sábado, 14 de julho de 2012

Rádio Pioneira


Rádio Pioneira
por maneco nascimento

Quem é da geração que hoje conta seus 50 ou + idade, certamente vai lembrar-se das horas que ganhou ouvindo programação de rádio e, especialmente, a da Rádio Pioneira de Teresina. Cresci ouvindo as grandes vozes (Deoclécio Dantas, Dídimo de Castro, Carlos Said, Carlos Augusto, Rock Moreira, Joel Silva, entre outros) daquela emissora de rádio e essa audiência fez-me tornar radialista.

Programas que sempre ouvi “A Grande Revista Pioneira” e o “Correspondente Pioneira” davam-nos informações privilegiadas. O “Seu Gosto na Berlinda”, do memorável Rock Moreira, com sua peculiaridade de locução e os recados à porteira da localidade tal, davam um sentimento de retorno aos dias de memórias rurais. Um luxo insubstituível.

E teve tanta audiência que arranjaram um espaço na parte da tarde pra fazer a segunda audição de ‘Seu gosto na berlinda’, porque não dava para atender com uma hora só. Aí, abriram espaço na parte da tarde: passou a ser ‘Seu gosto na berlinda’ 1ª. audição e ‘Seu gosto na berlinda’ 2ª. audição (SILVA, 2003).” (Andrade, José Maria Vieira de. RÁDIO PIONEIRA DE TERESINA: “A Emissora Que Não Pára” IN Rádio: encruzilhada da história: rádio e memória/organizadores Francisco Alcides do Nascimento, F. C. Fernandes Santiago Jr. – Recife: Bagaço, 2006. 278p.)

Sempre fui um bom ouvinte de rádio e entre os programas informativos, jornalísticos e esportivos havia também os musicais. De memória, lembro que quando adolescente, já estudando na Escola Técnica Federal do Piauí – ETFPI, precisava acordar muito cedo para ir fazer educação física. Numa dessas vezes em que precisei ligar o rádio de madrugada, para conferir a hora, antes de sair de casa, ouvi pela primeira vez a música “Amor, meu grande amor”, de Ângela Rô Rô.

A Rádio católica foi instalada e estruturada com uma aparelhagem moderna, na Rua Senador Teodoro Pacheco, no local onde funcionava a União dos Moços Católicos. A Pioneira começou a funcionar em caráter experimental no dia 13 de julho de 1962, sendo que o ‘primeiro sinal transmitido [...] foi às 21 horas com a gravação ‘Cavalaria Ligeira’ – disco do Monsenhor Joaquim Ferreira Chaves’.” (Pereira, Luciana de Lima. MEB – PI e a Luta da Igreja Católica pela (Re)conquista da Sociedade Piauiense IN Rádio: encruzilhada da história: rádio e memória/organizadores Francisco Alcides do Nascimento, F. C. Fernandes Santiago Jr. – Recife: Bagaço, 2006. 278p.)

Oficialmente, a Rádio Pioneira foi inaugurada no dia 8 de setembro de 1962, às 8h horas, com ‘missa na Avenida Barão de Gurguéia, sendo que, nos transmissores, às 10 horas, foi cortada a fita, na Rua Senador Teodoro Pacheco, 1179, com a presença de Dom Avelar (...)’” (Pereira, Luciana de Lima. MEB – PI e a Luta da Igreja Católica pela (Re)conquista da sociedade Piauiense IN Rádio: encruzilhada da história: rádio e memória/organizadores Francisco Alcides do Nascimento, F. C. Fernandes Santiago Jr. – Recife: Bagaço, 2006. 278p.)

Ao completar 50 anos, oficialmente, pela primeira transmissão ocorrida em 13 de julho de 1962, essa emissora de rádio continua mantendo padrão popular de audiência e, pela natureza de acompanhar novos tempos e outras curiosidades, ainda encontra panos à manga para manter-se Rádio Pioneira de Teresina.

Ao mesmo tempo em que a Rádio Pioneira de Teresina conseguiu realizar um importante trabalho no campo educativo (...) o seu pioneirismo também se estendeu aos programas que, desde muito tempo, eram sucesso no rádio piauiense, promovendo importantes inovações tanto em termos de aparelhamento técnico quanto na forma de se fazer radiocomunicação no estado.” (Andrade, José Maria Vieira de. RÁDIO PIONEIRA DE TERESINA: “A Emissora Que Não Pára” IN Rádio: encruzilhada da história: rádio e memória/organizadores Francisco Alcides do Nascimento, F. C. Fernandes Santiago Jr. – Recife: Bagaço, 2006. 278p.)

É para festejar hoje e sempre o papel de comunicação social que a emissora católica, trazida a Teresina por Dom Avelar Brandão Vilela, manteve. A Rádio Pioneira criou na cidade um padrão que fecha-se em unanimidade, seja nas falas de ouvinte ou de profissionais que por lá passaram.

Seu pioneirismo faz da Rádio Pioneira de Teresina a nossa número 1.




sexta-feira, 13 de julho de 2012

Teatro estudantil


Teatro estudantil
por maneco nascimento

Na noite do dia 10 de julho de 2012, no palco do Theatro 4 de Setembro, às 20 horas, mais uma turma de futuros atores realizaram montagem de exercício teatral, como teste final de formação da Escola Técnica de Teatro Professor Gomes Campos. Depois de algumas aulas teóricas e práticas em sala de aula, era a hora e vez da augusta matraca dramática parir sua cena.

O exercício de cena apresentado baseou-se em obra de dramaturga piauiense, com histórico de peças de discurso político em contexto do período da exceção brasileiro. Ditadura com calços e percalços de imposição sócio-disciplinar que percorreu todo o país com suas regras e condutas militares, encontrou na obra de Ísis Baião uma válvula de escape para a resistência cultural, com um humor que alveja o ponto desejado.

“As chupetas do Senhor Refém”, um divertido e tragicômico musical que atrai a atenção da reflexão coletiva acerca das posturas autoritárias, maneirismos (in) disfarçados de impor poder e força sobre quem não detém conhecimento, nem autoridade de acercar-se de argumentos sobre os próprios direitos.

Com muito humor a autora vai desvelando ações político-contextuais e, na metáfora de um bebê "feito refém" nos limites de uma maternidade, aplica a crítica de costumes e expõe à expiação pública o autoritarismo, corrupção, transgressão de direitos, violência e imposição do silêncio. 

Na dramaturgia de Ísis Baião uma dinâmica do riso crítico que incorpora situações corriqueiras, na ditadura, e abre brecha ao choque e trágico sob o viés de brinquedo perigoso. A rotina de um hospital maternidade em que a mãe vem em busca do bebê que pariu e não pode levar para casa. Ficam expostos os corruptores e corruptíveis no cotidiano hospitalar e a fragilidade de quem não tem a quem recorrer. Um caso de polícia a quem é a polícia.

A dramaturgia de compreensão à cena, realizada pela professora de montagem da Escola Gomes Campos, é de Lorena Campelo. Elementar, ligeira e ainda com descuidos de finalização. O elenco, grosso modo, está muito pouco à vontade. Parece ter um exaspero em livrar-se da cena. Não mastiga o drama, engole-o em fúria seca e numa descompreensão do que parece ser a coisa mais importante, a dramaturgia de proteção social aplicada ao reflexivo.

Há muito apelo ao riso fácil, perde-se o detalhe do humor ao cáustico e venal de estocada na ferida exposta. A mãe, que representada por cada uma das alunas aspirantes a atrizes, é gritada, em arranhado de garganta e agressão aos ouvidos da platéia. 

Gritaria e histeria, sem construção direcionada para sentidos da personagem, esvaziam o propósito e deixam no fácil ou para fazer rir, ou para fazer esquecer de vez a autora, a dramaturgia original e o contexto político intertextual.

Como aprendizes de feiticeiro, estão nervoso (a)s, atabalhoado (a)s e num “dança pra frente, pra trás, pra esquerda, pra direita...”, quase um peru rodou para bicho que deveria pensar. Dinâmica de teatro não quer dizer estar-se mexendo a cada fala pronunciada. Às vezes a economia e o silêncio falam por si só. Projeção de voz à cena não se justifica em gritaria, com receio de que não possa ser ouvido (a).

As aulas teóricas não parecem ter surtido efeito a aluno (a)s em exercício cênico de formação profissional. Ficou algo a dever da orientação do montador da peça vista.

A cenografia de dois planos, com módulos que se transformam, num certo momento em fake auditório, não comprometem. Ao contrário, criam distância e poder na cena de estrados planejada para ambiente de planos cenográficos. A luz, utilitária, não repercute nem dramaturgia de autora, nem de coletivo de montagem. Mas mantém artistas no claro.

Entre o exaspero e a pressa em encenar resultados na cena, o elenco é diverso e corajoso. “Vai pra galera!” Melhores performances em Camila Carvalho, tranqüila em sua projeção da voz à personagem; Célia Lopes quando vem visitar o filho João, preso na maternidade, tem uns tempos de texto que faz rir, sem apelo gratuito. Quando representa a mãe querendo levar o filho, feito refém, ainda grita muito e fragmenta a boa intenção. 

Valdênia Carvalho, que representa uma mãe miserável, em programa popular de auditório, também tem desempenho suave e projeta a pequena voz para toda compreensão, sem exagerar na fórmula. Lorena Soares, a enfermeira do diálogo de corredor, tem boa presença, mas parece descomprometida com o todo, já que crê estar + à frente do coletivo ensaiado. Perde ponto.

Augusto César, o médico de passagens no corredor e Igor Araújo, o médico tarado, têm boa intenção e algum sinal de fumaça para fogueira das vaidades. Têm “timing”, presença do belo na cena. Jogam-se aos leões, mas apelam ao riso fácil. Talvez concentrarem-se + na personagem e menos no riso da platéia fechem melhor o jogo do fingimento. Mas é bonito vê-los, embora não seja concurso de miss.

Jean Carlos, o delegado durão, foge um pouco da rubrica da autora, mas não gera defeito, gera talvez enfraquecimento da dramaturgia. A insegurança na cena e a dancinha “dois pra lá, dois pra cá” seriam muito dispensáveis, não combinam com a personagem. Tem uma boa projeção, mas intimidada pelo exercício à profissão. Zeh Carlos copta ao caricatural de macaca de auditório, mas não perde a hora de se impor na cena. Tem presença a ser decantada.

Os outros colegas de cena, Antonia Rodrigues, Danielle Martins, Flávia Sousa, Giselle Tôrres, Iarla Ribeiro, João Paulo, Josinaldo, Malu Mendes e Orlene, compõem o conjunto em festejo do ato de encenar. Mantêm vigor em busca de acenar ao coletivo da representação proposta.

Os novos atores lançaram placar ao final da partida, de um ano e meio de banco escolar, agora é correr em busca do sonho e gerar mercado da profissão de ator. Merde!

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Teresina, capital do Teatro


Teresina, capital do Teatro
por maneco nascimento

Teresina prepara-se para receber, na segunda semana de agosto, de 6 a 11, os espetáculos selecionados ao 19º. Concurso Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Adalmir Miranda em + uma edição da cultura dos palcos, cenas, luzes e dramaturgias distintas e tão próximas do exercício primitivo do fingimento e mímesis da realidade afetiva reinventada.

Ao completar 19 anos, o “Ana Maria Rêgo” já facilitou intercâmbios e interagiu dramaturgias do Oiapoque ao Chuí, das cenas. Quem ainda não visitou esse grande encontro nacional, ainda planeja ou já está de malas prontas para dividir experiências do teatro brasileiro nos palcos de Teresina, capital do Teatro.

Depois de avaliar + de 30 montagens, para ser + exato, 31 inscrições e observar desenhos diversos para o ato de encenar, a partir de espetáculos vindos de todo canto do país, a Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, através da comissão de seleção,definiu as dramaturgias que serão vistas pelo público teresinense, convidados, amigos e concorrentes.

As montagens poderão ser conferidas nos palcos do Teatro do Boi, Theatro 4 de Setembro e Teatro Municipal João Paulo II, nas primeiras entradas de agosto, durante o aniversário da cidade. Na abertura do evento, dia 06 de agosto, numa segunda feira, o espetáculo convidado “Sobre Anjos e Grilos”, de Porto Alegre – RS, com Débora Finocchiaro.

Quando começar a disputa pelo primeiro lugar, no páreo de concorrência, estarão se desdobrando em tônus e vigor à encenação, dia 07/08/2012, “Aurora Boreal”, de Mossoró – RN, com Dionízio do Apodi e “Azulejo Branco”, de Fortaleza – CE, com Gabriel Matos. 

Dia 08/08/2012, “Sala, Quarto, Cozinha, Banheiro e Outros Lugares Menos Cômodos”, do Rio de Janeiro – RJ, com Andréa Cevidanes; dia 09/08/2012, “Primeiro Amor”, de São Luis, do Maranhão, com Raphael Brito; dia 10/08/2012, “Apareceu a Margarida”, de Belo Horizonte – MG, com Michelle Ferreira. 

E, para fechar o Ana Maria Rêgo”, na noite de premiação e homenagens, o espetáculo“Álvaro de Campos em Pessoa”, de Teresina – PI, baseado na obra heterônima de Fernando Pessoa. Na cena o ator, diretor e intérprete do espetáculo, Adalmir Miranda que, nesse ano é o homenageado especial e o prêmio do Concurso leva seu nome.

19 anos do Concurso Nacional de Monólogos Ana Maria Rêgo dá um livro da cena brasileira em que grandes intérpretes, diretores, iluminadores, encenadores, pesquisadores musicais e dramaturgos já deram o ar de sua graça e compareceram com toda força e energia que só a dramaturgia encenada é capaz de proporcionar.

Que venha o 19º. Concurso Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Adalmir Miranda. A Capital Nacional do Teatro é aqui e quem bebe dessa fonte nunca + esquece a geografia de luzes e palcos dessa cena fomentada.

sábado, 7 de julho de 2012

Eli(a)s & Nós

 Eli(a)s & Nós
por maneco nascimento

Registrar memórias para que não se percam nas dinâmicas orais, sempre será um ótimo exercício de construção material da história e, a memória cultural merecerá ter a poeira levantada para que se possa recuperar dias de construções sociais e artísticas. Quem nunca ouviu falar de Elis Regina, será um alienígena sem modos de curiosidade.

Então, falar do Bar Nós & Elis é um privilégio de uma geração de felicidade conquistada na cidade de pouco tempero, à época, para o caldeirão que fora forjado naqueles dias vividos. Natural do Bairro Piçarra, zona sul da cidade, também freqüentei alguns laboratórios de fomentação cultural de Teresina. 

Lugares de boa frequência cultural, a Feirinha da Praça Saraiva, comandada pela Sulica (Maria Luiza Vitória Figueiredo); os Folguedos na Prainha; os bares, cinemas (quando existiram) no centro; o Teatro 4 de Setembro e, naturalmente, o Bar Nós & Elis, que pegou pra todo mundo. Qualquer pessoa, de bom senso curioso, andejou por aquele que não era simplesmente um bar, mas um espaço cultural, onde se encontrava os amigos, havia shows e dividia-se apertado trânsito com assíduos e audazes.

Também estive por lá, para ver shows, atender ao apelo das Quartas Poéticas e, quando solicitado, também pisar aquele pequeno, mas aconchegante, palco para estrelas, iniciantes, iniciados e atrevidos. O espetáculo “Raimunda Pinto, Sim Senhor!, de Chico Pereira da Silva, montagem do Grupo Harém de Teatro, fez rir o público da Casa.

Era o Bar do momento e todos passavam por lá. Sair dali, para quem não tinha transporte e nem carona amiga, sobrava andar até determinado trecho e se virar como pudesse. Também andei de lá até a João XXIII, parada antes da Ponte Juscelino Kubitschek, portas do antigo Hortomercado Domingos Monteiro, atual Espaço Cidadania. Daquele ponto todo santo ajudava.

Ao ler o livro “No Nós & Elis – A gente era feliz – e sabia” (Idem. Teresina: Gráfica Halley, 2010. 180 p. – Memória Teresinense – Coletivo de Autores. Org. Joca Oeiras), um “revival” aos dias de belas noites “de guitarras, sonhos e emoções...”, de uma felicidade que não mata de saudade, deixa um gostinho de como era bom andar por aquela idéia de Elias Ximenes do Prado Jr., que alcançava qualquer pessoa sensível e de boa paz.

A obra organizada reúne depoimentos comoventes e reais, em alguns encontro identidade e testemunho. Os autores, Paulo José Cunha, Joca Oeiras (organizador), Paulo Moura, Albert Piauí, Aurélio Melo, Chico Castro, Climério Ferreira, Cruz Neto, Durvalino Couto Filho, Edvaldo Nascimento, Edna Nascimento, Emerson Boy, Feliciano Fifi Bezerra, George Mendes, Geraldo Brito, Ico Almendra, Jabuti Fonteles, João Cláudio Moreno, Kenard Kruel, Laurenice França, Luís Brandão, Machado Jr.

Cada um, a seu tempo, cozendo parte da colcha de retalhos da memória daquele mapa das histórias do “Nós & Elis” que completado, com dados entrecruzados e fatos comuns, por Maristela Grüber, Marta Tajra, Moisés Chaves, Natércia Rangel, Patrícia Mellodi, Paulo Aquino, Rosana Siqueira, Rosilândia Melo, Roraima, Rubervan Du Nascimento, Vera Mascarenhas, Wellington Dias, William Melo Soares e Zezé Fonteles.

Os registros fotográficos e hemeroteca (Instatâneos) completam o passado revisitado do Nós, do Elias, de Elis, da cidade e suas oportunas modernidades e sociabilidades que nos fazem repercutir sobre o que aprendemos em coletivas intenções e apreendemos em colheitas do melhor exercício perseguido pela humanidade, a busca da felicidade.

“O bar foi inaugurado em 1984, e o nome Nós & Elis, se deve ao fato de que Elias era um grande admirador de Elis Regina. Ele gostava da cantora e de sua irreverência. A música predileta dele era o Bêbado e o Equilibrista; sempre que tocava ele se emocionava (...)” (Mascarenhas, Vera. Sobre Elias Ximenes do Prado Júnior e o bar Nós & Elis. No Nós & Elis – A gente era feliz – e sabia. pag. 151).

Há 28 anos, alguns, éramos “tão jovens, tão joveeens...”. Nesse revirar do túnel do tempo, velhas memórias de risos, de saudades, pilhérias contadas, alcunhas registradas, mitos espalhados e toda sorte de amores, nem sempre tranqüilos, mas de paz e harmonia culturais guardadas na “parede da memória essa lembrança é o quadro que...” nos faz bem.

Eli(a)s & Nós vivemos feito tatuagem em dias que éramos felizes e sabíamos, sim.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Cadela Cinder(d)ela

Cadela Cinder(d)ela
por maneco nascimento
Outro dia, em incidental provocação da amizade, cruzei conversas diretas em horário de almoço com o ator, cantor, produtor cultural e polêmico Moisés Chaves, para os + íntimos, “Mocha”. Queria me emprestar alguns livros, na verdade, trocarmos interesses comuns pela leitura. Prometi-lhe um belo livro, romance trágico de autora piauiense, “Curral de Serras”, de Alvina Gameiro, natural de Oeiras - PI.
Em contrapartida de empréstimo, ele me adiantaria “A Casa de Isabel”, de Clara Mello; “No Nós & Elis – A gente era feliz – e sabia”, organizado por Joca Vieira e, “Reflexões de uma cadela vira-lata”, de Rivanildo Feitosa, publicada pela Mirabolante, obra primogênita deste jornalista, em que vou me deter nesse momento.
A cadela Sabiá que sabia que tinha alma de mulher, também (des) compunha-se em comportamento libertário, “vadio”, na busca de seu pássaro azul e, com objetivos fechados na conquista de seu sapatinho de cristal, por vezes pelo ilustrativo, hoje lugar comum, das “cachorras”, “vacas”, “piranhas” (aspeado para não ofender o animal), “vitaminadas”, “preparadas”, injetadas na música popular da periferia de centros urbanos e bailes funks e de forrós novidade, mas também de comportamento da “Geni”, licença poética do Chico Buarque, a que “dá pra qualquer um...”.
O novelo desvelado da saga da cadela vira puta, vira santa, vira ladra, vira lady, vira pobre, vira mulher, vai-se enredando para dias em casa simples, amada pela criança que acolhe e detestada pela mãe do menino que a despreza. Vida livre, dá-se com cães lazarentos, loucos, agressivos, amáveis, cães moleques sem saúde, mas especialmente dá-se ao prazer de ter prazer e, às vezes, escolher o “parceiro” cão ou lobo, ou lobisomem.
Rivanildo Feitosa, quem quis se enganar sobre ele perdeu a aposta. Tem uma escrita legal, inteligente, transversaliza pobreza, ignorância, mitos e lendas, vivências rurais e urbanas, ritos religiosos populares, sacros e profanos e mantém sua personagem entre o céu e o inferno em livre arbítrio, num fabuloso enredo, beirando ao real e fantástico, típicos da literatura latinamericana. Acerta bem.
Tem humor, construção de história coerente do universo escolhido e coesão aos padrões de escrita para bom entendedor seja rei nu, ou com trajes de chita. Comunica, diverte, atrai atenção à última página do livro e não mede escrúpulos para colocar palavras, de monólogo interior, na boca da cadela libertina e libertadora das próprias ansiedades e desejos (per) seguidos à flor do pelo.
Os discursos, ou polifonia embutidos, parecem refletir a vivência de observador e olheiro de narrador de terceira pessoa. Para vidinhas assépticas, “(...) A loira fica simplesmente abismada, por acharem que ela estaria entrando num espaço chique com uma simples cachorra sem raça (...)” (pag.98), ou sobrevivência maltrapilha “(...) Na primeira noite, com o Catador de Lixo Poeta, dormiu embaixo do Minhocão, disputando com outros sem-teto um pedaço de proteção da imensa ponte, (...)” (pags. 91/92).
A cachorra personagem reflete vida “cachorra” “(...) ia chegando mais um, mais outros em conjunto, formando um bando deles, muitos, de todas as idades, com uma diversidade de cores e de tamanho de pau, como ela gostava de apreciar para as constantes necessidades (...) depois de tudo que via e quando não tinha nenhum cão disposto (...)  Preferia hoje os da nova geração – era só soprar que crescia, ficando duro feito ferro.” (pags. 103/104).
Em geografias de outros bichos, detidos no universo do cabeça da cadeia alimentar, em que o animal (ir)racional travestido de cadela/mulher deseja alçar-se ao nível dos iguais. “(...) Perdida e sem esperança, chega novamente ao bairro dos imigrantes – estava com saudade dos sotaques carregados. Dorme naquela noite e decora o caminho para uma outra necessidade (...) Viveu o que queria na Cidade Grande. Agora, planejava voltar o quanto antes.” (pags. 95/96)
Já pensa como humana “(...) ‘Sempre tem algum caça-talento à procura de novas estrelas. Caso tivesse que usar o corpo, cederia, até juntar uma grana boa para produzir o visual e comprar uns vestidos bacanas, (...)´” (pag. 88), comporta-se como tal e, em licença do fabuloso, realiza proezas pouco comuns ao bicho “inferior” e melhor amig(o)a do homem.
“Josué conduz Sabiá pelas ruas movimentadas e largas da Cidade Grande. É surpreendido pelos passos dançantes da cadela sempre ao ouvir um forró (...) Com isso, ele ganha alguns trocados bons, atraindo um público encantado com a cachorra, que rodopia alegremente e late ao som do mais fiel ritmo musical do sertão.” (pag. 92).
Talvez a pressa em editar o livro e ganhar o prejuízo da ansiedade e até deslumbramento de vaidade mal burilada, tenha deixado à outra margem do rio, da linha literária, certos atos falhos em escrito a feito de resultado impresso. Há algumas falhas de revisão que, para produto caro e de ilustração impecável (Fernanda Barreto), deixa uma sensação de que “havia um erro no meio do caminho”, parafraseando Drummond.
Um amigo, autor, observa que a obra entregue a um bom revisor teria preservado peça que caminha em linguagem do criativo. Creio eu que, desviada do senso comum da literatice e, com qualidades que se apresentam como obra a ser consumida não só pelo cuidado da escrita, como pela intertextualidade com que mantém o fantástico popular e outros personagens emblemáticos da velha e ótima literatura nacional, a cadela Baleia, por exemplo, outro animal humanizado, de Vidas Secas (Graciliano Ramos).
A cadela vira-lata, de Rivanildo Feitosa, de vida própria e decisões pensadas, uma fábula da anti-heroína que faz as próprias escolhas e determina seu destino para viver entre o sonho e a realidade, o fantástico e o romântico bucólico e ou dantesco, o metamorfo e a vida de cão com coleira livre.
E, em injulgadas reflexões, aponta sobre o parceiro, homem, seu escolhido, que mantinha preferências por cadelas, “Zeca nem se importava com os comentários. E chegava a ironizar, brincando com o ditado popular que diz ‘o melhor amigo do homem é o cão’. Ele completava – ‘o melhor amigo do homem solitário e tarado como eu é o cãoDELA’.” (pag. 136)
A fábula é dela, a borralheira escolhe parceiros e abandona o salto de cristal para viver prazeres e desejos (re)colhidos à própria sorte de mulher-loba ou cadela.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O harém tá com a macaca


Harém tá com a macaca
por maneco nascimento

Ao estrear seu primeiro espetáculo autoral Macacos me mordam – A Comédia”, depois de + de vinte e cinco anos de carreira nos palcos locais e nacionais, o Grupo Harém de Teatroe, seu núcleo duro de elenco atual está, literalmente, com a macaca e vem com novidade, já para esse final de semana, a começar na sexta e ensebará as canelas até o domingo.
                                     (Experiencia da macaca e a maçã/foto: Margô Leite)
De 6 a 8 de julho de 2012, essa nova pérola do repertório hareniano, “Macacos me mordam... entrará em cartaz, às 20 horas, no espaço de novidade CIRCO HARÉM. O novo Projeto do Grupo para picadeiros, dramas, shows, palhaços, mágicos, micos e macacadas terá endereço de conhecimento público, na avenida Raul Lopes, ao lado do Parque Meus Filhos. 

Com o olho virado pra lua o Grupo Harém, com certeza, emplacará não só esse novo endereço de lazer, entretenimento e cultura provocada, mas o novo espetáculo que ainda estala de novo e já causa espécie aos críticos de plantão e orgulho a seu público cativo que o acompanha há + de meio século de laboratório do riso, drama, farsa e pesquisa de linguagem ao homem brasileiro no centro da cena.

Macacos me mordam- A comédia abre temporada de estreia no CIRCO HARÉM com enredo que reconta a saga da evolução de um grupo de macacos, da pré-história até os dias contemporâneos. Nessa “viagem” de dramaturgia histriônica todos (os sapiens sapiens do elenco) estão literalmente com a macaca. 

Obra do cabeção, irrequieto, Arimatan Martins, criador reconhecido por suas frases de efeito e humor ácido sobre acontecimentos da contemporaneidade e perspicácia de preencher um vazio com a piada cáustica sem medo de perder a amizade, reflete em"Macacos me mordam..." que não há que pedir licença para criticar costumes e personagens do cotidiano do país e do Piauí. A piada não vem pronta, mas elaborada com inteligência e tempo de maturar efeito.

A comédia autoral hareniana desliza por grandes momentos da história artística e científica, sem escorregar na casca da banana, e propõe explicar a origem e evolução do homem e da comédia. A peça se desenrola em capítulos que vão, pedagógica e ilustrativamente, demostrando alguns momentos dessa grande e curiosa descoberta da humanidade, a Evolução das Espécies, do cientista Charles Darwin. 

Dos primeiros macacos até as divas de Hollywood, Macacos me Mordam conta a história, que agora evoluiu no seu jeito de se contar”, revela Francisco Pellé, integrante do elenco composto ainda por Francisco de Castro, Fernando Freitas, Kiko Moreira, Emanuel de Andrade e Arimatan Martins.
                                                (macacos "in evolution"/foto: Margô Leite)

A direção e dramaturgia são assinadas por Arimatan Martins, que transfere-se à personagem de Charles Darwin, o naturalista inglês, durante o enredo de 50 minutos deMacacos me mordam – A Comédia”. A peça será apelo garantido à risada saudável e necessária aos dias obscuros desse Brasil de cachoeiras artificiais e benesses graciosas a companheiros, camaradas, bichos emplumados e bicudos e legendários da sempre situação, seja de coronéis ou juventude ascendente.

A peça será apresentada no CIRCO HARÉM, de 06 a 08 de Julho (Sexta a Domingo) sempre no horário das 20h, com ingressos a R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia).
Mais Informações: (86) 3223-2325 begin_of_the_skype_highlighting GRÁTIS (86) 3223-2325end_of_the_skype_highlighting ou 9406-2842.

Serviço:
Sexta (dia 06/07) 
20: 00h-
 Espetáculo de Circo, com a Família Acioly e Participação do Mágico Zaron.
Espetáculo Teatral - MACACOS ME MORDAM - A COMÉDIA - Grupo Harém de Teatro.
23: 00h-
 Show Musical com o Conjunto ROQUE MOREIRA.
                          (Daniel Huck e Cia. - Banda Roque Moreira/foto: divulgação)

Merde! É a palavra de ordem.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

A Mostra do Teatro João Paulo II bombou.



A Mostra do Teatro João Paulo II bombou.

por maneco nascimento


Os dias 30 de junho e 1º. de julho de 2012 foram de alegria, magia, festa e resultados de arte e público bem pra lá de eficientes. As atividades da Mostra de Resultados – 1º. Semestre -Oficinas de Arte do Teatro Municipal João Paulo II foram muito, muito agradáveis de se ver.As apresentações culturais ocorreram na Praça Aberta, às 18 horas e no Palco do Teatro, às 19 horas, sempre com uma concorrência de público extraordinária.
(Quadrilha Explode Coração: Oficina Alfabetização do Corpo - 3a. Idade)

A movimentação de público começa desde cedo, a partir do quebrar do sol e cair da tarde ensolarada. O ajuntamento na praça vai ganhando forma e, quando chega a hora do “show”, os olhares curiosos e atentos aos resultados das oficinas praticadas nas dependências do João Paulo II têm sua expectativa confirmada. 

Mantidas pela Prefeitura de Teresina, por meio da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, as oficinas de Iniciação ao Balé Clássico, Dança Contemporânea, Dança de Salão, Jazz, Teatro, Percussão, Violão, Desenho e Pintura e Alfabetização do Corpo direcionado ao público da melhor idade), são oferecidas gratuitamente à comunidade do Dirceu Arcoverde e entorno.

(Público da Mostra de Resultados 1o. Semestre, na Praça Aberta) 

As respostas vêm da assistência aos Resultados e, consequentemente, das novas inscrições realizadas a cada edição da Mostra de Resultados. No final de semana, sábado, dia 30 de junho e domingo, dia 1º. de julho houve concorrência muito positiva no que foi demonstrado ao público. Normalmente as práticas artísticas da Casa são apresentadas duas vezes, cada uma. 

Qualquer coreografia que for vista um dia, na Praça Aberta, é repetida dia seguinte no Palco. Dessa forma é criado um padrão de apresentações que apontam o que a comunidade está praticando nas oficinas, como também abre precedente para que crianças, adolescentes, jovens, adultos e idosos possam ter a experiência de confronto com o público em ambiente aberto e de câmara.

No dia 30 de junho, às 18 horas, na Praça Aberta, foram vistos das oficinas da Casa as coreografias “Espanhola” e o “Circo” (Balé Clássico – Manuela Monte); “Forrozinho das Danadinhas” (Balé Clássico – Sidh Ribeiro). Nas performances teatrais viu-se “As pérolas de D. Maria”, “Enfim, só...!” e “O velório” (Iniciação ao Teatro – Roger Ribeiro). 

(Turma Balé Clássico/instrutora Manuela Monte) 



("As pérolas de D. Maria"/Iniciação ao Teatro, turma de Roger Ribeiro)
(Turma Balé Clássico/instrutora Manuela Monte) 

Entre os grupos residentes e convidados, à Praça, as criações “Acordando no ritmo da dança” (Grupo Residente Stylo Livre – Bruno Jardel); “Farofa Mix” (Grupo Residente DC Dance – Zé Chaves); “Baile” (Nuclinho de Dança do NAI Dirceu – Beth Bátalli) e “Essência” (Bátalli Cia. de Dança). 

Ao palco, nessa noite, Alfredo Werney e sua turma de violão apresentaram repertório entre o samba, baião do Gonzagão e outras pérolas. As coreografias Jaraguá” (Dança Contemporânea – Fernando Freitas); “Quadrilha Explode Coração”(Alfabetização do Corpo – 3ª. idade – Vanice Oliveira); “Encantos e Magia”(Balé Clássico – Manuela Monte); “Rio”(Dança Contemporânea – Beth Bátalli) e “Salsa” (Dança de Salão – Fernando Freitas). O Grupo residente, Lego, trouxe seu “Pocket show”. 

Em 1º. de julho, na hora da Praça Aberta, à inversão das apresentações das oficinas da Casa, quem se apresentou no palco, dia anterior, fez as suas vezes a céu aberto. Todo o repertório do dia 30(da Casa) + o Grupo residente Capoeira Contemporânea (Leonardo Sousa e Diego Alessandro) que saudou os amantes da ginga e tradição da capoeira. Entre os convidados, o artístico de “O pequenino” (Bátalli Cia. Dança, coreografia de Douglas Lima), “Duo – Me dá a honra dessa dança?” e “Trio Pipoca”(Núcleo de Dança NAI Dirceu– B. Bátalli) e “Álbum coreográfico”(Bátalli Cia. Dança).


O bailarino infante, Pedro Sá, que se convidou a participar da Mostra, parece ter-se sentido constrangido com a possibilidade de dançar na Praça. Talvez não tenha percebido que o artista dança em qualquer palco. Não conseguiu persuadir os colegas, outros da escola clássica, a desistirem das apresentações. Ponto positivo aos bailarinos que abrilhantaram a praça que é do povo. Pedro Sá, artista só de câmara, obscureceu sozinho.

O dia 1º., hora do palco, orgulho a quem se viu representado na última noite. Pais e amigos orgulhosos dos filhos em momento de artistas. Plateia superlotada e concentrada aos últimos encantos de dramaturgias reveladas. As atrações da Praça, dia 30, investiram-se no tablado e + convidados e residentes, “Eu”, “Álbum coreográfico” e “Essência” (Bátalli Cia. Dança); “Dissidência” (Grupo Residente DC Dance – Zé Chaves); “Reação em cadeia” (Grupo Residente Stylo Livre – Bruno Jardel) e “Jump” (Nuclinho de Dança NAI Dirceu – B. Bátalli).

(Público da Mostra de Resultados - 1o. Semestre, na plateia) 

A Mostra de Resultados – 1º. Semestre, do Teatro Municipal João Paulo II, cumpriu + uma etapa e não fez feio. Toda essa gente bacana dançou para ver o evento brilhar e quem não dançou que dançasse, porque arte é para ser desempenhada na rua, praça ou na agenda de palco, quando for planejado.

Viva a arte dos iniciados!