quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Corpo sem Corpus

Corpo sem Corpus
por maneco nascimento


Dia 09 de outubro de 2011, às 20 horas e 15 minutos, viu-se no Theatro 4 de Setembro a saga de teatro ligeiro “Corpúsculo”& “Eclampse”, criação de Franklin Pires em paródia a série americana de cinema direcional “vampire teen” “Crepúsculo” & “Eclipse”.

O ator, diretor e dramaturgo, Pires, apropriado de anseios experimentados de adolescentes e jovens realiza um contágio de identificação da linguagem midiática afim.
(Franklin Pires e Danilo França/foto: acervo teens 180 graus)

Para o riso e o entretenimento da platéia do cacarejo, a espetacularização da cena apreende a atenção cortejada e marca território em dias febris da intercomunicação de redes, relações e linguajar contumaz das gerações hibridizadas às indústrias culturais. Série para dois atos, com dez minutos de intervalo entre um e outro. Primeiro “Corpúsculo” e, depois, naturalmente, “Eclampse”.

O ritual de iniciação sempre se dá com “clips” e musicais dominadores desse mercado dinâmico de celebridades mass media. As paródias, de F. Pires, propriamente, não se diferenciam com resultado de investimento de uma para a outra.

Sem novidade dramatúrgica, nem acuidade de finalização de cenas e ou de desempenho de elenco. O risível fica por conta das referências à série original de cinema, ou das adequações de identificação textual com referências locais.

Quer para o primeiro ato, quer para o outro, destaque para Bid Lima que consegue diferenciar-se, rapidamente em atuação, do restante do grupo. Com um tempo de atriz histriônica já abalizado pelas experimentações da linguagem do humor e algum escracho, Bid desliza naturalmente pelas cenas e sempre com uma tirada inflexional de causar um divertimento e bom riso.

(Eduardo Cualém: F. Pires/Bela Suina: Bid Lima/foto: divulgação)

Luciano Brandão, um bom ator dos quadros da cidade, aplica uma despretensiosa performance, variável entre um brinquedo “fácil” e os desdobramentos de improvisação para roteiro aberto e do cotidiano das conversas e afinidades de escola da Mirica*.

Franklin Pires convencido de talento auto-determinado, se escora no “fake” de máscara e corpo do vampiro adolescente e frígido em que vomita um texto tradicional da própria vaidade de celebrização.

Há ainda no elenco, os “good boys”, as jovens e senhoras com fantasia de margem adolescente, os com “arte” demonstrativa de empenho privado e deliberação de orientação sexual ilustradamente exagerada, os que só compõem para valer como volume, os sem corpo nem ato de cena e ainda os que compõem a tribo, nada que ver, fica claro, com as personagens “selvagens”/lobos do filme parodiado.

Há no Brasil uma nova tendência do teatro “stand up” e que também tem ganhado corpo por aqui. A série “Corpúsculo” & “Eclampse” parece se caracterizar entre um teatro de improvisação sem repertório e um injustificável desejo de alcançar a prática solo de improvisos e textos emergentes da temperatura coptada da platéia.

Para atores como Bid Lima, Franklin Pires e Luciano Brandão há alguma resposta vinda de memórias da improvisação e roteiros de oficinas cênicas.

(Vampiros de "Corpúsculos" & "Eclampse"/foto: divulgação)

Já o elenco de apoio, sem essa experiência nem compromisso em observar quem veio primeiro e sem humildade suficiente para ouvir +, erra sempre. Teatro é arte de pesquisa, escuta, observação e desejo irredutível de aprender a aprender. Falta essa vontade de encenar, de verdade, nos novos iniciados.

As novas tecnologias e recursos midiáticos utilizados durante o(s) espetáculo(s) não tiveram efeito eficiente. Imagens difusas e pouca definição da projeção apresentada foram + funcional como ruído que como interação comunicacional eficaz.

Há, nos espetáculos, tempos falhos, descosturas, ou linhas soltas no tecido da dramaturgia, mas o que há com maior descuido é uma falta de atenção, um deslumbramento de estar no palco e uma deliberada ação de estar em cena sem estar na cena como arte da composição ao ato do teatro.

É risível, exercita o gargarejo coletivo, mas como ato de teatro, propriamente, é um corpo sem corpus. Brinda o escatológico disfarçado de humor, o humor sem o tempo de piada inata e o inato ao enviesado fascínio de “aparecer” em cena.

É um corpo com plasma genérico e princípio ativo ainda sem constatação científica. A série “C...” & “E...” ainda não desvendou todo o alfabeto.

* Mirica, uma atriz de década de 80 que nunca ensaiava e dizia que "na hora eu dou tudo."

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Teatro é assim

Teatro é assim
por maneco nascimento


Teatro é assim, criado para encantar a assistência e fazer com que se leve para casa alguma informação, formação aberta em arte representada e cultura que se aproxime, de alguma forma, de nossas experiências, memórias afetivas e identidades sociais.

Não é à toa que as representações e imitações da vida têm, ao longo das eras, manifestações diversas e contextualizadas a cada território, mapas que variam do oriente ao ocidente com seus milhares de anos conquistados. O teatro, a arte do ator, fascina a quem faz, mas especialmente contagia a quem vê uma boa representação.

Dia 11 de outubro, às 18 horas, na esteira da programação da Semana da Criança no Teatro Municipal João Paulo II, o público de infantes e pais delirou com a montagem do Grupo As Petúnias de Teatro, para texto de Tatiana Belink. O espetáculo, “O Macaco Malandro”, com Direção de Marina Marques.

(O Macaco Malandro, do Petúnias de Teatro/foto: divulgação)

Numa concentrada e limpa geografia à cena, Marina Marques realiza uma dramaturgia para público infantil com acuidade de detalhes que vão se assomando para o todo. Um conjunto de atores, com bom desempenho, traqueja a espacialidade de cena com humor, respostas corporais e, especialmente, sem apelo para engodo da criança, sempre atenta ao enredo.

A estratégia da direção é funcional e tem toda uma linguagem definida e clara como a água para chocolate que adoça a recepção infantil.

A Cenografia e Caracterização de Adereços de cena, construídos por Lorena Campelo, são esteticamente bem aplicados e plasticamente muito eficientes.

Vê-se uma floresta, de cipós, que avança sobre a cena para compor o tribunal de “O Macaco Malandro”, máscaras que se mimetizam aos figurinos das personagens e + objetos que fundem-se de forma delicada e compõem-se em ambientação para não faltar mais nada. Completa-se à história elementos práticos como uma balança, um tronco(cadeira do juiz) e uma árvore que anda e interage muito graciosamente em todo o espetáculo.

Os Figurinos, assinados por Marina Marques, sóbrios e representativamente eficazes, não só à identidade dos animais, a Raposa, o Lobo, o Macaco, como também valorativos do ambiente da floresta e personagens outras, a Árvore. Tudo está muito próximo e equilibrado, cenário, figurinos, adereços e dramaturgia para encanto infantil.
(O Macaco Malandro, do Petúnias de Teatro/foto: divulgação)

A Iluminação, uma busca de Lorena Campelo e Marina Marques, também é coeficiente de aplicação matemática que lúdica fecha-se na aritmética teatral. A Pesquisa musical, de L. Campelo, para preenchimento de enredo da fábula moderna é emblemática para o público fim e mantém contornos de linguagens e sonoridades que fecham o ciclo do teatro feito e pensado para a criança.

O Texto da grande Tatiana Belink encontra, na dramaturgia de cena e respostas dos atores, toda a magia, encanto e crítica social que devem existir na dramaturgia literária criada ao melhor efeito dramático.

Um Macaco, às vezes de um Pedro Malasarte, aplica a esperteza da própria justiça e abre um canal de reflexão acerca dos contextos atuais brasileiros. O Texto não perde a mensagem original na dramaturgia encenada.

O Elenco afinado com a direção consegue resultado muito bom. Eliziane Pedro(o Lobo), Cristina Pillar(a Raposa), Juremil Rios(o Macaco) e Ari Veras(a Árvore), cada um a seu tempo detém a dramaturgia do ator com o prazer de quem está construindo o seu melhor. Convencem, criam empatia e brincam de fingimento sem truques fora da técnica estudada. Dão-se bem.

Têm corpos e inflexões textuais com lingüísticas próprias e representativas das personagens e compõem eixo norteador do lúdico feito para enlear e ativar sorrisos e fantasias da criança existente no público de qualquer idade. “O Macaco Malandro” tem um conjunto afinado e uma montagem que guarda vontade de quero +.

(O Macaco Malandro, do Petúnias de Teatro/foto: divulgação)
Eis um projeto que confirma que teatro é assim, bem realizado, porque tem pesquisa e sensibilidade.

Teatro é magia

Teatro é magia
por maneco nascimento
Muito se diz que as sociedades moderno-contemporâneas perderam o encanto e sedimentaram resistências às magias, fábulas e ao olhar do fantástico fora da simetria das ciências cartesianas.
Quem cria que as ciências medievais perderam o valor de natureza positiva, porque primitivas, e que tudo que não estivesse nem próximo da linha divisória entre a razão e a intuição não tinha valor científico, perdeu o bonde da vida que vagueia entre a realidade e o sonho e que nem sempre precisa de justificativa lógica.
Há o mundo de antes e após a penicilina (Alexander Fleming, fungo penicillium Chrysogenum notatum: 1928), cada um com sua singularidade e seus revezes para resultados de contextos de sobrevivência. Com as magias primitivas, curas, “bruxarias”, pajelança e xamanismo o mundo evoluiu até esbarrar na ciência e sua indústria, indispensável, de curas químicas.
A vida foi ficando + cartesiana, mas a história tem seus caminhos alternativos para que o homem (genérico) não se transmute em máquina. Um desses caminhos leva ao teatro e sua magia para encantos, fantasia, lúdico e também ciência da literatura e dramaturgia de cena praticadas.
Das primeiras iniciativas à mímesis de rituais religiosos pagãos até às tragédias aristotélicas, muitas vidas e emoções fingidas ou reinventadas, para deleite da assistência, ganharam a prática da cena que os dias de nossas memórias registram ao contemporâneo. Um bom teatro continua contido na magia e contém traços do genoma primitivo gerado na perna de Baco. É ciência, é matemática e jamais deixará de ser mágico.
(o deus Baco em Cambados/origem:wikipedia, a enciclopédia livre)
O Grupo Ribalta de Teatro, coordenado por Paulo de Tarso, e quem tem em sua condição de registro sócio-cultural a prática de repertório para linguagem infantil de teatro, traz em sua história para as cenas locais as montagens de “O Palhaço triste”, “A Princesinha e o Plebeu”, “Dois Piratas birutas e uma Bruxa maluca”, “A Menina e o Boizinho”, entre outras para encanto das crianças.
Durante domingos do mês de setembro e início de outubro de 2011, o Grupo Ribalta de Teatro brindou o público da região do Dirceu Arcoverde com seu teatro de repertório. Nos dias 11 e 18 de setembro e dia 02 de outubro do corrente, a peça “Dois Piratas birutas e uma Bruxa maluca” marcou borderô dentro do Projeto Temporadas Infantis do Teatro Municipal João Paulo, às 18 horas.
Volta à cena espetáculos que fogem da prática fácil de atrair público infantil com intuito de computar números e negligenciar quem paga a conta. O Ribalta de Teatro desempenha um cuidado e respeito ao público para qual se propõe deixar marca na cena. Montagens simples, mas com a poção da magia que prende a atenção da criança e envolve também os pais, são exemplos do que o Ribalta apresentou no palco do João Paulo II.
Nos dias 09 e 10 de outubro de 2011, às 18 horas, dentro da programação da Semana da Criança no Teatro Municipal João Paulo II, a companhia de teatro infantil Ribalta ainda fechou parceria com a Casa de espetáculos e interagiu com a verdade do artista e o fingimento à cena, com qualidade de atuação e convencimento do público.
Dia 09, domingo, abrindo a Semana da Criança repetiu “Dois Piratas birutas e uma Bruxa maluca” e dia 10, numa segunda feira, reestreou “A Menina e o Boizinho”.
Crianças participativas e imbuídas de opinar no enredo apresentado deram mais brilho às apresentações vistas no TMJPII. A contemporaneidade não está toda cética, pais e filhos ainda riem e mergulham no universo da fábula, da magia, do encanto e da fantasia do teatro feito para crianças.

E como o teatro, mesmo trabalhando o mundo da fantasia, não desprende-se da razão aplicada à dramaturgia planejada, viva a ciência das cenas que tem função e relação com o espírito livre que a arte e cultura impõem à humanidade.

domingo, 9 de outubro de 2011

Sou do tempo

Sou do tempo
por maneco nascimento
Com quase meio século de memória experimentada e recolhida ao regurgito das horas vagas, não se pode contestar que a vida pega fôlego a cada piscar de olhos, com uma natureza sem remorso de saltar sempre ao próximo ponto da estação da história da humanidade. E assim vão-se os dédalos e fica a ciência constatada.

(Leônidas da Silva[Diamante Negro]/imagem: http://www.clickideia.com.br/)

Sou do tempo em que craque tinha referência fonológica e semântica a grandes jogadores de futebol do país exportação. Diamante Negro(Leônidas da Silva), Pelé, Jairzinho, Garrincha, Tostão, Rivelino e uma galeria de nomes que, mesmo famosos, alguns morreram pobres ou ainda estão por ai remoendo as próprias glórias. Não os cito porque minha memória teima em trair-me.
(Pelé e Rivelino/imagem retirada de: cimplesocio-futebol.blogspot.com/2010/04/fute...)
 Mas, nossos heróis da bola d’outra época, se sofriam do mito da celebrização pareciam mais discretos. Não pousavam exibindo armas ao lado da própria geração, menos “favorecida”, crescida nas ruelas e becos das franjas de grandes centros urbanos. Também não viravam manchete em registros policiais para passeios pelas drogas, sexo e outras idiossincrasias da porção animal.
 Quem deu salto + alto que o Luiz XV festejado, sempre esteve sujeito às indústrias culturais, mesmo antes de Adorno as definir como mola propulsora das modernas e contemporâneas tendências mass media. As vidas milionárias e o pouco traquejo de gastar fortunas, naturalmente conquistadas com pernas banhadas a mito de midas, talvez não comportem tempo de maturidade para deslindar os heróis do morro garimpados e alçados à zona sul.
Sem sair do veio das celebridades, sou do tempo em que os “craks” das revistas e tevês só dependiam do cigarro comum, ou vá lá, seu bom uísque que o trabalho podia comprar. As primaveras nevadas nos trópicos eram licença poética e pedra era só um substantivo, muito bem aplicado, em poema modernista de Drummond, “tinha uma pedra no meio do caminho...” que causou frisson lingüístico entre os decanos da gramática normativa e vidinha parnasiana.
Pedra de toque tinha acepção de brilho e brilho de natureza luminar e meritória de conquistas pessoais de status cultural. Hoje há + “pedra” não só no meio do caminho, mas da sala, cozinha, banheiro, despensa, quarto, varanda e áreas de “serviços” que ocupam as novas vidas redondas da periferia e dos novos e velhos ricos da sociedade “moderna” d+.
Sou do tempo em que espinha na garganta podia mesmo ser de uma piaba cozida ou mal frita, de um piau ou mandi, peixes naturais dessa apelidada mesopotâmia nordestina que assina-se como Teresina. Hoje a espinha entravada na garganta brasileira é de natureza + agressiva e quase insolucionável, não há farinha que a remova. Até porque a farinha parece toda contaminada e a que não foi, ainda, desperta deslumbramento em fazer parte do saco podre.
Um Brasil feliz e pagador das contas e impostos regulares sofre de engasgo espinhoso da corrupção useira e viseira; dos desmandos e desvios de finalidades administrativo-financeiros, corroboradores das imunidades/impunidades de cultura política nacional; dos crimes no trânsito quase sempre culposos; das investigações policiais, por vezes, tendenciosas à reinvenção do que pareça óbvia prova de crimes premeditados.
Sou do tempo em que aluno de 10 anos de idade jamais atentaria contra um(a) professor(a)/educador(a), especialmente com arma de fogo, ou que adolescentes pudessem quebrar o nariz ou braço de mestres, soquear ou chutar diretores escolares por estes últimos tentarem apresentar disciplinas e regras de convivência social no ambiente escolar.
Sou do tempo em que expressão tipo, “viado bom é viado morto” não fazia parte do currículo natural da cultura social, hoje a da homofóbica engrossada no Brasil. Tempo em que nem parecia existir novidade de traços contemporâneos tão assustadores. Os crimes se acirraram, ou a transparência e denúncias ganharam mesmo + espaço dentro das exigências que se naturalizam aos direitos cidadãos em aplicação.
Sou de um tempo em que parece não haver + um tempo melhor. Pouca justiça, pouca eficiência da polícia, nenhuma reparação eficaz na política e em que as sociedades têm se tornado + embrutecidas e cada vez em gerações + jovens e infantes. Nunca Hobbes melhor interpretou o lobo do homem que nesse momento atual.
O meu, o teu, o vosso filho, aplicando regência lingüística, parecem estar sujeitos a dias + conturbados que nosso presente. Que tempo terão nossos herdeiros em tempo que, impreterivelmente, jamais se repetirá. A água do rio de Heráclito de Éfeso, não molharia mesmo duas vezes os mesmos pés. Sobrará ao menos água limpa ou pés exultosos?
De qual tempo será o futuro dos nossos melhores sonhos e planos, só a natureza humana decifrará.

sábado, 8 de outubro de 2011

Francisco!

Francisco!
por maneco nascimento
(São Francisco de Assis/imagem publicação: www.angelfire.com/ar2/jcarthur/sfco.htm)
Teresina realiza a cada ano, no dia 04 de outubro, na Frei Serafim, do percurso do edifício Paulo VI até a igreja de São Benedito, a procissão e missa em louvor ao “mais italiano dos santos e o mais santo dos italianos”, São Francisco de Assis. Também no bairro Monte Castelo, zona sul e Dirceu Arcoverde, zona sudeste, onde há igrejas em homenagem ao Santo, ocorre essa manifestação de fé coletiva, sempre no cair da tarde.
Francisco de Assis, ao ser proclamado padroeiro da Itália também recebeu reconhecimento oficial de o + santo dos italianos pelo Papa Pio XII, em 1939. Esse italianinho arretado, nascido filho de um rico comerciante de tecido, em 04 de outubro de 1181(1182), foi boêmio, combatente pelo papa no Exército de Gualtieri de Brienne até ter um encontrão com Deus.
Quando em Spoleto obteve a revelação que o fez saltar para a ordem do Pai, passou a trabalhar em dedicação aos pobres e doentes. Em sua fé manifestada ouviu de Cristo “Francisco restaura minha casa decadente”. Compreendeu que deveria restaurar a igrejinha de São Damião e vendeu as mercadorias da loja de seu pai que, furioso, o deserdou.
 Destituído então de obrigações com a vida da burguesia, renunciou do mundo de apegos materiais e abraçou definitivamente a vida religiosa, “unindo-se à Irmã Pobreza”. Responsável pelo surgimento da Ordem dos Frades Menores, autorizada pelo papa Inocêncio III, fez um trabalho voltado ao próximo que cresceu tanto pelas províncias italianas até se estender à Inglaterra.
Francisco e onze companheiros eram pregadores itinerantes e agregadores de novos adeptos. A sede da Ordem Franciscana, na capela de Porciúncula de Santa Maria dos Anjos, próxima a cidade de Assis, ficou pequena e foi aberto outro convento em Bolonha. Em 1212 fundou com sua fiel amiga, Santa Clara de Assis, a Ordem das Damas Pobres ou Clarissas, a segunda Ordem Franciscana.


Sua confirmação de devoção irresoluta de fé, dedicação aos pobres e prova de desapego também fisico ganharam prova de passaporte a santo. O status de fenômeno do diferencial deu-se quando ao pregar no Monte Alverne, nos Apeninos, em 1224, apareceram em Francisco as cinco chagas de Cristo.
Dois anos após ser possibilitado com a “estigmatização” no corpo, grande fonte de fraqueza física, o poeta, amante da natureza e autor do cântico “Irmão sol” encontra-se com o imponderável. Desliga-se da matéria já bastante cansada. Deixa órfãos os filhos de Francisco.
 Da Itália e extensões das fronteiras da fé franciscana chega-se à devoção brasileira a São Francisco das Chagas que arrasta multidões aos municípios cearenses de Juazeiro e Canindé. Numa daquelas cidades, o imaginário popular atribui milagres ao São Francisco das Chagas do Canindé.
Teresina, considerada um das cidades + católicas do Brasil, também está no circuito natural do santo e devoção chegados com as caravelas e europa católicas. Filho d’Itália, terra de tronco comum linguístico com Portugal, expandiu-se do latim solidário para fé nordestina do português brasileiro aqui exercitado.
Nas terras áridas, de pouca água, igualdade de direitos escamoteada e justiça ensaiada para herdeiros de colonizadores, só o fervor religioso traz um diferencial de simplicidade, apelo ao divino e esperança em dias melhores com intervenção dos Céus.
É nesse ambiente de crença até questionável, mas nunca sujeita à classificação de ceticismo oficial que Teresina reitera, a cada ano, sua fé ao Santo padroeiro dos pobres e dos animais e, em devoção respeitosa, se reúne para caminhada pelo aniversário de nascimento de Francisco.
Pelo menos 7 mil pessoas entre jovens, crianças, adultos, idosos, com muletas, bengalas, cadeiras de rodas, bebês de colo, devotos, religiosos, curiosos e comerciantes fizeram coro a São Francisco de Assis, das Chagas, do Canindé e do Brasil, nação de maior população católica da América Latina.
Francisco! Espelho de humildade cristã, nunca foi sacerdote oficial das escalas vaticanas, mas impôs-se, segundo interpretação sensível de Pio XII, como o + santo dos italianos. Ao criar sua própria ordem sacerdócia da Palavra do Messias, continua no memorial coletivo como referência de ilibada postura de amor ao próximo em nome do Pai. Salve, Francisco!

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ator sem cena


Ator sem cena
por maneco nascimento

Teresina sempre foi e sempre será uma cidade sujeita a extravagâncias, como qualquer lugar de qualquer sítio do mundinho da humanidade. Alguns sítios e seus convivas com experiências de aprendizagens e sociabilidades mais avançadas, outro(a)s ainda por aprender a premissa de que não é deus.

Recentemente, nos canais livres da web, abriu-se uma porteira para uma nova formadora de opinião que se apresenta como Professora Santana e assim propõe-se:

“Prazer aos Amigos. Sou a PROFESSORA SANTANA, diferente de muitos que se dizem críticos de arte e se escondem atrás de pseudos nomes. Sou autêntica e original. (...) Também não vou aqui diminuir nenhum trabalho assim como faz o AVELAR AMORIM, digo o PROFESSOR CORDEIRO. Vamos analisar os trabalhos propostos e, se possível, dar uma mãozinha para que sigam em frente. Nada de acabar com os sonhos de ninguém. (...) E me adicionem!” (www.professora-santana.blogspot.com)

Esse não pareceria assunto a que eu dedicasse qualquer interesse, mas o que vi pareceu um desserviço sociocultural. Alguém dizer-se paladino da imparcialidade ao tratar de teatro na cidade e, disfarçadamente, sem qualquer traquejo lingüístico para contexto específico, defenestrar colegas e montagens locais já exemplifica força de destino ladeira abaixo.

E ainda negar o próprio discurso “(...) não vou aqui diminuir nenhum trabalho assim como faz o (...) vamos analisar os trabalhos propostos e, se possível, dar uma mãozinha para que sigam em frente. Nada de acabar com os sonhos de ninguém (...)” (Idem)

O(a) “pseudocrítico(a)” mete os pés pelas mãos e parece deixar tudo mais sujo, sem acrescentar qualquer conhecimento palpável sobre teatro, artes cênicas grosso modo, nem tampouco acerca de ética e respeito pela arte e artistas do fingimento.

 (Zé Dantas, Ana Carvalho, criança feliz e Vitorino Rodrigues/foto: divulgação)

(Vitorino Rodrigues e Zé Dantas em "O Diário da Bruxa"/foto: divulgação)

No último dia 03 de outubro de 2011 vomitou “O Espetáculo Teatral escolhido para ser debatido nesta noite pela Professora Santana foi o Infantil ‘O DIÁRIO DA BRUXA´ do Grupo Proposta de Teatro de Timon (Até onde sei. O fato é que a companhia só tem atores de Teresina)”. (www.professora-santana.blogspot.com)

Para um bom(a) conhecedor(a) de literatura histórica de teatro, a manifestação teria surgido na era clássica grega e avançado sobre os povos “conquistados”. Ganhou força e mimetizou-se de novas experiências, só para dizer que teatro não tem fronteiras.

Saberia a professorinha que a “comèddie d’larte” primitivamente é italiana? Aliás, uma das manifestações mais extraordinárias da humanidade, a arte, não tem limites, senão viraria ditadura. Pareceu discurso ignorante e proselitista da professorinha querer definir quem pode ser de onde enquanto pratica teatro.

Continua “(...) Aqui recorremos a já tão citada frase de Constantin Stanislavsky: “o teatro para criança tem que ser igual ao do adulto, só que melhor”. O arremedo histérico de Dona Bruxa ressucitada pelo ator Vitorino Rodrigues não caiu bem (...)” (Idem)


O teatro é teatro, sempre, para pequenos e adultos. Qualidade e técnica de teatro ganham forma e força em seus revezes de atuação e método. O olhar de defesa do espectador não impede a manifestação, pelo contrário, reafirma a ação premeditada.


Depois ataca “(...) José Dantas e Márcio Felipe dividem o mesmo personagem (E CERTAMENTE O CARINHO DO PROTAGONISTA) mas embora possuidores de uma beleza digna de Príncipe não convencem. É a velha questão – um cirurgião consciente, profissional, jamais entraria numa sala de operações sem estar preparado para isso, pois é a vida de uma pessoa em risco (...)” (Idem)

Consegue ser invasivo(a) e maledicente, mas nada técnico por puro desfavorecimento de aprendizagem e conhecimento.

Em outra postagem, dia 04 de outubro de 2011, opinou “Passar a mão na cabeça não é bom para o espetáculo” já dizia Bárbara Heliodora e eu gostaria de começar nossa análise de hoje com essa Frase. Hoje resolvi tecer algumas palavras sobre o espetáculo ‘DONA FLOR E SEU ÚNICO FUTURO MARIDO´ de Jean Pessoa e dirigido pelo Próprio Jean Pessoa. Aí já temos início a confusão. Jean Pessoa é Ator, Autor e Diretor (...)” (Idem)

 (Aline Moura em "Dona Flor e seu único futuro Marido/foto: divulgação)


A qualquer artista o teatro deveria ser a arte do criativo e desafiador. Ninguém nasce chipado para função de “casta” contemporânea e limites de atuação. Limitar o artista é um discurso velho demais e fadado à obscuridade.

Quanto maior experimentação mais arte deflagrada. Atribui também “(...) Ao longo da história do teatro podemos observar várias funções. Temos o profano e o religioso, o educativo e o de entretenimento, o político e o alienante, o da arte pela arte. Não consegui enquadrar o DONA FLOR E SEU ÚNICO FUTURO MARIDO em nenhum desses lugares (...)” (Idem)

Uma professorinha preconceituosa, desatualizada e míope faz-se parecer crer. Noutro momento, abordando a diversidade de linguagem do teatro de rua aponta como julgamento sobre a peça “(...) Nada disso encontrei no espetáculo que designei-me a analisar. Alguém encontrou? Mas aí vai uma dica aos atores do Grupo Sinos de Teatro: ‘Esta tarde, tire a máscara da face e improvise´- não é senhor Pirandello? (Idem)

O título desse segundo comentário foi “Tirando a Máscara! (Qual mesmo???)”. E a terceira postagem que me obriguei a ler, por curiosidade técnica, foi “Qual é mesmo o seu talento”, em 05 de outubro de 2011:

“Pediram-me para falar sobre os espetáculos do ator Franklin Pires. Lamento não poder dizer NADA a respeito. Resigno-me apenas a comentar somente sobre aquilo que possa vir a ser ARTE. A arte é uma criação humana com valores estéticos (beleza, equilíbrio, harmonia, revolta) que sintetizam as suas emoções, sua história, seus sentimentos e a sua cultura (...)” (Idem)

Uma desconstrução cultural vem das divagações esquizofrênicas da senhora professora em seu simulacro de “nobres intenções” que se entrega à fogueira das vaidades ao destilar que:

(Franklin Pires em "Lord Gaga"/foto: divulgação)

“(...) Franklin Pires não tem carisma e nem talento. E não tivemos a sorte d’ele ter herdado as duas pernas do cromossomo de Bid Lima. Acho que Córpusculo e Lord Gaga só errou no ator: em vez de Franklin Pires bem que poderia ser Avelar Amorim que há tempos só atua em espetáculos fora do TEATRO. Tudo bem, faz tempo que eliminamos as imprescindíveis ‘cenas dos próximos capítulos´” (Idem)


Espero, sinceramente, jamais precisar recorrer a expediente de ler tão desbotados e desarrozoados comentários acerca da produção teatral da cidade. A Professora Santana não parece ter pago as cadeiras de Filosofia, Sociologia e Psicologia da Educação, nem tampouco ouviu falar da pedagogia paulofreireana. Saberá soletrar esse neologismo apresentado.

O Construtivismo sociocultural deveria ser pedra base das relações culturais e políticas do movimento teatral local. E não se dar nesse “metier” de escorpião sem ferrão. Humor e espirituosidade a professorinha não aprendeu a desenvolver. E, como crítica de arte e cultura, engessou os pés em barro dos pântanos da ignorância e amargura do(a) artista que não deu certo.

As citações de literatos universais de teatro, ou frases coptadas de orelha de livro se esvaziam num discurso de “denúncia vazia” e propósitos dissimulados que coram o âmago de quem não aprendeu a leitura e produção de texto para encantar leitores.

Professora Santana, “pegue uns panos pra lavar, leia um romance...” (mamãe coragem/t. neto). Use o espaço da web para aprender a ensinar. Quem sabe trazer noções básicas de literatura e teatro para nós outros ignorantes e sem traquejo para as cenas. A cidade lhe prestará uma coroa de flores no dia de sua passagem. “Seja feliz, seja feliz...” (mamãe coragem/t. neto)