terça-feira, 13 de novembro de 2012

Brinquedo de humor


Brinquedo de humor
por maneco nascimento
Nem sempre o humor está atrelado ao talento “nato”. Alguns piadistas enveredam pela coragem de fazer humor, não é sempre que acertam. A linguagem de fazer rir, às vezes, pode ser um brinquedo perigoso. Há o diverso da manifestação, o humor negro, o de mal gosto, o politicamente incorreto, o discriminatório e preconceituoso, etc.,
Mas há, em todos os aspectos do apelo ao fazer riso e entretenimento, uma pecha de defesa de quem defende sua prática do bom humor. Há quem diga que perde o amigo, mas nunca a piada. A Aristóteles é atribuída a máxima de queo homem é o único animal que ri de si mesmo”. Assim, a piada e seu humorista arrastam séquitos à religião do gargarejo.
Fazer humor é sucesso garantido no Brasil, que é um país, por excelência, bem humorado e de força criativa rica do histriônico e risível premeditado. Humor inteligente é tarefa para poucos, os que alcançam a cereja do “drink”. Mas há exemplos desse bom humor na publicidade, no cinema, na tevê, na literatura, na música,  no cotidiano brasileiro da piada pronta.
Às vezes alguém derrapa na maionese estragada e ai faz muito feio. E ai será hora de pagar a conta. Um jornalista da cidade perdeu a chance de ser só profissional da mídia. Como letrista de samba, tentou ser engraçado e não deu muito certo.
A Justiça do Piauí condenou o carnavalesco José Marques (Zé Marx) a pagar uma multa no valor de três mil reais de indenização por danos morais, à família da estudante Fernanda Lages.  Em fevereiro deste ano, o cantor compôs e divulgou nas redes sociais, uma marchinha que faz alusão ao caso Fernanda Lages. A família da estudante, Fernanda Lages, que foi encontrada morta em um canteiro de obras, em agosto de 2011, processou o carnavalesco por danos morais e injúria. Para o advogado da família, Lucas Villa, a atitude de José Marques representa falta de respeito para com a família e os amigos da estudante." (www.vooz.com.br/notícia/Publicado em 12/11/2012 às 15h50)
Já tratei desse assunto, à época, em texto chamado “Você abusou...” em que usei assunto da mídia. "O Portal Vooz publicou matéria, hoje, com a manchete: ‘Uma marchinha divulgada na quinta-feira (16) está gerando polêmica nas redes sociais e até mesmo fora dela. A marchinha que faz alusão ao caso Fernanda Lages, foi criada pelo carnavalesco José Marques (Zemarx).’” (www.vooz.com.br/publicado em 17/02/2012, às 15h16)
Àqueles dias de fevereiro deste, internautas se manifestaram sobre o que o dublê de sambista estava tentando fazer. Publicada no facebook, a paródia intitulada “Marchinha da Fernanda Lages”, criou espécie, tanto que acabou em processo condenatório. Entre os manifestantes, colhidos do facebook, do músico e ilustrativos da matéria atual sobre a condenação, tem-se:
 “Retratos do Piauí – ‘Rpz, achei isso de muito mal gosto, vc devia retirar, não se brinca com uma tragédia dessas.’ Há 4 horas 1”; “Alex Carvalho – ‘Zemarx meu brother isso não foi legal.’ Há 4 horas 1”; “Marcos de Oliveira – ‘Mesmo contendo um pouco de humor negro isso pode ajudar para q esse crime não caia no esquecimento.’ Há 4 horas”  e “Clerys Derys Derys – ‘# não foi engraçado José Marques Zemarx’” (Justiça condena compositor Zé Marx.../www.vooz.com.br/Publicado em 12/11/2012 às 15h50)
A publicação negativa levou o rapaz a recuar, mas já era tarde demais. O estrago já estava feito e as redes sociais, ao preço da vaidade, são armadilhas fatais.
Após a publicação no facebook e percebendo a repercussão negativa de sua postagem, José Marques retirou a postagem do dia (16/02) e publicou a marchinha, modificada, nesta sexta-feira(17). José Marques substituiu o nome de Fernanda, por “Maria” e disse ainda que qualquer semelhança era mera coincidência.” (www.vooz.com.br/publicado em 17/02/2012, às 15h16)
O moral dessa história, que acabou mal, é que não se deve mexer com o que está quieto e quando trata de honra, moral e silêncio dedicado aos mortos, é bem melhor não cometer injúrias, mesmo querendo exercitar o engraçado, porque corre-se o risco de perder muito + que um amigo.
E humor, assim como qualquer aptidão inata, não ficou mesmo para todo mundo. Senão o mundo seria uma piada e nem tudo precisa ser jocoso. Lição aprendida.


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Assim bate a vida


 Assim bate a vida
por maneco nascimento

Diz o dito popular que para morrer, basta estar vivo. Então vivemos e morremos a cada dia. Há quem diga que começamos a morrer no momento em que rebentamos a placenta e vazamos útero afora da mãe. De sorte é que nunca sabemos exatamente quando será nosso momento. Alguns antecipam sua passagem, outros escondem o jogo e outrens são pegos de surpresa.

Manchetes desse Brasil, de vasta extensão territorial, nos dão mostras de que muitos morrem vítima de bala perdida; da violência de torcidas de futebol; da guerrilha urbana entre polícia bandida e bandidos, propriamente; da polícia e comandos armados; das milícias e seus desdobramentos da infâmia social; de fome; de sede; de seca; de chuva, de injustiça e de descuido de obrigações sócio políticas e de muitos outros exemplos de que a morte só quer uma desculpa”. E ela vem sempre.

Desse final de semana último para esta segunda feira, 12, a notícia, que nos desvia das manchetes contumazes da violência desenfreada, é da morte precoce de um dos nossos galãs de tevê. Quem foi criança em dias da década de 1970 terá uma boa memória afetiva acerca do ator Marcos Paulo.

Ele tinha 61 e morreu na noite deste domingo (11) de embolia pulmonar. Marcos Paulo foi diagnosticado com câncer em maio de 2011.” (g1.globo.com/pop-arte/notícia: 11/11/2012 22h15 – Atualizado 12/11/2012 08h33)

(M. Paulo/foto divulgação tvglobo/joão miguel junior)

Aos noveleiros de plantão haverá sempre uma lembrança de alguma novela em que o galã esteve presente. Depois de algum tempo, preferiu dirigir os folhetins e, em raras incursões, se poderia ainda vê-lo interpretando uma personagem na telinha mágica.

Câncer
Marcos Paulo havia sido diagnosticado com câncer em maio de 2011. Segundo comunicado da Central Globo de Comunicação divulgado na época, o diretor havia descoberto o tumor precocemente em exames de rotina e tinha dado início ao tratamento em seguida (...) Marcos Paulo Simões nasceu em São Paulo, em 1º de março de 1951, e foi criado no bairro do Bixiga. Ele era filho adotivo do ator e diretor Vicente Sesso, o que lhe garantiu contato precoce com a TV. Sua primeira novela foi “O morro dos ventos uivantes”, da TV Excelsior, em 1967 – ele tinha 16 anos. Passou ainda pela Record e pela Bandeirantes antes de ir para a TV Globo, em 1970
.” (Idem)

Naqueles dias entre 1973 e 1974, como muitos da minha geração, acompanhei a trama de Lauro César Muniz, ao horário da 19h, que reunia os doces namoradinhos dos Brasil, Regina Duarte, Cláudio Marzo, Marcos Paulo e Débora Duarte (no papel da namoradinha neurótica). Um sucesso de audiência, a recepção da novela, que assistíamos, eu e meus irmãos, na casa de um vizinho. Trama ainda produzida em preto e branco. 






(M. Paulo, nos idos de 1970/foto linha do tempo: facebook/colhida 12/11/2012)

Marcos Paulo começou a trabalhar na TV Globo em 1970. Sua estreia ocorreu na novela Pigmalião 70, também de Vicente Sesso, ao lado de Sérgio Cardoso e, mais uma vez, de Tônia Carrero. Em seguida, trabalhou em A Próxima Atração (1970), de Walther Negrão, e em Minha Doce Namorada (1971), de Vicente Sesso, sempre em papéis de galãs de boa-índole (...) Em 1973, atuou na novela Carinhoso, de Lauro César Muniz, como o piloto de corridas Eduardo. Seu personagem formava um triângulo amoroso com Regina Duarte e Cláudio Marzo.” (memoriaglobo.globo.com)

Dirigiu sucessos, como “Dancing Days” (Gilberto Braga – 1978) e “Roque Santeiro (Dias Gomes – 1985), entre outros grandes trabalhos na tevê. Como galã das novelas ou diretor fez seu nome e marcou história na teledramaturgia nacional. 

(...) dirigiu também as novelas Brilhante (1981), de Gilberto Braga; Roque Santeiro (1985), de Dias Gomes; Fera Ferida (1993) e A Indomada (1997), de Aguinaldo Silva; Salsa e Merengue (1996), de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa; Meu Bem Querer (1998), de Ricardo Linhares; Força de um Desejo (1999), de Gilberto Braga; Porto dos Milagres (2001), de Aguinaldo Silva; e O Beijo do Vampiro (2002), de Antonio Calmon (...) dirigiu os seriados Plantão de Polícia (1979) – no qual também atuou –, Delegacia de Mulheres (1990) e Carga Pesada (2003), além da minissérie Parabéns pra Você (1983), de Bráulio Pedroso. Participou do projeto de criação do seriado Armação Ilimitada, em 1985, e foi diretor de alguns episódios do Caso Especial (1972-1992) e do Você Decide (1992).” (memoriaglobo.globo.com)

Todos morrem (os) um pouco todos os dias. Nossos ídolos, amigos, pais e filhos, irmãos,  camaradas, amores e paixões também passam. Quintana em Poeminho do contra reflete passagem e nos dá breve poesia, “Todos esses que aí estão/Atravancando meu caminho,/Eles passarão.../Eu passarinho!” (Prosa e Verso, 1978)


Marcos tão passarinho, enquanto criador, passou. Mas deixou memórias e histórias em rico triunfo do prazer e trabalho realizados à licença poética da televisão. Que o mundo outro também o absorva aos sets e planos livres do princípio da criação.

Assim bate a vida e seus reveses à nossa porta. Essa e todo o outro universo, (des) conhecido, também importam e elevam boas lembranças.

sábado, 10 de novembro de 2012

Vêni, vídi, víci


 Vêni, vídi, víci
por maneco nascimento

À noite de 09 de novembro de 2012 confirmou-se,
 no palco do Theatro 4 de Setembro, o momento de coroação de + uma edição do FestMonólogos “Ana Maria Rêgo”. Promovido pela Prefeitura de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves e tendo à frente dos trabalhos árduos o coordenador do evento, Antoniel Ribeiro.

Marcada no livro de memórias do teatro da cidade, a fogo e ato pragmático, a
 XIX Edição do Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Ano Adalmir Miranda. Para os amantes do teatro, belas manifestações e linguagens apropriadas de pesquisas, talento, virtuose e sujeito de cena viva, o(a) intérprete em solilóquios e verdades do fingimento.

Os estados representados, Maranhão (São Luis), Ceará (Fortaleza), Rio Grande do Norte (Mossoró), Minas Gerais (Belo Horizonte), Rio de Janeiro (RJ) e Piauí (Teresina). Os monólogos respectivos,“Primeiro Amor”; “Azulejo Branco”; “Aurora Boreal”; “Apareceu a Margarida”; “Sala, Quarto, Cozinha, Banheiro e Outros Lugares Menos Cômodos” e “Álvaro de Campos em Pessoa”.

Uma disputa acirrada, ao diverso de signos lingüísticos, à linguagem apropriada de dinâmica do teatro. Disputa esta acompanhada de perto, pelos jurados (diretores e atores de teatro) Guido Campos (GO), Francinice Campos (CE) e Luciano Brandão (PI), se pode confirmar céus e terras visitadas em dramaturgias compensadas pelo esforço de concentrar respostas à arte de encenar e fingir estratégias de convencimento.

Em terreno de concorrência, naturalmente há o momento de laurear os que merecem em obediência ao rito da ação cênica testada e atestada ao fazer teatral. O Grupo (Núcleo de Pesquisas Teatrais Rascunho), representante do Maranhão (“Primeiro Amor”) levou o Prêmio Especial de Incentivo à Pesquisa e o de Melhor Sonoplastia (Abimaelson Santos).

O
 Rio de Janeiro (“Sala, Quarto, Cozinha, Banheiro e Outros Lugares Menos Cômodos”) abocanhou o Prêmio de Melhor Atriz (Andréa Cevidanes) e o Prêmio de Melhor Espetáculo do Júri Popular. Minas Gerais (“Apareceu a Margarida”) levou o Prêmio de Melhor Cenário.

A cidade de Mossoró (RN) foi a grande vencedora do Festival. O espetáculo “Aurora Boreal”. A montagem potiguar ficou com os Prêmios de Melhor Ator (Dionízio do Apodi), Melhor Espetáculo, Melhor Direção (Dionízio do Apodi), Melhor Figurino e Melhor Iluminação (Maxson Ariton e Dionízio do Apodi).

(recorte do Jornal De Fato, de Mossoró (RN)

O ator e diretor piauiense homenageado, nesta Edição - Adalmir Miranda - fechou o evento com chave aureada da lírica portuguesa para pessoas de Pessoa. O espetáculo performance “Álvaro de Campos em Pessoa” continua sendo a melhor obra realizada pelo artista local, à cena aberta composicional, prospectada em sensível pesquisa a refinado resultado.

Aos dezenove anos de existência o
 FestMonólogos não perde o registro da memória afetiva, daqueles dias na década de 1980 em que se deu o pontapé aos ritos iniciáticos de primeira edição, encima da carroceria de um caminhão, às portas da casa do ator Galdirã Cavalcante, no bairro São Pedro. 

Esta edição de 2012 deu-se em ano de vacas magras e olha que não teve nada a ver com a falta de chuva no nordeste. Talvez as políticas públicas de cultura é que foram perdendo seu nordeste nessa terreno árido, de pouca atenção ao fator cultural das cenas locais. 

Ao longo desses dezenove anos em que o Festival “Ana Maria Rêgo” fez presença, muito brilho de artistas da cena que cumpriram seu papel de revelar a personagem. 2012 também selou sua obra de insistência em não deixar a chama apagar.

Com todas as dificuldades apresentadas, percalços debelados, a semana de 6 a 09 de novembro de 2012
 revitalizou a vontade de nunca desistir, precedida pelo desejo de dar vida ao palco do XIX Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo" que veio, viu e venceu + uma batalha da defesa de território, já determinado pela arte da cena.

Como o general cônsul romano (
Júlio César em 47 aC.) ao proferir orgulho e proclamar seu feito ao senado imperial, acerca de recente vitória sobre Farnaces II do Ponto da Batalha de Zela, a coordenação do FestMonólogos também pode, sem qualquer prurido, pronunciar a bons ouvidos latinos:

(Dionízio Aurora Boreal do Apodi/ foto: divulgação

“Vêni, vidi, vítchi” (pronúncia romana). “Vêni, vídi, víci” (pronúncia indicada por Aurélio). “Vim, vi e venci.” (Pequeno Dicionário Jurídico de Expressões Latinas). Para um bom português expressado, a batalha foi vencida com louvor.

E, para ficar na paráfrase shakespeariana, “a sorte foi lançada, viu-se uma boa vitória”. Combate pra gente (vi)ver!


sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Flor ditada


Flor ditada
por maneco nascimento


Nesta última quinta feira, 08 de novembro de 2012, fechando o certame de concorrência ao XIX Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Ano Adalmir Miranda, o Theatro 4 de Setembro recebeu, no tablado, uma nova invenção de Dona Margarida, às 20 horas.

Apareceu a Margarida”, de Roberto Athayde vem, na esteira do deus-Exmachine, revelar Michelle Ferreira, uma jovem mineira que realizou um sonho de montar umas das + visitadas peças da dramaturgia nacional. Com direção de Camilo Lélis, o texto de Athayde recebeu adaptações e atualizações do Grupo Flores de Jorge Cia. Cênica e facilitou o aparecimento de Michelle e sua flor de tirania escolástica.

A novidade veio dar à cena, na qualidade rara de “serei a nereida”, no paradoxo de atrair a atenção da classe (público) e confirmar o desejo e a vontade de manter a plateia fiel à tirania da professora tradicional que se utiliza dos artifícios da lição ditada do aparelho reprodutor de pedagogias de dominação, seja da cultura oficial, ou da contra cultura crítica.

da sedução e a chantagem, passando pela demagogia até a repressão aberta, para maltratar a sua turma de alunos e envolvê-los no seu universo de desvario. O despotismo da personagem vem sendo tratado, desde então, como figura de linguagem para falar de todo regime de dominação, sobre as questões concernentes ao poder, tendo a sala de aula como microcosmo desta sociedade disciplinar; o banco escolar como primeiro estágio para o adestramento.” (release)

Cenografia eficaz, para dramaturgia de metalinguismo do didático e pedagogismo ilustrativo, vem abocanhando força no desenrolar da narrativa de Dona Margarida, de Michelle Ferreira. Os signos e lições escolares que surgem das távolas de exercício de aprendizagens já elaboram uma dinâmica da pedagogia da cena propositada. Beber a água do vaso de flores, uma ironia entre o escatológico e o louco perspicaz que aciona vida a objeto que poderia ser mero sinal composicional de contrarregra.

A luz de D. Margarida vem reforçada pela Iluminação dramática que desenha o caos e a redenção do caos da personagem lançada às feras. Aquece e (des) mistifica a cena e a intérprete em metodologia de encenar. O Figurino funcional e de estética direcional ao discurso intrínseco e dominador, numa maquiagem de parecer de neutralidade de cor, quando na verdade se impõe para leitura contextual de céu cinza de condor, ou de sala de aula de conteúdos impositivos.

Michelle Ferreira constrói uma Margarida econômica, sem os impáfios da literalidade, ou rubrica textual original e segue numa postura entre o falso dócil e a violência freada pela composição, talvez aproximada + da docilidade da atriz. Não parece haver qualquer ingenuidade, de escolha da montagem, na cartografia de definição dramática. Aparenta deslizar pelo tênue e sóbrio percurso de fugir do lugar comum e caricatural da densidade violenta de D. Margarida e, essa escolha, por vezes, não consegue dominar “o aluno (a)” de natureza resistente a qualquer imposição superior de ordem e regra.

Os solilóquios e silêncios, na metacena, construídos para reforço da falsa delicadeza e ministério da coerção da Margarida, de Michelle, agregam o corpo e fala da personagem em conluio permitido com a intérprete impregnada pela paixão da própria cena, em apropriados esquemas da dramaturgia possibilitada pelo esforço da Flores de Jorge Cia. da Cena.

Uma atriz de estatura mediana que vaza uma Margarida, filha de Dona Margarida, de Athayde, e cresce em força e magia do teatro, para efeitos de lúdico e outros estratagemas do ciclo rotacional dramático.

Michelle Ferrreira, sem sombra de dúvida, atracou na praia certa e, às vezes da sereia de Gilberto Gil, em mundo tão necessariamente desigual, deverá sofrer antropofagia, mas também saberá, como Piaimã, engulir seu público e preservar a pedra muiraquitã para toque teatral.

Sociologia teatral


 Sociologia teatral
por maneco nascimento

A noite do último dia de concorrência do XIX Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Ano Adalmir Miranda, que teve como sede de apresentações o palco do Theatro 4 de Setembro, foi das mulheres. Dia 08 de novembro de 2012, a partir das 19 horas, se conferiu os concorrentes, vindos do Rio de Janeiro e Minas Gerais. 

O primeiro espetáculo da noite, “Sala, Quarto, Cozinha, Banheiro e Outros Lugares Menos Cômodos” (RJ) pontuou, em 60 minutos, um exercício de franco atirador, definindo exatamente onde deveria acertar o alvo. Andréa Cevidanes, com direção dela, compartilhada com Gilvan Balbino, um furacão na cena em definição do (a) intérprete e sua escolha de exercer um bom fingimento.

Teatro que, a princípio, faz aparentar linguagem ligeira, por aproximar-se de dramaturgia com efeito de sucesso, a método muito praticado no eixo Rio/São Paulo e outras províncias reprodutoras do riso e do entretenimento fugazes. Algum sinal de maneirismos de “stand up”, ou exercício da improvisação e interativo de impacto da cena ativada pelo termômetro do público, logo se desfaz. É debelada qualquer aproximação de teatro “fácil” por si mesmo.

Há um tratamento de radiografias sociais sob a égide de discutir e refletir mulheres e suas histórias comezinhas, de profunda prospecção da alma humana e suas singulares experiências de vida, num contorcionismo de perfis das personagens à atriz e da atriz ao objeto pesquisado. Feito de forma livre e risível, nada condenável, pois numa das interfaces do teatro. E rir de si mesmo, como diria Aristóteles, é, nessa montagem, mote agradável do animal racional em praticado ato de convencer.

"O monólogo-documentário “Sala, Quarto, Cozinha, Banheiro e Outros Lugares Menos Cômodos” nasceu de entrevistas com seis mulheres aposentadas que se dedicam ao lar. A pesquisa durou seis meses e sua concepção partiu de uma reunião de almas femininas. No palco, a atriz Andréa Cevidanes apresenta as histórias dessas mulheres em cenas que misturam drama, comédia, tragédia e absurdos da vida cotidiana.” (assunto de release)

Na transversalização de linguagem, tendo também com suporte as novas tecnologias, a atriz Andrea recebe o público enquanto o filma e, simultaneamente, exibe o material colhido em telão ao fundo da cena. Dialoga com o espectador, através do câmera/telão e abre, nesse prólogo, um modelo de interação cênica e comunicação por novas mídias em quebra do paradigma de tradição, contornando as barreiras e paredes do quarto elemento teatral.

Dramaturgia de apresentação das personagens, em narrativas “neutras” da atriz que antecedem os “sketchs”, quadros que se vão alinhavando ao conjunto da obra. A montagem elastece um cordão de Ariadne e, aos poucos, se vai sendo envolvido no universo do drama e cômico das mulheres abordadas com acertada qualidade, azeitada, da atriz/jornalista/cronista de costumes das vidas expiadas.

Da Cenografia, muletas e caixas de guardados de onde vão sendo retiradas as personagens, a seu tempo e contexto na costura da narrativa. A adolescente funkeira virgem; a jovem dependente química e mãe de filhos protegidos pela maternidade imposta aos avós das crianças; o transsexual com sonhos de maternidade e a dona de casa que prepara um churrasco, enquanto avisa aos convidados que precisará comparecer a uma audiência, em juízo, movida pelo genro chifrado.

Teatro de quadros, atriz de tranqüila e certeira teoria e tese de objeto esmiuçado, dramaturgia convincente e de proposição de prever felicidade na recepção, em interativo articulado com o prazer do artista criador e ação vívida de arte de fingir e fingir bem. Cena doada nas medidas da arte e olhar às sociologias culturais de teatro, fora dos padrões das velhas chaves de Rebeca. 

Há corpo quente, alma sólida, espírito criativo, discurso social, politicamente correto, inquietações e conflitos inerentes a qualquer arte, mas há, sobretudo, operário (a) da cena em confecção de novas perspectivas, “curiando” a vida alheia em reflexão da vida da gente. A cena do espelho da madrasta que não reflete a transsexual, ou melhor a da imagem virtual(ideal) que está do lado de cá do espelho e depõe de costas para o público, um emblema significante a significados abertos.

A Iluminação de preparação, ou apresentação de cenas, cumpre o papel. A que recorta os rostos das personagens, no detalhe, sutiliza sensibilidade e ciência da cena.

Andrea Cevidanes vence a própria coragem e ousadia de apresentar monólogos recortados por personagem narradora “distanciada” e torna-se candidata à coroa de louros consignada da parreira do próprio sacrifício de concorrer aos riscos.

E, pela máxima júliocesariana, vim, vi e venci, + uma guerra de permanência teatral foi conquistada. É orgulho nacional, também fora do discurso de gênero. Nesse momento de FestMonólogos, se detém olhar + direcionado ao da dramaturgia laborada. Andréa serve ao propósito insistido, e “dane-se o que quiser”, é imperativo encenar.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Absurdo e academia


 Absurdo e academia
por maneco nascimento

O concorrente do XIX Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Ano Adalmir Miranda, na quarta feira, dia 07 de novembro de 2012, às 20h30m, no palco do Theatro 4 de Setembro, atravessou o rio Parnaíba, vindo de São Luis do Maranhão. Para digestão das fábulas existenciais e inquietações humanas, os jovens artistas e estudantes da licenciatura de artes cênicas maranhense desvendaram uma leitura de obra samuelbecktiniana.

Primeiro amor”, com Raphael Brito e direção de Abimaelson Santos, assinala em release: 

(...) a história de um ser, de um homem, de uma espécie, que ao contrário de outras, não está em extinção, mas presente no contexto de vida de cada indivíduo, afirmando a natureza intratável dos apegos humanos (...) Revelando um momento catastrófico de sua vida, uma voz sem nome conta uma história deprimente, escatológica, lírica e surpreendente: a sua (...) Nesta caminhada, encontra o que chama de seu primeiro amor. Talvez um grande obstáculo ao seu desejo de livrar-se do contato com outras pessoas e confirma seu presente vivendo o passado.

Na cena, propriamente, Raphael Brito andeja, nos 50 minutos dramáticos, pela cartografia elemental do exercício para o ator e sua obra, a arte de revivificar o fingimento. Com tônus acadêmico e marcas limpas vai a personagem, sem nome, forjando seu tempo ou não tempo das horas de discurso dramático que atrai ao teatro da suspensão, na contramão semântica do mapa aristotélico e às vezes do Becket e seu absurdo.

Uma trupe de acadêmicos das cênicas justifica sua proposta de dramaturgia revelada, que passaria pelo teatro contemporâneo e repescagem de métodos científicos da dramaturgia universal experimentada. Há uma referência pensada e executada à partitura do corpo e sonoridades apropriadas na pesquisa da dramaturgia do ator e seu método.

A cenografia, caixotes brancos que sugerem caixões ou outros objetos utilitários ao enredo apresentado, posto que o caminhante espacializa experiências da rua, cemitérios, casas e bancos de praça. A desconstrução cenográfica, aplicada durante as narrativas, ilustra pedagogia de entendimento que demonstre deslocamentos e ações, ou ratifique a não negação da dinâmica de aproveitamento do material cênico.

Ator concentrado para falas e oralidades prospectadas de novela, prosa, de Samuel Becket e inflexões que delineiam conflitos e ditos, não ditos, silêncios obreiros do confuso das falas que estão para ser ditas pela boca do sujeito dramático em ressonância barulhenta existencial. Raphael mantém uma desenvoltura empertigada que concentra ato e marca dramáticas na liberação do vetor de teatro experimentado.

(Raphael Brito em "Primeiro Amor"/ foto: divulgação)

Há em alguns momentos de angústia, da personagem, em que as falas do ator se mimetizam no metralhar do desesperado planejado, mas que cria ruídos comunicativos. Se proposta de não precisar ser compreendido, perdoa-se. Se deslize interpretativo, ou o teatro possível do dia específico, então a ciência da cena requer burilamento para melhor recepção de quem participa da fragilidade intensa da personagem.

Abimaelson Santos, no constructor da facilitação de dramaturgia de cena e pesquisa musical depreende desenho que não compromete o corpo dramático em execução. Consegue, em parceria com o intérprete, gerar impactantes odes a aflitos de identidade com a obra expiada. Imagens e indução a corpo intencionado para lingüística própria, variável à dedução de gestos laborais ainda escolásticos. Maturidade e regurgito da teoria científica dará uma natural organicidade a pleito, já em pleno despertar da primavera teatral.

A iluminação recorta ações e intenções apropriadas à dramaturgia composta e define caminhos sutis aos passos e riscos assumidos, na montagem, à personagem reverberada. “Primeiro amor” aquece o coração do público, inquieta e abre conflito que gera reflexão e volta ao conflito das atenções de quem se detém na cena aberta e obra de teatro.

Como todo primeiro amor, intenso e intempestivo das paixões (in) consequentes, também terá seu tempo de ressaca, maturação e reinvenção do amor arrebatador. Logo estará suave e concentrado como estalar degustado, em hidratação da sede que se impõe nas aventuras da práxis teatral. 

Vontade e desejo, saciados pelo sabor das vinhas de Baco, é futuro de toda manifestação teatral que se inquieta e garimpa experimentações.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Fé n(d)a cena


 Fé n(d)a cena
por maneco nascimento

“Aurora Boreal”, do Rio Grande do Norte (Mossoró) norteou o segundo momento da programação de concorrentes ao XIX FEstMonólogos “Ana Maria Rêgo” – Ano Adalmir Miranda, na noite do dia 06 de novembro de 2012, às 20 horas, no Theatro 4 de Setembro. 55 minutos pancada, num virtuoso “ensaio” de ator com Dionízio do Apodi que dirige, atua e aplica dramaturgia construtivista, na pedagogia da cena grotowskiana e seu teatro pobre, do ator no centro da cena.

Dionízio em elementar ato, meu caro Watson, conspira teatro tenso, denso, poético, lúdico e científico, variando entre o impressionismo e expressionismo de dramaturgia limpa, para dramas e distanciados revezes à construção da personagem. A cenografia, uma cadeira e um ator, narrador em domínio da história revelada. Conflitos entre a fé à religião e à busca da crença na felicidade dão mote ao enredo rico de interpretação e polifonia da memória relatada pelas vozes que reverberam dramáticos efeitos.

Seguindo uma linguagem franca e no risco da maturidade experimentada por “O Pessoal do Tarará” à dramaturgia própria, a montagem alia-se ao rito grotowskiano de que “no teatro, que tudo saia do ator” e apresenta uma experiência em que a presença do intérprete será todo o teatro. Brinquedos livres e de pertinácia da experimentação transformam a narrativa num enleio para diálogos de clareza apaixonantes, onomatopaicas liberdades lingüísticas e corpo que (trans) pira qualidade comunicacional.

Como numa brincadeira infantil do “tá quente, tá frio”, a dramaturgia constrói o denso e depois abre janelas para refrescar a tensão dramática. No “quente” a platéia interage nas vezes da personagem, no “frio” é facilitada a contracenar, fazer-se personagem, direto, da narrativa. A economia dos gestos, em sustenidos, ou os graves sonoros da melopéia engajam felicidade de participação ativa do público, na práxis do fingimento, para transdiscurso teatral aplicado.

O intérprete é apaixonante, a(s) personagem(ns) cativante(s), a lingüística proposicionada exala teatro vivo e de inteireza cênica para todo entendedor, sem brechas ou ruídos na comunicação. A dramaturgia brinca de felicidade, enquanto perpassa conflitos do homem dividido entre a escolha da fé, ou da esperança no amor de uma mulher.Também reflete ações que deslizem do convencional para abraçar sentimentos liberados das obrigações cotidianas, fugir do inconsciente coletivo de senso comum das amarras sociais (im)postas.

Dionízio do Apodi nos deixa uma lição de amor, de fé na cena, crença da cena experimentada para o exercício da construção do ator e da personagem. “Aurora Boreal” abre luminosidades e lampejos do teatro sem medidas falseadas, só arte e cultura prospectada na experiência buscada, na força e compreensão solidária do ato de encenar para somar.

Homem, cena, memórias e histórias se completam em esforço concentrado e técnico, numa organicidade de excelência do teatro amador, já que amante da arte do fingimento. Existencial porque humano, humano porque da natureza da espécie que reflete a si mesma, artístico porque reelabora a própria compreensão do objeto questionado a pertencimento e identidade do receptor.

Aurora Boreal”, talento e técnica versejados para novo olhar da cena nacional. Labor artístico a pesos e medidas determinantes do entendimento da cena premeditada. Evoé, filhos de Baco!