Corte foi a que afirmava que o CNJ “deve ter amplo poder de investigar e, inclusive, de decidir quando os processos devem ocorrer nos tribunais de origem.” (Idem)

É também decisão, entre os itens discutidos pelos ministros supremos, que todos os julgamentos de magistrados devem acontecer em sessão pública. Para os ministros o entendimento é de que é constitucional a parte resolucional do CNJ que estabelece a publicidade de todas as sessões que julgam processos disciplinares. (Idem)

O presidente da AMB disse em entrevistas que aceitariam, ele e a associação, qualquer que fosse a decisão do Supremo. A decisão foi tomada e o Brasil amanheceu hoje com folga de tranqüilidade no que diga respeito a investigações livres de corporativismos e omissão de verdade.

O Supremo em seu papel de justiça constitucional venceu para um país + próximo da liberdade da informação e ética no papel da justa medida na magistratura nacional.

A Justiça, essa mulher de olhos vendados, tem abraçado dentro dos quadros da profissão, nas várias instâncias, o papel destacável de mulheres brasileiras no bom desempenho do ofício. Entre elas está a ministra Eliana Calmon, atualmente corregedora-nacional de Justiça.
 (ministra corregedora nacional da Justiça, eliana Calmon/foto colhida da wikipédia, às 18h21)

Recentemente a corregedora causou frisson ao declarar ponto de vista acerca da impunidade de crimes praticados por magistrados e sobre especulações sobre a redução do poder de fiscalização do CNJ. A ministra teria afirmado que “há bandidos escondidos atrás da toga”, em entrevista concedida na Associação Paulista de Jornais.

Na ocasião comentou sobre a possibilidade do Supremo Tribunal Federal reduzir o poder do CNJ de fiscalizar atos praticados por magistrados. Trechos da entrevista foram publicados no jornal Folha de São Paulo. (noticias.centralblogs.com.br)

“`Já disse e está em todos os jornais. Acho que isto é o primeiro caminho para a impunidade da magistratura, que hoje está com gravíssimos problemas de infiltração de bandidos que estão escondidos atrás da toga, disse a corregedora na entrevista.`" (noticias.centralblogs.com.br)

Uma atitude de coragem e destemor acompanhou essa ministra em meio a um quase domínio de juízes. Sem “teto de palha” e muito segura das posições e encaminhamentos da função que lhe foi devida, fez muito bem seu papel.

Não calou-se e o Brasil de homens e mulheres comuns e também de pares que a acompanharam nessa peleja, estamos todos + gratos e felizes com sua fibra, a postura dessa mulher.

O CNJ com Eliana Calmon, com a OAB para homens e mulheres e o(a)s incorporado(a)s de tribunais brasileiros, sem temor da verdade, fortalecem a decisão suprema e de direito cidadão.

Bárbara não vai se calar.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cuidado!


Cuidado!
por maneco nascimento

No último sábado, dia 28 de janeiro de 2012, a sorte ou descuido dela, a marca do destino para quem nele crê, ou um relaxamento das relações de prestação de serviço podem apresentar-se com “responsáveis” por acidente envolvendo elenco de musical e público presente àquela noite. 

Em matéria de Leo Pinheiro, do Rio de Janeiro, a manchete “'Danielle Winits e Thiago Fragoso sofrem acidente durante apresentação do musical ‘Xanadu’” e continua no destaque “'Cabo de aço se rompeu se rompeu e atores caíram sobre assentos vazios do Teatro Casagrande, no Leblon. Atriz sofreu corte na boca e ator teve suspeita de fratura`” (veja.abril.com.br/noticia/celebridades/​danielle-winits-e-thiago-fragoso-sofrem... 29/01/2012 – 10:29·/acesso 01/02/2012, às 12h35m)

 (winits e fragoso em "xanadu"/arquivo ego./globo.com)

As notícias vão ganhando, naturalmente, forma e adicionais de informações melhor apuradas com a sequência da investigação jornalística. “´Ele quicou em cima da minha mãe’, diz filho de vítima de acidente em ‘Xanadu’” e no sublide “' Marina Silva Beckman de 73 anos está internada no CTI`". A matéria de Monique Arruda, do EGO, Rio, aponta novos dados a partir de entrevista com o filho de dona Marina, Luiz Roberto da Silva Beckman: 

(winits e fragoso em "xanadu"/arquivo ego./globo.com)

“Tiago e Danielle caíram bem forte em cima de minha mãe. Ele caiu nela e quicou, indo parar na cadeira da frente. A queda foi muito forte e minha mãe gritou muito de dor, mas o teatro agiu corretamente e ninguém mexeu nela (...) Ela foi com duas amigas, uma machucou o joelho e com a outra não aconteceu nada. O pessoal da produção e do teatro estão presentes e dando bastante apoio para a nossa família (...) Minha mãe tem 73 anos e cuida do meu pai, que tem 83. Agora os dois vão precisar de cuidados especiais’”, registra Luiz em entrevista à matéria. (publicada há 2 dias atualizada há 2 dias/ globo.com/ego./notícias/acesso 01 fev 12h)

As Casas de espetáculos sempre tiveram e terão vida rica de fantasia, lúdico, ousadia e reinvenção da arte de reinventar-se que há no espírito humano. O eixo Rio/São Paulo tem dado mostra que os musicais são um grande filão de exploração e sucesso garantido. A Broadway que o diga. O Brasil também descobriu seu veio de montar aqui assinaturas que deram certo lá fora. E, claro, exige na novidade tecnologia e uma parafernália que o espetáculo biz exige. O show é espetacular e fantástico aos olhos do público.

Qualquer descuido com a parafernália técnica envolvida, em grandes espetáculos dessa monta, pode acabar em desastre. Com essa montagem, dirigida por Miguel Falabella, parece que alguém descuidou-se, "´Xanadu´: empresa de equipamento não tem registro do Crea (...) Conselho de Engenharia e Agronomia do Rio diz que ainda que teatro não tem técnico responsável pela parte elétrica e mecânica.´” (do EGO, no Rio/publicada há 2 dias atualizada há 2 dias/ego./globo.com/acesso 01/02/2012, às 12h04m)

Após vistoria no Teatro Oi Casagrande, no último dia 30, segunda feira, o Crea-RJ teria constatado duas falhas técnicas, possíveis responsáveis por acidente que vitimou artistas e público. 

Segundo a vistoria do Conselho, a empresa Set Cavalheiro FX, contratada para a instalação de equipamento que manteria suspenso o casal de atores durante a atração, não tem cadastro na entidade, nem engenheiro responsável. A segunda falha envolve responsabilidade do Teatro, que não dispõe de um técnico para a parte elétrica e mecânica, o que naturalmente acarretaria riscos de acidente. (do EGO, no Rio/publicada há 2 dias atualizada há 2 dias/ego./globo.com/acesso 01/02/2012, às 12h04m)
(imagem de vôo de winits e fragoso: "xanadu"/arquivo ego./globo.com)

A vida de artista não é, como possa parecer, cheia de “glamour” e desprovida de cuidados e ou relaxamento com a própria segurança. Produções artísticas envolvem muita gente e funções específicas. Ator e diretor estão para o palco e à cena, assim como assuntos técnicos e de maquinaria estão para técnicos e engenheiros, sejam cênicos ou elétricomecânicos.

As Casas de espetáculos devem ter, a priori, quadro técnico que abrace desde o profissional de maquinaria, eletricidade entre outras funções básicas dos bastidores da eficiência dos trabalhos técnico/cênicos. Essas falhas de profissionais habilitados à área fim seriam o calcanhar de Aquiles, para não perder o fio grego, à sobrevivência saudável de qualquer Teatro.

Em Teresina, dispõe-se nessa altura, do Theatro 4 de Setembro (estadual), Teatro Municipal João Paulo II(municipal), Teatro da Assembleia (privativo da ALP),  e mais recentemente a cidade ganhou o Cine Teatro da UFPI (federal).

O Teatro do Boi (municipal) está em fase de finalização de obras para ser entregue à comunidade do bairro Matadouro, zona norte da capital. Seguramente, crê-se na nova Casa sem qualquer problema que pudesse ameaçar a vida de freqüentadores.

Como estaria o cuidado com a manutenção dessas Casas de espetáculos de Teresina, em relação a hidráulica, elétrica, maquinaria e reposição de material indispensável à vida útil e segurança de profissionais e público que por ali circulam?

O grave acidente, sob o ponto de vista da negligência técnica, que envolveu atores nacionais deve servir de alerta aos detentores de decisões acerca de olhar + cuidadoso com a vigilância e pragmática ação de manutenção dos Teatros locais. Decisões de políticas públicas também devem recair sobre a cultura e, + eficazmente, preservar patrimônio material e público oficial. 

Acidentes como o ocorrido com Danielle Winits e Thiago Fragoso não servem de qualquer referência positiva. Cuidar da cultura é priorizar também cuidado com a vida.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Folia reflexiva

Folia reflexiva
por maneco nascimento


Carnaval é para folia, extravasar as emoções e relaxar os dias de stress, mas também é para refletir sentimentos e abrir alas para a crítica social e abordagem de temas que estão no calcanhar da foliã, pelo menos é o que acha o bloco feminino “Nós Tudinha”. E dia 09 de fevereiro, às 19 horas, no Espaço Cultural “Osório Jr.” e Bar do Clube dos Diários, a agremiação estará lançando a campanha do carnaval 2012.
(bloco carnavalesco "Nós Tudinha"/divulgação)


O bloco desenvolve temas que evoluem na passarela do samba com abordagens para olhar político social, comportamento, humor, irreverência e de denúncia sempre direcionados a questão da mulher. Nesse ano ao entrar na avenida Mal. Castelo Branco, domingo, dia 19 de fevereiro, será para apresentar a temática “Violência contra a mulher, a dor que a justiça não sente. Chega de impunidade”

“Nós Tudinha” já abordou, em anos anteriores, a situação da mulher em temas como “Maria sem vergonha (2007), Mulher com muito prazer (2008), Vida sim, Violência Não: as violetas vão passar! (2009) e Mulheres no poder (2011). Em 2012, tratar do assunto violência contra a mulher se configura para refletir sobre o número de mulheres assassinadas, cujos assassinos continuam impunes.

Numa irreverência feminil contagiada de alegria, beleza, sensibilidade e humor refinado o “Nós Tudinha” se apropria da força e postura política da mulher para instigar a reflexão acerca das relações de gênero na sociedade piauiense.

O bloco se apresenta como a primeira agremiação carnavalesca de mulheres de todas as raças, credos, idade, classe social, orientação sexual e, acima de tudo, comprometidas com as transformações sociais de seu tempo e do futuro.
(bloco carnavalesco "Nós Tudinha"/divulgação)

Para a coordenadora do bloco, Patrícia Amália, tratar da violência e impunidade, como proposta temática para o carnaval de blocos desse ano, seria “mostrar e denunciar a situação de opressão, discriminação e demais mazelas que atingem direta e indiretamente a condição feminina na sociedade”, aponta.

Nesse dia 9 de fevereiro, a partir das 19 horas, no Espaço Cultural “Osório Jr.” e Bar do Clube dos Diários, a noite será pequena para tantas e grandes mulheres que compõem o movimento sociocultural manifestado para políticas sociais e acento artístico e de expressão coletiva também a sinais festivos e momescos.

“Nós Tudinha” vai passar nessa avenida em samba, corpo e alma de ação popular quando o carnaval chegar.