quarta-feira, 15 de junho de 2011

Cena de Fé


por maneco nascimento

Com vida iniciada em 2005, a Cia. Técnica do Teatro tem, ao longo dessa caminhada, professado fé aos ritos da cena e do ato religioso dramatizado. Para a cena de rigor dramático realiza, há três anos, no quintal do Teatro Municipal João Paulo II, o espetáculoO Auto de Nossa Senhora de Fátima”, encenado pela primeira vez no ano de fundação da companhia.

A última montagem concretizada ocorreu no dia 29 de maio de 2011, às 19 horas, para um público concentrado na mímesis do milagre de Fátima. Com texto adaptado por Ricardo Sousa, também responsável pela direção de cena e desenho dramatúrgico, “O Auto de Fátimatem força de intenção e crença na verdade cênica apresentada.

O espetáculo a céu aberto, em noite de lua nova e estrelas por testemunhas, traz elenco composto por técnicos do Teatro Municipal João Paulo II e quinze atores iniciados na Cia. Técnica. Welton Sousa, na pele do prefeito do sítio de Fátima, consegue um tempo de dublagem regular, mas segura. É convincente.

Thiago Borges, incorporando Cristo na via crucis, é de uma verdade simples, mas emblemática. Comove o público encetado na paixão representada. As marcas trágicas de linguagem universal também elidem na composição de Thiago. Reforça o conjunto representativo.

Gisele Morais, a Nossa Senhora desse ano, marca forte presença. Consegue, em suas aparições como a Virgem de Fátima, apreender, à locução dublada, entonações doces e ao mesmo tempo sem qualquer carga de drama comum. Seu timbre vocal e sua particular dinâmica lingüística dão caráter neutro, mas expressivo às vozes da Senhora, manifestada no lugarejo de Fátima.
 
O cuidado técnico aos efeitos de luz e névoa dá às aparições uma qualidade estética que as transformam nas melhores cenas vista no espetáculo. As cenas das crianças no campo enquanto dialogam com a Santa cumprem seu papel.

Os atores, das vezes de Lúcia (Iara Carvalho), Francisco (Matheus Monteiro) e Jacinta (Mary), por vezes parecem não saber onde por as mãos. Não conseguiram, ainda, integrar-se ao espaço integrado do drama com todo o crédito necessário ao fingimento do intérprete. Talvez necessitem maior atenção da direção para que organicizem a naturalidade com que compõem as crianças escolhidas para testemunho do milagre.

Esses mesmos jovens atores (Iara, Matheus, Mary) são + concentrados nas cenas domésticas, quando dialogam com a mãe (Sônia Sousa), ou quando são aprisionados pelo Prefeito. As dublagens não deixam margem de que querem acertar sempre. Os silêncios do intérprete do menino Francisco falam + que todas as outras ações pulverizadas no grupo das crianças. 

Da parte técnica, a dramaturgia encenada se tivesse um enxugamento do tempo, de uma cena para outra, ficaria + leve, mesmo com a densidade natural que ato dramático exige. 

A trilha (Ricardo Sousa) que desenha o enredo, por vezes muito extensa, desgasta o pragmatismo que deve acompanhar a prática de teatro de campo. Especialmente, na temática religiosa, o tempo musical requer uma dinâmica quente que sustente a atenção do público.

A cenografia e efeitos especiais, de Leonardo Sousa, dão um toque prático e eficaz às cenas de aparições, prisão e inferno. A árvore resplandecendo luz é de uma plástica comovente. A Iluminação de Marcos Paulo e a Operação de Sonoplastia de Herberth Rogger também estão incorporadas ao conjunto.

A cena do inferno poderia aglutinar um número maior dedemôniospara preencher todas as frestas do obscuro e danado do submundo. Com um número tão reduzido, encolhe a intenção de causar impacto. Sendo o contraponto do luminar núcleo de Nossa Senhora, a quem deveria confrontar, se impõe enfraquecido.

Mas “O Auto de Nossa Senhora de Fátima” que ainda reúne (Antonio Marcos, Marcos Paulo, Richardy, Michael Rennan, Karina, Andressa, Joany, Tiago Silva) explica o milagre, compõe o histórico revisitado e professa a fé que acena à razão e sensibilidade do teatro planejado de práxis revigorada.



domingo, 12 de junho de 2011

Pra descontrair

Pra descontrair
por maneco nascimento

O Grupo Humanitas de Teatro de Timon(MA) aportou no Projeto Temporadas Populares do Teatro Municipal João Paulo II, para ocupar as quartas feiras de junho, sempre às 20 horas. A estréia do Grupo dentro do Projeto ocorreu na quarta feira, dia 08 de junho de 2011. O espetáculo, “Meu último amor acabou antes de ontem”.

Texto e direção de Junior Marks, a montagem aborda encontros e despedidas de um grupo de amigos em ambiente de mesa de bar. Um garçon, sempre atento às conversas do grupo, interativo das confidências e diligente no atendimento à mesa mais quatro amigos recortam a dramaturgia.

O grupo rememora as desilusões, remoendo as horas contadas da amizade envolvente, mesmo que nas inconfidências. O texto cumpre o papel de entreter na cena e a dramaturgia de palco é funcional, partindo da composição inicial de imagem em “freezer” para o solo das personagens que vão ganhando vida a seu tempo.

Eristóteles Pegado, o garçon, tem desenvoltura econômica e divertida nas intervenções silenciosas e intrusivas durante as conversas particulares dos quatro amigos. Traveste-se ainda, como em memória de “flash back”, compondo personagens lembradas no papo trivial. Está à vontade.

Jerônimo Macedo, o pegador sem uma lembrança próxima do último amor, é uma caricatura do macho alpha do grupo. Soa comum. Os trejeitos de construção corporal da personagem ficam na margem do risível. Maior instrospecção composicional ao “gostosão” do pedaço, talvez surtisse melhor efeito dramático que tornaria o cômico + concentrado, sem o apelo fácil.

Adriana Campelo tem um corpo natural que despertaria o riso sem dificuldades, caso aproveitasse-o melhor à organicidade do texto, sem atravessar o humor, já intrínseco, com apelo do engraçado pelo fácil. Algumas inflexões textuais são perdidas pela pressa da participação, ou pelo descuido de ouvir com + tranquilidade a si mesma. Tem um “timing” que poderia ser melhor explorado.

Flávia Sousa tem boa projeção de voz e se não corresse tanto para livrar-se do texto, talvez tivesse mais sucesso na composição da personagem da mocinha sonhadora e dependente das decisões do sempre último amor. Sua voz natural, muito aberta, cria uma estranheza a quem ouve o texto saído de sua boca. 

Exercícios de técnica vocal que projetasse as inflexões + pelo palato dariam um ganho significativo. Flávia já tem uma projeção natural bem clara, faltando apenas uma amaciada no timbre estridente. A energia e a presença em cena da atriz melhor concentradas operariam milagres.

Júnior Marks tem uma apropriação segura de seu próprio texto, é engraçado até em aproveitar sua natural voz nasalizada e, por vezes, aguda. Tem tranqüilidade de improvisação, mas por vezes perde-se no que pareceria vaidade em encenar. 

Quem o conhece fora de cena não vê muita diferença entre o Júnior dos maneirismos orais próprios e trejeitos corporais particulares arrastados ao palco. Um bom ator, mas que prefere trabalhar sob o risco do menor esforço de composição da personagem.

Meu último amor acabou antes de ontem”, com desenho dramatúrgico de Marks é de bom riso, entretém e não chega a ser enfadonho. Com maior equilíbrio dos diálogos, silêncios e passagem de tempo ficaria com uma boa dose de humor + redondo. 

A peça tem estilo, com melhor concentração talvez conseguisse o propósito perseguido. A dispersão da comédia não é na cena, mas na platéia que ri melhor quando colhe maior entendimento da piada.

Nem Santo, nem Porca


Nem Santo, nem Porca
por maneco nascimento

Não há o Ariano festejado, nem muito menos o esperado. Então o que dizer do Santo ou Porca tão ricos da dramaturgia do nordestino arretado e lambido, com todo o merecimento, por toda a praça brasileira que conhece a jocosa história do velho usurário e sua porquinha rica em moedas.

Um dos + queridos e montados textos brasileiros,O Santo e a Porca”, de Ariano Suassuna, chegou ao palco do Teatro Municipal João Paulo II, no último dia 11 de junho de 2011, às 19 horas, causando espanto e decepção ao público presente.


Montagem do Grupo Teatral Kimulengo’s, e assinatura do dublê de diretor Lívio Bastos, a peça é um rosário de descabidos e erros primários de dramaturgia encenada. Aprendiz de ator e instrutor da Oficina Permanente de Teatro “Palhaço Beleza”, no Teatro do Boi, Lívio Bastos falha a partir da própria audição.

Aprendi com a experiência que o homem que não ouve bem, se comunica muito mal caso não debele as dificuldades. No teatro então um bom ouvido opera milagres. Xana de Sousa(Wilson Silva) é o melhor exemplo de vencedor das dificuldades. Deficiente auditivo, é um ótimo ator e faz as vezes de diretor sem comprometer a profissão e a prática cênica.

Com o aprendiz de encenador, Lívio Bastos, o ruído de comunicação parece ser mais grave. Desde o início da encenação, vista dia 11 de junho no Teatro João Paulo II, o volume das músicas que trilhavam a peça estava muito alto. Não se ouvia o elenco, incomodado fui recomendar-lhe sobre minorar o som estridente.

Bastos saiu com essa pérola: “Deixe, deixe é assim mesmo. Depois a crítica vai falar.” Dei o assunto por encerrado, voltei para a platéia. Desde então foi um festival de desmandos cênicos. Jovens atores se esforçando à realização do que criam ser exercício acertado. O som já um grande despropósito.

As entonações, intenções e inflexões textuais perdidas no ar da ignorância cênica maquiada. A caricatura mal assimilada dos exemplos populares da televisão aparecia na busca de uma construção corporal. Ingênuo e desesperado desejo de acertar foi o que se viu no elenco mal orientado.

Uma hora e quarenta minutos de adolescentes e jovens buscando o caminho das pedras da mágica práxis do fingimento. Não se conseguiu ver o momento em que o universo conspira ao mágico elemento dramático se assentar.

Talvez Lívio Bastos devesse voltar ao texto para uma leitura de compreensão e convidar pessoas das cênicas, melhor abalizadas, para estimular nos jovens atores a descoberta do mais elementar exercício teatral. Percepção do próprio corpo; apreensão do pisar na cena; projeção de voz; ouvir a si mesmo e ao outro; descobrir a espacialidade a ser explorada no palco. Talvez essas primeiras noções pudessem ser estimuladas no próprio Lívio Bastos.

Parabéns a Thérita Silveira, Marri Silva, Patty Oliveira, Larissa Sousa, Dalva Frazão, Yza Monteiro e Francisca Lima pela empreitada corajosa, mas tão incipientemente mal conduzida. Um time de mulheres versejando curiosidade e boa intenção, mas nem mesmo o teatro vive só de boa intenção.

O Santo e a Porca”, montagem assinada por Lívio Bastos e seu Grupo Teatral Kimulengo’s não encontrou a porca fuçadeira tão rica em Suassuna. Também não há santo que obre milagre em ato de grave desconhecimento do efeito dramático. 

Tentativa tão particularmente equivocada, talvez merecesse revisão imediata. Para que não se incorra em convencimento dos jovens atores de que o “aprendizado” da profissão está sendo operado.

"A juventude que essa brisa canta" precisa ser melhor orientada, seja para o teatro seja para a vida comum.

sábado, 11 de junho de 2011

Sala de Leituras


Sala de leituras
por maneco nascimento

A Operação Dom Quixote, realizada pela Fundação homônima, conseguiu + um efeito espetacular aos dias de Piauí e Teresina, a concretização do SALIPI, versão 2011, de 5 a 12 de junho do corrente.

Ao realizar mais um SALIPI - Salão da Feira do Livro do Piauí, a Fundação Quixote, em mais uma de suas quixotescas ações, prova que maior é o céu das esperanças que as terras áridas de investimentos encolhidos. E como diria Alves, “A praça é do povo...”, o povo tomou conta da PII, onde talvez melhor se concentre grandes eventos públicos em praça da cidade.

Pelo segundo ano, realizado na Praça Pedro II, de frente para o Theatro 4 de Setembro, ainda fechado, e também de frente para a Central de Artesanato “Mestre Dezinho”, o Salão do Livro do Piauí ainda é uma Sala para as + diversas e abertas leituras e visitas vultosas. 

Sala porque fica espremida entre dois espaços públicos, o Centro de Artesanato pouco explorado e o Theatro 4 de Setembro que permanece fechado para reforma (a passos de Ben Hur). Mas Salão porque de abrangência orgulhosa do grande público das escolas do entorno da PII, das que se deslocam de outros logradouros e do público contumaz daquele corredor de passagem.

Gente que chega pra ficar e gente que vai, mas quer ficar, parafraseando o poeta. De sorte é que o SALIPI é sucesso no Bate Papo, no Língua Viva, nos encontros e despedidas aos novos reinícios. O trânsito livre nos stands e assinaturas diversas para serem escolhidas e ou preteridas.

A vida é forjada para ser como se planeja. A Sala de Leituras se desdobra em grande Salão fervilhando curiosidades, cultura, arte e bons propósitos de pescar um novo leitor. São cortejos de crianças, adolescentes e jovens cruzando as ruas e faixas, em filas escolares, realizando o prazer da atividade extra classe.

Ônibus, caravanas do passeio à feira popular da leitura e do encontro com a língua da nossa literatura e alhures. A comissão organizadora do SALIPI, impingida a trazer o Salão à praça por ter um centro de convenções fechado à reconstrução (a passos de um “Ben Hur” e um “E o vento levou...”), ficou melhor na fita ao plantar o evento na Pedro II.

Ganham mais o público elástico - que ficava hermetizado sob a laje do antigo centro de convenções da cidade - e o Salão mais aberto, agora guardado pelos cordões das ruas Payssandu, David Caldas (também literato), passeio fechado da Senador Teodoro Pacheco e Treze de Maio.

Uma caixinha de letras despejadas aos visitantes, amigos, artistas/escritores e colaboradores de oito dias pancada! O Salão do Livro do Piauí, segundo consta no marketing local, um dos + organizados do Brasil, é também o que maior orgulho causa a todos os piauienses.

Cumpre seu papel com eficácia hercúlea, com força apolínea, com beleza e verdade de lingüística gregária desdobrada e de poética aristotélica derramada de paixões ibero-latinas, sem perder a matemática cartesiana de dois e dois para cinco novos conceitos abertos.

Outro dia, também visitante, me vi em outro pai levando meu filho para escolher seus próprios livros. A Sala de Leituras é um livro de visita com história de obra aberta, enredando futuros fora da lógica do capital segregador.

Vende-se cultura, dá-se prazer a espíritos abertos a liberdades fomentadas, faz-se luz: SALIPI!


Sala de Leituras


Sala de leituras
por maneco nascimento

A Operação Dom Quixote, realizada pela Fundação homônima, conseguiu + um efeito espetacular aos dias de Piauí e Teresina, a concretização do SALIPI, versão 2011, de 5 a 12 de junho do corrente.

Ao realizar mais um SALIPI - Salão da Feira do Livro do Piauí, a Fundação Quixote, em mais uma de suas quixotescas ações, prova que maior é o céu das esperanças que as terras áridas de investimentos encolhidos. E como diria Alves, “A praça é do povo...”, o povo tomou conta da PII, onde talvez melhor se concentre grandes eventos públicos em praça da cidade.

Pelo segundo ano, realizado na Praça Pedro II, de frente para o Theatro 4 de Setembro, ainda fechado, e também de frente para a Central de Artesanato “Mestre Dezinho”, o Salão do Livro do Piauí ainda é uma Sala para as + diversas e abertas leituras e visitas vultosas. 

Sala porque fica espremida entre dois espaços públicos, o Centro de Artesanato pouco explorado e o Theatro 4 de Setembro que permanece fechado para reforma (a passos de Ben Hur). Mas Salão porque de abrangência orgulhosa do grande público das escolas do entorno da PII, das que se deslocam de outros logradouros e do público contumaz daquele corredor de passagem.

Gente que chega pra ficar e gente que vai, mas quer ficar, parafraseando o poeta. De sorte é que o SALIPI é sucesso no Bate Papo, no Língua Viva, nos encontros e despedidas aos novos reinícios. O trânsito livre nos stands e assinaturas diversas para serem escolhidas e ou preteridas.

A vida é forjada para ser com se planeja. A Sala de Leituras se desdobra em grande Salão fervilhando curiosidades, cultura, arte e bons propósitos de pescar um novo leitor. São cortejos de crianças, adolescentes e jovens cruzando as ruas e faixas, em filas escolares, realizando o prazer da atividade extra classe.

Ônibus, caravanas do passeio à feira popular da leitura e do encontro com a língua da nossa literatura e alhures. A comissão organizadora do SALIPI, impingida a trazer o Salão à praça por ter um centro de convenções fechado à reconstrução (a passos de um “Ben Hur” e um “E o vento levou...”), ficou melhor na fita ao plantar o evento na Pedro II.

Ganham mais o público elástico - que ficava hermetizado sob a laje do antigo centro de convenções da cidade - e o Salão mais aberto, agora guardado pelos cordões das ruas Payssandu, David Caldas (também literato), passeio fechado da Senador Teodoro Pacheco e Treze de Maio.

Uma caixinha de letras despejadas aos visitantes, amigos, artistas/escritores e colaboradores de oito dias pancada! O Salão do Livro do Piauí, segundo consta no marketing local, um dos + organizados do Brasil, é também o que maior orgulho causa a todos os piauienses.

Cumpre seu papel com eficácia hercúlea, com força apolínea, com beleza e verdade de lingüística gregária desdobrada e de poética aristotélica derramada de paixões ibero-latinas, sem perder a matemática cartesiana de dois e dois para cinco novos conceitos abertos.

Outro dia, também visitante, me vi em outro pai levando meu filho para escolher seus próprios livros. A Sala de Leituras é um livro de visita com história de obra aberta, enredando futuros fora da lógica do capital segregador.

Vende-se cultura, dá-se prazer a espíritos abertos a liberdades fomentadas, faz-se luz: SALIPI!


quarta-feira, 1 de junho de 2011

“Ela” por elas

por maneco nascimento
O espetáculo “Ela”, que estreou há um pouco + de três anos, com incentivos da Lei A. Tito Filho, através da Prefeitura de Teresina/Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, assinaturas de Roteiro e Direção de João Vasconcelos e Direção Coreográfica de Valdemar Santos, voltou à cena no último dia 31 de maio de 2011, às 20 horas, no Teatro Municipal João Paulo II.
Dessa volta do estaleiro, a montagem de dança/teatro que, segundo o programa original, “transpõe em seu roteiro fases da mulher universal em que é revisitado o princípio da criação Homem/Mulher desde o nicho primevo(África – berço da humanidade) e aporta no Brasil indígena para em seguida ganhar força recortando o contexto sócio-histórico da revolução industrial (...)” é um muito imberbe espetáculo revisitado.
Natural que haja uma nova visão. Em outro momento e com substituição de bailarinos para a repaginada experiência mostrada nesse maio de 2011. Á época da estréia, ocorrida com pompas e circunstâncias, tudo foi festejado dentro da estética emblemática, bem depurada, e impacto imagético bem definido.
A dobradinha João Vasconcelos e Valdemar Santos se preservou. No elenco modificado, sobreviveu, da montagem original, Elizabeth Báttali. O novo corpo de “Ela” trouxe as novidades Cleide Fernando, muito segura e eficaz; Bruna Santos estreando profissionalmente sem deixar dúvidas de que foi uma boa escolha ao projeto.
Também compõe essa reestréia Artenildes Afoxá que, com experiência de dança mais livre e de histórico de manifestações afro-descendentes, fica muito aquém do mapa desenhado para uma técnica específica de dança/teatro que se impõe por uma neutralidade dramática econômica e segura, encontrada nas meninas com noções de dança acadêmica.
No corpo de estréia, como bailarino imposto para o projeto, está Luis do Vale. Personagem chave no contraponto dramático de “Ela”, não consegue dar sangue à arte do fingimento. Ilustra uma imagem sem tônus, nem energia da personagem masculina da dramatização e enfraquece o conjunto. Elas estão por si só. Talvez essa escolha precise ser revista, sob risco da boa experiência do passado cair no pueril.
Mas o “Ela”, de 2011, traz duas crianças que preenchem a cena com mais graciosidade que a performance de 20% do trabalho adulto. AlziraRisa e Andresa Báttali refrescam o drama, com propósito dramatúrgico. A inclusão das crianças no ambiente operário, do começo do século 20, atualiza o contexto sociopolítico e denuncia o trabalho infantil.
Os futuros são carregados de memórias confirmadoras do passado. Belchior talvez não tivesse construído memória musical tão legal, como “a felicidade é uma arma quente (...)” (“Saia do meio caminho”), caso não tivesse intertextualizado Beatles, traduzidos por Drummond, em “a felicidade é um revólver quente”. Ninguém está preso ao passado. O passado é parte carne de quem constrói futuros.
O sangue pagão verte-se também de traços divinos e o DNA das memórias é de todos os recortes temporais. Pound e Gaudí deveriam ser leitura obrigatória a quem não acredita no passado. O “Ela” do passado continua sendo a melhor referência para o que se viu nessa nova investida, trazida à cena em 31 de maio último.
O desenho dramático e estético continua fiel ao sinal iniciático quando “Ela” surgiu. A dramaturgia coreográfica também se impõe. O elenco é que precisa ser melhor depurado, porque senão “Ela” por elas desaparecerá na fogueira das vaidades estabelecidas.

Selvagem

por maneco nascimento
“(...) e o homem amestrado executou de maneira prodigiosa sua última imitação do lobo. Agarrou com unhas e dentes os apavorados animais arrancando-lhes pedaços de pele e carne, abocanhou uivando as carnes vivas e bebeu-lhes o sangue quente, com os olhos embriagados de prazer”. (Hesse, Hermann. O Lobo da Estepe. 2ª. ed., Rio de Janeiro: BestBolso, 2010, 250p.,trad. Ivo Barroso)
Com todas as lições escolares que os imberbes aprendizes levam para casa de um dia estudantil, nunca as experiências da vida cotidiana puderam fazer frente menor, se testadas com as teorias e teses de observação do mundo dinâmico e imprevisível.
A vida é a vida sendo mesmo como ela sempre é. A teoria, por sua vez, é testada porque ciência. Ciência da especulação, da comprovação, do placebo e do exaustivo resultado cientificamente testado.
O diverso viés da ciência pode em toda sua construção do conhecimento experimentado dar ao homem o que é do homem e ao lobo o que é da natureza lupina, embora às vezes o mundo do homem esteja impregnado da natureza primitiva e animal.
A “fuga” do mundo primitivo, se se considerar que a civilidade afastou a humanidade de comportamentos “condenáveis”, mas contumazes das eras rudes e irracionais, espelhou pessoas e novas efígies do mesmo tronco humano, porém evoluído.
Hoje, nos novos tempos, de novas empreitadas e novíssimas perspectivas a cada piscar de olhos, em que se avança em conhecimentos renováveis, parece que as sociedades desse futuro seguem na contramão das estabilidades sócio-emocionais. A vida está + difícil, os dias + violentos, a ética + desprezada e a morte de estatística + densa.
Hobbes, que se referiu ao homem como lobo do próprio homem, parece ter melhor compreendido a selvageria do racional contra seus pares. O cabeça da cadeia animal parece ter confundido seu papel evoluído, ou perdeu de vez a cabeça já que a razão virou peça menor no jogo da vida de sobrevivência.
Um pa(i)drasto, em Canto Alegre (SC), conseguiu matar  a própria cria. Um bebê de um ano morreu em decorrência de traumatismo estomacal. A criança levava socos no estômago porque chorava. Enquanto a mãe de três filhos trabalhava, seu companheiro, desempregado, torturava o bebê chorão.
Um pai de sete filhos, em Registro (SP) torturava sua prole, pois dono de suas vidas. Sua mulher abandonou a família por não suportar a violência do marido, não agüentava + ser espancada. Deixou três filhos com a própria mãe e os outros quatro ficaram à sorte do marido agressor.
Outras histórias estarrecedoras: amante matou criança, filha do companheiro, porque a relação amorosa acabou. Uma Medéia às avessas. No Pará, terra de ninguém, grileiros e traficantes de madeira mataram José Cláudio R. Silva e Maria do Espírito Santo. Os lavradores de Marabá foram exterminados por denunciarem o desmatamento ilegal.
A cada piscar do lobo, nova presa é destroçada, impedida de seu livre arbítrio. Jovens classe média podem se divertir ateando fogo em índio, espancando prostitutas e moradores de rua, exterminando homossexuais. Nada + será nem próximo de como estão os dias de hoje, amanhã.
Caso os céus não nos dêem uma vereda de salvação, os dias de selvagem serão lugar comum da autodestruição.