por maneco nascimento
Em algum lugar do passado, em uma das melhores experiências de Teatro viajor, nos encontros dos em extinção Festivais da Cena Brasileira, ouvi da boca de um mago dos palcos nacionais: "Ari, tu é diabólico!"
Não havia, na expressão ditada, ao testemunho de uma plateia de artistas de um Festival Brasileiro de Teatro[ConFeNaTa], nenhuma repulsa, ou crítica negativa, mas um elogio na estética da semântica ampliada e fora dos crimes e pecados remoídos pelo remorso das igrejas e dos subterfúgios de anátema, ou estigma nebuloso, a decaídos em desgraça "divina".
O autor do elogio, Celso Nunes. O elogiado, Arimatan Martins, à época na defesa de "O Auto do Lampião no Além", de Gomes Campos, montagem que percorreu Festivais e marcou espécie, enquanto vida útil. De lá pra cá, uma vintena de anos desde que esse elogioso gracejo, vindo de um ótimo diretor de Teatro, definiu talento, ousadia, esperteza, "feeling" dramático e uma inteligência a serviço da cena que aspira viver.

Um roteiro dramatúrgico, criado a partir da história de Vida e Obra sempre-viva do "vulgo" Molière, deu um Duplo, o perspicaz e atraente Teatro de encenação aristotélico-brechtiniano "Duplo Molière", este de feitura criativa assinado por Arimatan Martins, o + novo autor de textos-encenação, o Ari, para os amigos.

Não poderia dar outra coisa: Teatro vivo! Da alegria, vicissitude, inteligência, humor venal e crítica social dos costumes, jamais em desuso, de Molière, a trupe do Harém vê-se facilitada à pena de Martins e, "Brincando encima daquilo"[In Memoriam da Grande Marília Pêra], constroem riso, humor, carpintaria naturalista e distanciada para a cena peculiar e garantida da escrita do Harém.

Seis Personagens em Busca de Um Autor[para nunca esquecer Pirandello] encontram Arimatan e desvelam seus gracejos, em intercurso com o Autor e Obra homenageados. "Duplo Molière", na linguagem de Teatro de Rua, ou para a Rua, apresenta o simples limpo, complexo, dramático que dinamiza ideia, contextos, memórias sociais e História de humanidades de Autor e Personagens bifurcados.
A desconstrução dramática de carpintaria arimataniana serve-se a roteiro direto, pragmático e de moderna arquitetura que revela, sem esconder o matiz do arco-íris que leva ao pote de ouro, bronze ou prata, a partir da recepção + desarmada, ou reticente em ver Teatro, mas sempre um jogo para Medalhas.
A música incidental, ao vivo, instrumentada por Fagão, pontua o ponteiro horário que enreda medievalismo e pós-modernidade na linguagem da cena. Os figurinos, vide Bid Lima, demarcam a segunda pele, das personagens dos intérpretes, à das personagens que intervencionam ao olhar do público.
Enchem de cor que remetem ao Maior Espetáculo da Terra, a arquétipo de comèdie-del'arte, aos bufões dos carroções que cortam fronteiras e chegam aonde o povo está, em diálogo de estética que medievalize interações contemporâneas.
O Corpo que fala no corpus da Cia. Teatral encontra ecos além do mito das cavernas[Platão], com + ordem e tônus equilibrado em Fernando Freitas[ator, bailarino e coreógrafo que atira-se ao abismo em voo definido]; em Marcel Julian[que detém movimentos numa economia premeditada, de ator e método pela observação e experimentação]; Kaio César[que parece trazer consigo um corpo neutro que se enche de tônus e intenções para medidas trabalhados].
Língua, linguagens e falas na forma e natureza, garantem o Teatro do Harém e, faz deste o sucesso de + de 30 anos de história e memórias da cena brasileira, posta à arena de famintos olhares, na busca de gracejos e identidade dramática.
Em Luciano Brandão[que varia entre um cobrador PRL a la Pierre Baiano e outro mais defendido, quando compõe o Advogado empertigado]; Francisco de Castro[marca ainda pontuações de essências anteriores, embora domine texto, atenções e intenções diferenciais às construções das suas personagens] e Francisco Pellé[em corpo falante bonachão à histrionia peculiar de marca e relevo que o faz o ator de suas boas Estrelas].
Não há descrédito, há + Teatro de propósitos que varia na linguística e na assinatura do Grupo que, salvo quem torce o nariz, fica na contabilidade de construir Teatro como só o Harém está para a Cena Piauís, assim como a nova cena brasileira está para a diversidade criativa continente adentro, país afora.
Da dramaturgia de interações estético de composição cenográfica[Emanuel de Andrade], os elementos e contrarregras entrecruzam-se e vão cosendo eficazmente o jogo de signos. A carroça do cortejo do Morto, um veículo medieval atualizado; os núcleos de constrói/desconstrói personagens e cenas, um desarrumado estético sem sujeiras, numa falsa pretensão de caos, mas potência[para ficar em Nietzsche].
O veste, troca, compõe, descompõe, refaz, repara, aplica pedagogia de narrativa da montagem da cena e defende as buscas do fora e dentro, do descortinado e total rompimento de paredes dramáticas, pois Teatro Popular de Rua.
O desenho de palco e maneirismo de demonstrar a didática dramática de contar Molière é força que atomiza, no simples, brincar de verdades de mentiras cênicas e não perder a fila que evolui de Molière a Arimatan, em circular da invenção da pólvora, ou da máxima de Lavoisier, ou ainda de repetirmos o diferente no igual, pois marca da humanidade a contextos.
É Harém. É Teatro. Tá vivo e Brook sabe disso. É "Duplo Moliere" e o invisível visibilizado aos átomos, em matéria dramática, é arte, lúdico, ciência e estética, linguagem, tema e tempo de Teatro, logo esfinge decifrada.
Meu duplo vê no Harém o "Duplo Molìere". Tenho dito.
fotos/imagem: (reprodução/divulgação/page Francisco de Castro)