domingo, 14 de agosto de 2011

Aboio teatral


Aboio teatral
por maneco nascimento

Vindo de Goiânia, tangendo um boi feito homem e um homem para as vezes do boi, Guido Campos fechou a semana de espetáculos concorrentes ao 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes, dia 13 de agosto de 2011, na terra apropriada do Theatro 4 de Setembro, com virtuose de lição de amor bem aprendida. 

Com “Boi”, em 50 minutos de duração e direção de Hugo Rodas, o ator Guido Campos inicia, para tempos de apresentação, recepção e prólogo de espetáculo, uma interação variável entre carnavalização de abre atos e provocação do público ao incentivo de integrá-lo à “farra” do boi.
 (Guido Campos: "Boi"/foto: Layza vasconcelos)

O texto que abre a cena, propriamente, é o do primeiro pé plantado no curral. Faz-se em caminho de luz no labirinto do mito de homem feito bicho. A partir daí o “minotaurovai desvendando seu pasto, seu rancho margeado de riacho, sua rotina de escuridão e luz, sua vereda de perdição e hora da transmutação redentora do homem coisificado à sorte do sentimento de própria escolha.

A cenografia, uma mesa para banquetes e signos, dois tecidos (o vermelho e o preto), um berrante, um punhal, duas máscaras do boi de tradição e ruptura e um corpo falante ornado de um chocalho, toda prática.
(Guido Campos: "Boi" e seu berrante/foto: Layza Vasconcelos)

A luz do espetáculo parece mimetizar-se com a do ator. Sai dos pinos, mas forja-se irradiada das patas do ruminante. A construção das personagens de Guido Campos se unifica para quase mesmo padrão. Por vezes as vozes de Agemiro, o amante de bois e currais, vociferam sentimentos num pulso estridente, mesmo para a linha de margem das conversas agressivas de currais e aboios.

A máscara da velha mãe, da mulher Das Dores, da Dos Anjos, pretendente a casamento e a do próprio Zé Agemiro, ora se confundem, ora se misturam e outras + se mimetizam para traquejos vocais similares, saídos da cornucópia de ressonância.

A + das vezes a energia centrada do ator e seu método caem na armadilha da caricatura e cacoetes disfarçados de verdade cênica, nem sempre a parecer risível, mas para cumprir uma mímesis das memórias afetivas.

Encenação de energia inteira, com todos os alinhavos dentro da mesma corrente de mapeamento dramático. Ponto alto do espetáculo, as coreografias mágicas de construção das trocas de roupas da mulher Das Dores, enquanto cobra ciúme do marido Agemiro que sofre de fascínio pelo boi preferido.
 (Guido Campos: "Boi" em sua Das Dores/foto: Layza Vasconcelos)

Adereços ricos e simples, uma cabeça de boi cego, a do minotauro, uma sandália de borracha feito pata, um punhal para sangue e areia e a cabeça colorida em vermelho com olhos negros que planta-se no peito do homem assumido como boi no ápice da encenação do bicho-homem mitificado.

A direção dramatúrgica, inteira, enceta uma certa rota de condicionamentos que se eficientizam também pela cartografia coreográfica, pelo calor de paixão à cena ruminada e pela marca de identidades dos contextos cênicos tatuados de sabores humanos.

Sondado do universo rural do ciclo do gado do centro-oeste, mas de qualquer campo de criação, o espetáculo “Boi”, de Hugo Rodas e Guido Campos, na forma construtivista da cena desconstrói memórias e reinventa novas leituras ao velho sonho do teatro brasileiro, o ator e a cena.

Vende a carne doBoi” e num aboio teatral acerta para o mítico, para o lúdico e para a ciência aberta da dramaturgia de laboratórios experimentados. Teatro para placebo, mas também para efeito de cura pajelada.


sábado, 13 de agosto de 2011

Balanço, mas não caio


Balanço, mas não caio
por maneco nascimento

Balanço”, de Goiás, foi o 5º. Concorrente ao 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes, na última sexta-feira, dia 12 de agosto de 2011. O palco do Theatro 4 de Setembro recebeu, às 20 horas, o esforço concentrado de Bruno Peixoto, em 55 minutos de espetáculo, dirigido por Edson de Oliveira.
                             (Bruno Peixoto: "Balanço"/foto:Layza Vasconcelos)

Cenografia muito legal, abre margem às fugas da personagem inquieta, no desempenho da histérico-esquizofrenia do menino com pés crescidos que reconta sua história de apelos e apegos às memórias afetivo-familiar, às amorosas e às do “front” das guerras internas e guerrilhas do salto do camaleão.

De um eixo central, abrigo de proteção e ponto de partida às janelas das memórias, a personagem discorre suas relações humanas com carga dramática, por vezes redundante, por outras fragmentada aos ambientes construídos, sempre mapeados por uma luz exata.

O rito iniciático deBalanço” apresenta um ator, na boca de cena, recepcionando o público. Até que os burburinhos e novidades dos convidados ao drama se acomodem, é um espetáculo da platéia para o ator.
                             (Bruno Peixoto: "Balanço"/foto de Layza Vasconcelos)

Após essa apresentação (in)formal, o ator/personagem evolui em manifestações religiosas de matrizes africanas e personaliza os ritos de preparação do terreiro em que será imbuída a marca do teatro do cavalo que recebe o santo.

Luz marcante, feito lua, segue um homem em despejo de seu rosário de orações lírico-profanas. Figurino de eficácia às ilustrações composicionais das personagens da personagem apresentada.
Os núcleos cenográficos, que alimentam-se de adereços emblemáticos, vão pincelando a forma da dramaturgia e formulando idéias fisicalizadas à interface dos contadores do enredo.
Ator, de desempenho energético, desdobra-se em gestos, movimentos, máscaras e maneirismos corporais com uma desenvoltura conquistada à força da paixão e compreensão da linha cênica escolhida. Por vezes se envaidece na técnica do teatro didático-ilustrativo e quase gera uma monocordia, mas sempre superada com uma nova ação.
                                          ("Balanço"/foto: Layza Vasconcelos)

É uma peça densa, de muitas informações que se exasperam em serem pronunciadas. A neurose da personagem, às vezes, atropela as inflexões do ator. Metralhadas emoções se dispersam no silêncio da platéia atenta, o final das frases se perde no ar. O ruidoso do emocional “descontrolado” engole o discurso da personagem e enfraquece a finalização da oralidade.

O texto vomitado não chega com o mau cheiro necessário das palavras em digestão, pois parece ter muita pressa em ser jogado fora, daí não conseguir todo o efeito do azedo e calor vindo das entranhas. Segurança de encenar, nada desprezível, encanta a assistência conduzida ao devoto de uma loa chamada Balanço”.

Bruno Peixoto canta, dança, representa e, na forma de ex-voto, se imola à expiação da recepção aberta às novidades em turbilhão. Conspiram em seu favor a música, a cenografia estilística e uma delicadeza em profusão dos focos de luz, para maiores ou econômicos atos de cena.

O céu de estrelas pendulares, nas vezes de manto de proteção ao filho de santo em seu oratório de bem-dizeres, chega ao espectador como nascimento da noite do menor ponto de luz e grada-se, cuidadosamente, ao + do mapa iluminado, é um momento comovente.

Balanço, mas não caio. “Balançoqueda-se na escolha de dramaturgia e ênfase apaixonada e revela um teatro de magias, de encantos, de euforias e de cena pulsante. Dobra-se aos próprios joelhos e desloca-se como arte de se representar. Bruno Peixoto exercita o ator e segue sua guia.


sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Arquitetura do ator


Arquitetura do ator
    por maneco nascimento

O rei da brincadeira é João e trabalha na construção. É brincante de boi e servente em um canteiro de obras preparado para a desenvoltura deO Miolo da Estória”, montagem do Grupo Santa Ignorância Cia. de Artes, vindo de São Luis do Maranhão, que se apresentou dia 11 de agosto de 2011, às 20 horas, no palco do Theatro 4 de Setembro.
                                       (Lauande Aires em "O Miolo da Estória"/acervo)

 A dramaturgia de cena, o texto garimpado à obra argamassada, a direção e atuação levam a assinatura de Lauande Aires. Um heróico ato de encenação em 50 minutos leves e delicados, sem perder o lúdico nem integração com temática atual e cotidiana de homem comum. Um ingênuo operário, de “miolo mole”, que conta sua vida comezinha com uma graça e estilo arquitetado aos pilares do exercício do ator.

A vida do operário plantada na construção do homem e sua hora, sua casa e seu ofício, sua paixão e cultura defendidas. O desenho dramatúrgico copta toda linguagem de aproximação entre a labuta pela sobrevivência, a paixão pela brincadeira do boi e a vidinha simples em barraco da insistência em continuar vivo, berrando, mesmo que seja o boi.

A cenografia muito eficaz no uso de elementos que ora se transformam em objetos domésticos, ora representam peças próprias e utilitárias do serviço da construção civil. Um pandeirão faz às vezes de lua, um carrinho de mão, além de sua função contumaz também abriga a forma de oratório e boi soprado à vida através de seu miolo, o brincante da engenharia do diretor.

Uma escada, peneiras, pás, enxadas, marmitas, colher de pedreiro, capacetes, capas de chuva, óculos, botas e uma diversidade de objetos que compõem o canteiro de obra à engenhosa carpintaria projetada à cena do teatro construído num desenho lógico e arte pensada para ação teatral como ciência e fantasia.

O mapa de luz do espetáculo confirma o conjunto de bons propósitos em equilíbrio de encenação. O final de espetáculo que transpõe uma escada de construção para uma escadaria de igreja iluminada por uma lua cheia (pandeirão) e um chapéu gigante (apologia à peça fundamental de brincantes de bumba-meu-boi) de luzes pendentes, ponto alto de cenografia e iluminação em interação inteligente.

As leituras de dramaturgia textuais que passeiam por “Construção” (ciclista morto “na contramão atrapalhando o tráfego”) ou o rei da brincadeira e ora também da confusão corajosa pelos direitos de pensar, intertextualizam com obras populares tradicionais da crônica musical brasileira.

Lauande Aires, em sua arquitetura de ator erige uma personagem observada, que de “miolo mole”, tem vida próxima da vida de qualquer um, com seus sonhos, anseios, inquietações e dúvidas de natureza humanas, fora da cena fria e acadêmica da técnica de encenar. Um homem e sua lei de fingimento ao convencimento prazeroso do público hipnotizado.

Conta sua história, a de sua aldeia com um pé na vida de qualquer universo também fora do eixo da identidade ilustrada para cultura local. Um boi com pé quebrado, de alma brasileira de quem senta em cadeira na calçada e reconta sua vida passada diante do olhar sonhador.

O topo da escadaria iluminada, também chão protegido por estrelas pendidas da aba do chapéu, ou céu de recepção do homem sonhador transcendido da dor terrena ao altar de deus de barro imolado.

O Miolo da Estória” tem tutano quente versejando arte e cultura planejada da arquitetura do ator à engenharia do diretor sem precisar apelar ao óbvio, mesmo que pareça óbvio o corpo que fala da alma ao coração do artista fingidor.


Teatro do coração


Teatro do coração
por maneco nascimento

No páreo de competição para a 18ª. edição do Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes, dia 10 de agosto de 2011, às 20 horas no 4 de Setembro, a vez foi de Maria do Rosário Sales, a nossa Lari Sales e sua “Rainha do Rádio”.
 (Adelaide Fontana(Larti Sales): Rainha do Rádio/acervo)

A história de Adelaide Fontana e sua amargura de ser preterida do mundo nepótico-fisiológico da família Zoroastro e da Rádio a que dedicou toda uma vida, se faz ponto máximo através do texto, por vezes “boca suja”, mas dentro de um universo de discurso bem humorado, medido para um riso sem o apelo fácil da linguagem ligeira ao gargarejo.

Dramaturgia literária de revezes ora densa, ora relaxada ao entretenimento e diversão, reflete o ocaso de uma profissional, de um paradigma de expressão laboral. A morte da poesia e embrutecimento de relações de trabalho e afetivas.

A Adelaide de Lari Sales é dramática, divertida, tem uma pulsação de coração medido ao gráfico de inflexões, intenções e entonações que enleva a platéia à comoção e à diversão perversa de participar da desgraça da personagem, injustiçada pela cidade e pelo patrão.

A história da personagem não se quer confundir, em nada, com a da intérprete, mas há sinais comuns que as aproxima. Uma vida dedicada à carreira e a escolha da profissão. Uma é atriz de talento conquistado, a outra é radialista e amante professa de rádiodifusão. Ambas comunicam. A idade da atriz e maturidade de fingimento se aproxima da idade da personagem composta à cena expiada.

Densidade dramática e nuances delicadas dialogam com certa tranqüilidade e apego à prática festejada na boca da intérprete. É uma Lari conhecida e cheia de arte para aproximar público e obra aberta. Para essa faceta de Sales, um investimento no momento de ouvir-se +, demorar nas passagens e entradas cênicas construídas ao longo da carreira.

Na noite do dia 10 de agosto, um resultado pouco concentrado na maturidade já experta da atriz. Falas truncadas, falhas perdoadas no conjunto de um bom exercício em dia incomum para a mesma montagem.

Uma mulher da cena da cidade que já arrastou em sua esteira de deus Ex-Machine, Raimunda Jovita, Raimunda Borborema, Joaninha, Bernarda Alba e tantas outras leves e graves personagens, tem dias de glórias e dias de menores acertos. A falha trágica faz parte da personagem, mas intrínseca de qualquer intérprete. 

O teatro torna-se visível, mas prospectado do invisível e labirintos do ator/personagem. Então, Lari Sales deu-se com toda verdade e honestidade de encenar e tinha uma energia e força dramática ricas de propósitos ao palco. Mas não apresentou um redondo eixo dramático para o dia de concorrência.

Continua uma Adelaide Fontana apaixonante e uma atriz Lari Sales fascinante. Não estava no seu maior espetáculo àquela noite, nem sua melhor performance. Logo, faz-se crer que a ótima Adelaide confundiu-se com fundo coração de sangue pagão de Lari. 
 Teatro, arte e ciência conquistadas pela emoção, razão e pesquisa para sempre resultados do coração. Às vezes + experiências, outras sempre experiências. Sempre teatro, nem sempre para prêmios formais, mas premiado para ato de cena experimentada.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

O Palhaço, o que é?


O Palhaço, o que é?
por maneco nascimento

Reinaldo Facchini foi o ator do 2º. dia, 09 de agosto de 2011, do 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes. Com seu “Esperando na Rodô”, dirigido por Marco Pavani, Facchini está muito à vontade na pele do Jeca. O corpo fala numa oralidade jocosa, econômica e preenchida de emoções ricas de memórias do inventor da alegria, o bom e velho palhaço.
                                           (Reinaldo Facchini: "Esperando na Rodô"/acervo)

Um homem, em banco de estação rodoviária, espera o tempo passar enquanto passa lições de simplicidade emocional na complexa arte de fingir a mímesis do Outro presente no Um. Reinaldo colhe à cena gagues, ações clownescas exprimidas na arte do ator apaixonado pelo que faz. Não faz feio.

Detalhista na composição que traz para a cena, o intérprete divide com o público uma alegria premeditada, feita para encantar e envolver qualquer tipo de público aberto a receber uma boa piada. Os elementos de cena vão ganhando vida pelas mãos do palhaço e nada é gratuito, mesmo quando pareça desnecessário o uso.
                                                      (Facchini: "Esperando na Rodô"/acervo)

Um teatro de silêncio e respostas na expressão do silencioso gesto cria uma empatia imediata com a assistência. O diálogo de interior expressionista amplia-se à interlocução cúmplice praticada com o palhaço do espelho, a platéia enleada.

Cenas sóbrias na simplicidade da representação de realismo histriônico comedido surgem feito lição de amor disfarçada de palhaçada. O rito para o jantar ou o para a improvisação da latrina e consumação da necessidade de desafogar-se é de bom exemplo do exercício do ator para a cena viva.
                                             (Reinaldo Facchini: "Esperando na Rodô"/acervo)

O Palhaço, o que é? É livre, é transgressor e trapalhão. É vida de emoções calculadas para explosões encolhidas e em expansão tragicômicas da alegria do espírito clownesco. Reinaldo tem domínio da técnica e tem corpo com febre terçã disfarçado de calmaria. Varia da prosódia ao texto sem voz sempre finalizado para a lingüística corporal de circo e cercos dramáticos.

“Esperando na Rodô” recolhe a platéia para uma fantasia de quem espera e também de quem jamais achou que podia encontrar-se na espera. Quem aprendeu a esperar recolhe poesia e licenças lúdicas que sublimam corações endurecidos. Reinaldo Facchini brinca de felicidade e ganha as horas de espera na busca de seu pássaro azul.
                                                   (Facchini: "Esperando na Rodô"/acervo)

É homem e seu mote de interpretar, artista de um dos maiores espetáculos da terra, a arte de fingir. O faz bem.

Medéia aberta


Medéia aberta
por maneco nascimento

O Rio de Janeiro se representou, dia 08 de agosto de 2011, às 20 horas, no palco do Theatro 4 de Setembro, com o espetáculoMedéia”, interpretado por Claudiana Cotrim e direção de Urias de Oliveira, abrindo o concurso competitivo do 18º. Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rêgo” – Prêmio Zezé Lopes.

50 minutos de intertextualidade entre aMedéia”, de Eurípedes, e outras do cotidiano de pesquisa e ou apresentada em vídeo. 
                                               (Claudiana Cotrim: "Medéia"/acervo)

Parece haver, no primeiro momento de observação do espectador diferenciado, + que uma Medéia: a do vídeo que entrevista outras do contemporâneo, a que interage com a platéia (+ neutra) e as da cena, a protagonista e a criada.

, também + que um espetáculo. O + próximo da tragédia original, o do palco. Uma bricolagem de informações com interacionismo de linguagens que não fogem da linha divisória da cena de identidades.

A do palco traz uma Claudiana Cotrim concentrada na técnica. Fala bem, texto límpido e debulhado com todas as marcas frasais que a dramaturgia literária apresenta. Talvez, por questão de escolha, as inflexões percorrem uma linearidade que, por vezes, hibridiza a força da mulher em sua falha trágica.
                                 ( "Medéia" de Claudiana Cotrim e Urias de Oliveira/acervo)

A cenografia tem ilustração de amparo à dramaturgia corporal desenvolta da atriz para a personagem trágica. Elementos concretamente úteis são o tapete evoluindo para o manto da rainha, o tecido vermelho que linha divisória de ambientes transforma-se, noutro momento, em evoluções de roupas envenenadas e ou em filhos assassinados.

Um risco de simbologias que se apropriam de adereços e cenários abre margem direta para o público de leitura e repertório acurado, mas não causa estranheza no público comum.

A luz, mais a suporte do diverso de matizes que mapeamento específico de emoções do trágico. A música, outro extremo de informação, assoberba um teatro que poderia estar preenchido de natureza sonora da personagem. Esta rica de melodias e anseios que poderiam reverberar o próprio som.

A dramaturgia do diretor ampliou o leque de dados das diversas Medéias, invocadas no rito de iniciação ao trágico proclamado. Mais enxuta a ideia, melhor espaço para o impressionismo da protagonista à força da expressão.

Talvez envaidecida pela técnica depurada, a intérprete se tenha redomado numa oralidade sempre horizontal, sem pulsações que quebrassem o paradigma do racional e linear.

Embora pareça que a energia da personagem se tenha composto na margem, há na atriz Claudiana Cotrim um quinto elemento querendo saltar fora. Uma máscara de estética, que fria e concentrada corrobora a uma Medéia expressionista para modelo clássico. Melhor apresentada que as de pintura moderna, nas vezes de entrevistadora, ou provocadora da platéia.

Medéia aberta, um exercício de novas iniciativas que, alçada à explosão da força que a atriz ainda não usou de toda, transfiguraria uma plástica de cena pensada, mas ainda não dominada ao ato do fingimento proposto pela intérprete e direção.


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Cena aberta


Cena aberta
por maneco nascimento

Teresina recebeu na noite de dia 08 de agosto de 2011, dentro das comemorações dos 159 anos de nascimento da cidade, a 18ª. Edição do Festival Nacional de Monólogos “Ana Maria Rego” – Prêmio Zezé Lopes, realizado pela Prefeitura de Teresina, através da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. As festas de entrada ocorreram na porta do Theatro 4 de Setembro, a partir das 18 horas.

Nas falas oficiais, um momento especial. O homenageado Zezé Lopes, há + de trinta anos prestando serviço ao teatro local e à Casa Theatro 4 de Setembro, falou de sua emoção, do mimo de ter seu nome na homenagem do 18o. FESTMONÓLOGOS. Grande Zezé!

                                                  (Aline Moura: Dona Flor/acervo)

Um luxo musical com a Banda ‘Luiz Gonzaga” e a voz maravilhosa do crooner Chico Rato preencheram a praça de música e melodias em grande estilo. Em seguida, o Grupo Sinos de Teatro, de Jean Pessoa e trupe concentrada, apresentou “Dona Flor e seu único futuro Marido”, um divertido exercício teatral para a rua.

Uma solteirona (Aline Moura), ansiosa por um casamento, vive perseguida por um velho (Jean Pessoa) e solitário desejoso, único pretendente à conquista do coração de dona Flor.
No vai e vem das escaramuças, puxa-encolhe da briga de conquista Jean e Aline vão costurando uma linguagem de cena aberta ao teatro de rua com lampejo de “comèdie de’larte” e bufões apropriados ao nordestinês.

Diverte, entretém e deixa um sabor de liberdade cênica praticada a montagem livre enredada numa paráfrase de obra jorgeamadiana, “Dona Flor e seus dois maridos”. O elenco auxiliar dona Cansansão e seus dois maridos(músicos) completam o lúdico e fingimento premeditado à cena na praça.

O Grupo Sinos de Teatro dobra-se em sons e corpos do memorial popular e espelha exercício de ator intervencionista pregoeiro de loas e paródias farsi-dramáticas. O público corresponde à proposta do Grupo que tem descoberto esse veio teatral pouco exercitado por aqui.

O primeiro espetáculo concorrente ao 18º. Festival de Monólogos “Ana Maria Rêgo”, veio do Rio de Janeiro. Uma versão deMedéia”, com Claudiana Cotrim e direção de Urias de Oliveira.
                                           (Claudiana Cotrim: Medéia/acervo)

Releitura de um clássico da tragédia grega, apresenta uma transversalização de intérprete distanciada que percorre linguagem de: entrevistas, em vídeo(abertura do espetáculo), com medéias contemporâneas, interação com público no segundo momento e, no palco, a tragédia propriamente.

Medeia” está no páreo de concorrência e abriu o Festival em grande estilo para o teatro de câmara, vindo na esteira da cena festejada na rua. A capital do teatro promete uma semana cheia de surpresas e virtuose cênica. É esperar pra ver.